A AVENTURA NO VALE


ENID BLYTON


Srie Aventura - 1


Editorial Meridiano


Digitalizao e Arranjo


Agostinho Costa


Este livro foi digitalizado para
ser lido por Deficientes Visuais


A passagem era sempre alta e larga, mas no seguia a direito. Descia e, apesar de muitas curvas, ia sempre na mesma direco, para o centro da montanha.
De repente, a passagem terminou. Joo parou, boquiaberto. Diante dele estava qualquer coisa de extraordinrio.
A lanterna iluminou uma poro interminvel de colunas brancas e brilhantes que pendiam do tecto alto duma gruta. Que seriam?
Maria da Luz agarrou-lhe o brao, tambm muito admirada. Olhou para aquelas coisas brancas e brilhantes e viu que, do cho da gruta, se erguiam mais colunas brancas.
Algumas haviam-se unido s que pendiam do tecto, o que dava a impresso de o tecto da gruta estar sendo sustentado por pilares.
- Joo! Que  isto?  o tesouro? - segredou Maria da
Luz.
(...)Os pequenos ficaram ali calados sem se cansarem de admirar a bela gruta silenciosa. O tecto era alto como o de uma catedral, e as graciosas estalactites pendiam
s dzias, brilhando  luz da lanterna de Joo.
(...) Joo apagou a lanterna, e imediatamente os pequenos ficaram boquiabertos de espanto. No tecto e nas paredes brilhavam milhares de estrelinhas. Eram verdes
e azuis e tinham um maravilhoso brilho tremulante.
- Cus! Que  isto? -segredou Dina de olhos esbugalhados. - Ser alguma coisa viva?
(...) "Margarida vai  fonte", disse a Didi, dando bicadas na cabeleira da mulher em que se tinha empoleirado.
Os pequenos ficaram outra vez muito encolhidos. Que iria a mulher fazer  Didi? Encant-la com aqueles olhos estranhos? Lanar-lhe um feitio que a transformasse
em pedra? Teria toda aquela gente sido transformada em pedra?


A AVENTURA NO VALE


Quarta Edio


MERIDIANO


TTULO ORIGINAL


The VALLEY ADVENTURE

copyright by MacMilan & Co. Ltd.


ILUSTRAES DE


STUART TRESILIAN


TRADUO DE


J. LENCASTRE CABRAL


Nota: Neste livro a paginao  inferior


ndice

Captulo I - NO AVIO DE JAIME ..................... 5


Captulo VII - UMA MARAVILHOSA DESCOBERTA ......... 53
Captulo VIII - A DIDI FALA DE MAIS ............... 61
Captulo IX - NOVOS PLANOS ........................ 69
Captulo X - UM BELO ESCONDERIJO .................. 77
Captulo XI - A GRUTA DO ECO ...................... 85
Captulo XII - NOVA PERSPECTIVA DA CASCATA ........ 93
Captulo XIII - SOS E SALVOS NA GRUTA ........... 101
Captulo XIV - O POBRE PRISIONEIRO ............... 109
Captulo XV - OS HOMENS APANHAM UMA DESILUSO .... 117
Captulo XVI - SALVANDO O PRISIONEIRO ............ 125
Captulo XVII - UM MAPA DO TESOURO ............... 134
Captulo XVIII - A CAMINHO DA PASSAGEM VENTOSA ... 141
Captulo XIX - UMA GRANDE DESILUSO E NOVOS PLANOS 150
Captulo XX - A CAMINHO DO TESOURO ............... 158
Captulo XXI - AS GRUTAS ESTRANHAS ............... 166
Captulo XXII - O TESOURO ........................ 174
Captulo XXIII - OS GUARDIES DO TESOURO ......... 183
Captulo XXIV - JOS DESCOBRE AS GRUTAS .......... 191
Captulo XXV - O AUDACIOSO PLANO DE FILIPE ....... 199
Captulo XXVI - O FUGITIVO ....................... 207
Captulo XXVII - UMA DESCOBERTA... E UMA BOA IDEIA 215
Captulo XXVIII - DEPOIS DA TEMPESTADE ........... 224
Captulo XXIX - UMA ESTRANHA VIAGEM .............. 232
Captulo XXX - JAIME ENTRA EM ACO .............. 240
Captulo XXXI - UM FINAL EMOCIONANTE ............. 249



Captulo I - NO AVIO DE JAIME


Didi, a catatua, estava desolada. Tinham-na deixado completamente s durante todo o dia, e o bicho, zangado, no parava de palrar consigo prprio.
"Que pena, que pena, que pena, pobre Didi, pobre animal! Viva o rei!  o r-r-rei que vai  caa. Bom dia, bom dia!"
A Sr.a Mannering veio espreitar  porta do quarto onde estava a Didi.
"No sejas tonta, Didi. Todo o dia a falar sozinha! Os teus amigos j no podem tardar".
"Pobre Didi", fez a Didi em tom lamentoso e batendo castanholas com o bico.

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"Faz-te c falta o Joo, no ?", observou a Sr.a Mannering, entretanto, fechando a porta com cuidado. "Ele j no se demora, Didi. Vais ver que no tarda que estejas
a ouvi-lo. Porta-te bem e no faas mais barulho".
A Didi abriu o bico, engoliu e fez a sua j famosa imitao do comboio, apitando  entrada dum tnel. A Sr.a Mannering tapou os ouvidos.
"s mesmo m! Quantas vezes te tenho dito que no faas isso?"
"Quantas vezes te tenho dito que feches a porta, feches a porta, feches a porta", replicou a Didi, emproando-se to descaradamente que a Sr.a Mannering lhe deu uma
pancadinha no bico, dizendo:
"s um bicharoco levado da breca. Mas escuta: parece que vm a os pequenos. Imagina que foram de avio, sabes, Didi! Foi por isso que tiveste de c ficar sozinha".
"Joo, Joo, Joo!", gritou a Didi ao ouvir a voz do dono. Os quatro pequenos irromperam pelo quarto com as faces vermelhas de entusiasmo.
- Ol, vivam! - exclamou a Sr.a Mannering. - Ento gostaram? Foi divertido andar l em cima, to alto?
-  me, nem faz ideia de como nos divertimos!
- Tia Lia, assim que eu for crescido hei-de comprar um avio.
- A me devia ter vindo connosco. Jaime pilotou o avio que foi uma maravilha!
- E eu no enjoei, tia Lia, embora o Jaime me tivesse dado um saco de papel para qualquer eventualidade...
A Sr.a Mannering ria-se. Falvam os quatro, todos ao mesmo tempo, e ela via-se atrapalhada para conseguir perceber o que diziam. A Didi deu um gritinho de contentamento
e voou para o ombro de Joo.
Ento, os quatro pequenos l se sentaram e prepararam-se para relatar a aventura do dia. Eram eles Filipe e Dina, filhos da Sr.a Mannering, de olhos e cabelos escuros
como os da me e tambm com um engraado tufo de cabelos que teimava em no assentar.

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Era por isso que tanto a Dina como Filipe tinham a alcunha de Trunfa no colgio. Depois havia os outros dois, Joo e Maria da Luz, que eram irmos, no tinham pai
nem me e viviam com a "tia Lia", como eles chamavam  Sr.a Mannering. Os quatro eram amigos e unidos
como irmos.
Joo e Maria da Luz eram muito parecidos. Ambos de cabelos ruivos e olhos verdes, tinham tantas sardas que era positivamente impossvel descobrir-lhes um bocadinho
de pele branca no rosto, nos braos ou nas pernas. Por isso, no admirava que chamassem tantas vezes Pintinhas ao Joo.
Didi, a catatua, pertencia-lhe. J a tinha h anos, era um bicho divertido e palrador, com um jeito notvel para repetir o que ouvia e para imitar qualquer rudo,
desde o de uma mquina de costura at ao apito dum comboio. Adorava Joo e ficava desolada quando se via separada
dele.
Joo tinha uma verdadeira paixo por pssaros e Filipe gostava de bichos de todas as espcies. Era dotado de um dom muito especial para os atrair, a ponto de eles
lhe obedecerem e gostarem dele dum modo inexplicvel. Trazia sempre com ele qualquer bicharoco estranho, facto que provocava discusses entre ele e a irm, Dina,
que se assustava com quase todos os animais. Mas agora nenhum deles pensava em coisa alguma seno naquele maravilhoso passeio no avio do amigo Jaime.
Jaime Smugs era um amigo dedicado. Ele e os pequenos j tinham vivido juntos aventuras de pr os cabelos em p. Uma vez haviam descido at ao fundo duma velha mina
de cobre, permitindo que uns falsrios muito perigosos fossem capturados. De outra vez, deram com o antro de uns perigosos espies. Como Jaime Smugs costumava dizer,
aqueles pequenos apareciam, sem se saber como, "no meio de aventuras
extraordinrias".
Ora acontece que tinham oferecido a Jaime um belo avio, aparelho de grande utilidade na profisso dele.

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Os pequenos tinham ficado doidos de entusiasmo quando ele lhes escrevera para o colgio a contar o facto.
- Vais ver que nos vai proporcionar um passeio - havia observado Joo. - Vais ver.
- Seno, ns pedimos-lhe - respondera Filipe. Mas no foi preciso pedir, porque Jaime estava desejoso de lhes mostrar o avio e de, apesar de ter poucas lies,
fazer ver como era capaz de pilotar bem.
- A me faz l ideia! Subimos muito acima das nuvens,
- explicou Dina. - E quando me pus a olhar para elas no pareciam nuvens. Era mesmo um grande campo coberto de neve. Que sensao estranha!
- Eu tinha um pra-quedas amarrado a mim para o caso de cair, e Jaime mostrou-me o cordo que eu devia puxar se houvesse perigo - afirmou Maria da Luz, a mais nova,
com os olhos a brilhar. - Mas no houve perigo.
- Sobrevomos at a nossa antiga casa, a Casa do Penhasco!
- explicou Filipe. - No faz ideia como era estranha assim, vista de cima. E tambm passmos por aqui, me. A nossa casa parecia uma casinha de brincar.
-  tia Lia, o Jaime diz que  ainda mais engraado voar de noite, porque se v a terra coberta de pontinhos luminosos
- cortou Joo. - Fartmo-nos de lhe pedir que nos levasse num voo nocturno, mas ele diz que tem de vir c pedir-lhe licena. Vai dar, no vai? O que no diro os
rapazes l da escola, quando eu lhes contar que subimos de avio de dia e de noite.
"Dia e noite", repisou a Didi. "L vai uma..."
- Anda com a cantiga das pombinhas na cabea - lembrou Joo. - O pequenito daqui do lado leva o dia a cantarolar e a Didi escuta e aprende bocadinhos. Ontem s falava
na "saia da Carolina", hoje  "L vai uma". Que ser amanh?
"A loja do mestre An", interrompeu a Didi, amavelmente.
"Andr, Andr", corrigiu Joo. "No  An".


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"An, An, An", repetiu a Didi, coando solenemente a cabea com a pata. "An, An..."
"Pronto, est bem", atalhou Joo. - Tia Lia, vai deixar-nos ir  noite com o Jaime? Amanh vem ele c pedir-lhe, D licena, no d?
- Que remdio tenho eu - respondeu a Sr.a Mannering, rindo. - Vocs e o Jaime! Desde que no se atirem de cabea para o meio de alguma aventura horrvel.
- As aventuras no so horrveis, so formidveis! - rectificou Filipe.
- Mas no para quem est de fora - respondeu a Sr.a Mannering. - s vezes at me sinto mal s de pensar nas aventuras em que vocs andaram envolvidos. Agora j basta.
- Est bem. Este Vero no nos meteremos em mais aventuras - prometeu Maria da Luz, abraando a tia. - No havemos de dar-lhe preocupaes. Eu tambm no quero mais.
J me chegaram as outras.
- Maricas! - exclamou Dina desdenhosamente. - Deixa estar que se entrarmos noutra, deixamos-te  parte, Maria da Luz.
- Isso  que no deixamos - interrompeu Filipe, dando um encontro a Dina. - No podemos passar sem a Luzinha.
- Juizinho e nada de discusses - disse a Sr.a Mannering, prevendo a formao duma das habituais e interminveis querelas. - Vocs esto cansados depois de tanta
excitao. Entretenham-se sossegadamente at ao jantar.
"O jantar est na mesa", observou a Didi. Os pequenos desataram a rir.
"s uma pateta, Didi", disse Joo com afecto. "Tiveste saudades nossas? Eu tive medo que fugisses se te levssemos. Mas eras capaz de te portares bem, no eras,
sempre empoleirada no meu ombro?"
A Didi ps-se a debicar delicadamente a orelha de Joo, emitindo sons carinhosos e colocando-se bem junto dele. Os pequenos comearam a falar das emoes do dia.

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- Foi uma beleza, ns a passarmos a porta com os nossos cartes de ingresso e a irmos ter com o Jaime como se fssemos crescidos - observou Filipe. - E que rico
o avio de Jaime!
- Nunca pensei que fosse to grande - comentou Maria da Luz.--Sabem, foi uma coisa estranha, eu sustive a respirao quando o avio descolou, pensando que ia ter
uma sensao esquisita quando despegssemos do cho, tal como me acontece quando vou de elevador. Pois nem dei conta das rodas levantarem da pista. At me assustei
quando olhei para baixo e vi que amos por cima das casas.
- Parece to fcil pilotar um avio! - interveio Joo -, Mais fcil do que guiar um carro. Quem me dera que o Jaime me deixasse experimentar.
-  o deixas - respondeu Filipe. - E quando apanhmos aquele poo de ar e o avio se ps a descer sem ns esperarmos? At senti uma contraco no estmago!
Os outros riram-se.
- Tambm eu - respondeu Maria da Luz. - Ainda bem que no enjoei. De nada me serviu aquele saco de papel, mas ainda bem.
- Andmos quilmetros - afirmou Joo. - S no me senti muito bem quando amos por cima do mar. Parecia que no tinha fim, e to montono. No gostava de cair ali!
Havia de espirrar gua por todos os lados!
- A me com certeza que nos deixa ir de noite com o Jaime - tornou Dina. - Lia-se-lhe na cara que ia dizer que consentia. Que bom! Jaime afirmou que podamos ir
at casa dele, aterrar de madrugada e passar o resto da noite com ele, como quisssemos, divididos pelos dois quartos que ele tem, e podamos dormir at ao meio-dia.
Imaginem: voar de noite e ir para a cama de madrugada!
- Depois regressaramos  tarde, com certeza - prosseguiu Joo. - Que sorte termos um amigo como o Jaime.  uma pessoa cheia de interesse. E tambm  emocionante
saber que ele anda sempre metido em assuntos secretos, dos quais,

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alis, nunca fala, sempre pronto a desvendar mistrios intrincados. Estar agora a tratar de algum?
- Est, com certeza! - respondeu Filipe. -  para isso que ele tem o avio. Pode ter de partir a todo o momento atrs de espies ou coisa parecida. Oxal eu esteja
com ele quando isso acontecer.
- Descansa que no ests - disse Dina. - O Jaime no nos deixava correr riscos.
- Quem me dera que deixasse - retorquiu Filipe. - Est a tocar para o jantar. Tenho uma fome!
- Isso no  novidade - interveio Dina. - Vamos, vamos ver o que h. Cheira a presunto com ovos.
Foram jantar. Tinham fome e liquidaram os ovos, o presunto e o bolo num abrir e fechar de olhos. A Didi serviu-se de bolo at a Sr.a Mannering protestar:
- Joo! V se consegues que a Didi no depenique as passas do bolo. Olha para isto! Daqui a pouco j no h bolo. Bate-lhe no bico.
"Grande marota!", observou Joo, batendo-lhe no bico. "Comer tudo no vale!"
"Quantas vezes te tenho dito...", comeou a Didi. Mas Joo estava cansado de mais para lhe dar troco.
"Nada de discusses", interrompeu ele. "Tenho tanto sono que vou j para a cama".
Estavam todos a cair de sono, e, por isso, foram-se deitar e depressa adormeceram para sonharem com avies que voavam por cima das nuvens e davam reviravoltas e
cambalhotas dum modo espantoso mas seguro.

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Captulo II - JAIME LEVA A SUA AVANTE



No dia seguinte, Jaime veio almoar com eles. Era um sujeito de rosto vermelhusco e cabea com uma grande careca e muito cabelo dos lados. Os garotos correram para
ele. A Sr.a Mannering sorriu-lhe.
- Os pequenos gostaram imenso do passeio de ontem - afirmou ela. - Esto agora todos entusiasmados com um voo nocturno. No sei porque h-de estar sempre a incomodar-se
com um bando de marotos como estes.
-  que nunca se sabe quando eles se preparam para alguma aventura extraordinria - retorquiu Jaime Smugs, fazendo-Lhes uma careta. - E eu no quero perder pitada.
Alm disso, tenho muita pena de si por ter de os aturar durante oito ou nove semanas, estas frias, por isso, pensei que seria uma obra de misericrdia tomar conta
deles tambm.
- E que projecta fazer? - perguntou a Sr.a Mannering. - Voar de noite, ir dormir  sua velha casa e voltar no dia seguinte?
- Foi a minha primeira ideia - admitiu Jaime. - Mas disseram-me agora que me vo dar dois ou trs dias de frias, e eu pensei que talvez no se importasse de se
separar dos pequenos por mais tempo. Podamos ir at  minha casita e ficar l a explorar aquilo. H pssaros com fartura para o Joo ver e o Filipe encontraria
sem dvida outros bicharocos. As pequenas tambm deviam gostar, com certeza.
- Que bom seria! - exclamou Joo, e os outros fizeram coro. A Sr.a Mannering ficou uns momentos a pensar.
- Bem, no vejo porque no ho-de ir consigo, Jaime. Bem sei que vai tomar conta deles para evitar que se metam em mais alguma aventura horrvel.

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- Isso lhe prometo eu - redarguiu Jaime. - L para os meus lados no h aventuras.  um lugar calmo e pacfico. Nunca l acontece coisa alguma.
- Se vocs prometerem no se meterem em qualquer complicao arriscada deixo-vos ir - dirigiu-se a Sr.a Mannering aos pequenos, encantados. - Quando os quer, Jaime?
- Amanh, se for possvel - respondeu Jaime. - O caso que tenho neste momento entre mos parece que no ata nem desata, por isso, bem posso aproveitar estes dias
agora.
- Que caso , Jaime? Conte! - pediu Maria da Luz. Jaime ps-se a rir.
- Impossvel - disse ele. - Bem sabem que o meu trabalho  sempre secreto. Mas, quando estiver terminado, conto-lhes tudo. Vero que  interessante.
- Vamos ter de fazer as malas, no vamos? - inquiriu Dina. - Como passamos l uns dias, devemos precisar de roupas e abafos.
- Levem camisolas e cales para andarem por l - preveniu Jaime. - E impermeveis tambm porque chove muito l para aqueles stios. E se a Sr.a Mannering pudesse
dispensar umas mantas, talvez no fosse mau, porque no devo l ter cobertores que cheguem para todos.
- Eu arranjo isso - concordou a Sr.a Mannering.
- Vou levar a minha bela mquina fotogrfica - disse Joo. - No avio h lugar para estas coisas, no h, Jaime?
- Ento no h! - respondeu Jaime. - Traz tambm o teu binculo se quiseres observar os pssaros da serra.
- Vai ser maravilhoso! - exclamou Joo, com os olhos brilhantes de entusiasmo. - Parece que nem sou capaz de esperar pelo amanh. E se fssemos j hoje?
- O avio no est preparado - retorquiu Jaime. - Tenho de dar-lhe hoje um jeito. Tambm s amanh  que entro de licena. Vocs fazem as malas, preparam tudo e
vo ter comigo ao aeroporto amanh  noite. Conto com vocs s onze horas
em ponto. Mando c um carro busc-los.

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- Mas que hora para comear uma viagem! - observou a Sr.a Mannering. - Confesso que no me agrada muito.
- Agora no pode voltar com a palavra atrs! - exclamaram os pequenos.
- Descansem, que no volto - tranquilizou-os a Sr.a Mannering. - Mas no me sinto muito confiante. Vocs nada vo fazer de perigoso, pois no?
- Nada h de perigoso que se possa fazer - sossegou Jaime. - Eu tomo conta deles. Aquele que fizer alguma coisa de arriscado ser recambiado para a Sr.a Mannering.
Os outros pequenos riram-se mas Joo ficou, de repente, muito srio.
- E a Didi? Posso lev-la? E parece-lhe que ela se porta bem no avio.
-  melhor met-la num cesto, ou coisa idntica - opinou Jaime. - Pode assustar-se com o barulho e levantar voo. Numa cesta vai bem. Deix-la c  que no pode ser.
- Belo! - exclamou Joo, satisfeito. "Ests a ouvir, Didi! Vais viajar de cesto, v l como te portas!"
"Limpa os ps", fez a Didi, "Viva o rei! Pobre Lena!" "Pateta", exclamou Joo, coando-lhe a cabea. "S espero que no te ponhas a imitar o barulho do avio. O
apito do comboio j chega para nos atormentar".
O almoo decorreu alegremente. Por fim Jaime retirou-se. Os pequenos subiram aos quartos para arranjarem as suas coisas. Dina ps na mala um grande pacote de chocolates,
para o caso de no haver lojas perto da casa de Jaime. Joo preveniu-se com bolachas. Acordava muitas vezes de noite e gostava de ter uma bolacha para trincar.
-  melhor levares bastantes rolos de pelculas contigo para o caso de quereres fotografar os pssaros - recomendou-lhe Filipe. - Apostaria em como no h onde os
comprar l onde o Jaime vive.  que fica mesmo no meio do campo.
A Sr.a Mannering veio ver o que eles estavam a meter nas malas. Era Agosto, mas, por vezes, chovia e o tempo estava fresco, por isso precisavam de muitas coisas
quentes.

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Levavam camisolas, casacos, impermeveis e chapus de oleado, a me acrescentou ainda botas de borracha, pensando que os sapatos no eram grande coisa para andar
pelos campos molhados.
- Tambm arranjei umas mantas - disse ela. - Cada um de vocs leva uma. So velhas, mas grossas e quentes. Valem bem por dois cobertores. Se o Jaime no tiver cobertores
para todos, tambm no fazem falta, as mantas chegam para vos aquecer. Vejam l no se esqueam de as trazer.
Joo preparou a mquina e arranjou os rolos. Hesitou se levaria ou no um livro sobre pssaros, mas decidiu-se pela negativa porque a mala j pesava muito.
- Est tudo pronto, tia Lia - disse Maria da Luz, sentando-se na mala para a fechar. - Quem me dera c o dia de amanh. Imaginem, ns a voar s escuras! Nunca pensei
que iria fazer semelhante coisa. Oxal leve muito tempo a chegar a casa de Jaime.
- E leva realmente - respondeu a Sr.a Mannering. - Mas vamos a ver: o melhor  eu arranjar-vos umas fatias de po e bolo para a viagem, porque se ficarem a p toda
a noite vo ter fome. Amanh trato disso. J arranjaste o cesto para a Didi, Joo? E comida para ela? Veio hoje um pacote de sementes de girassol. Mete-o na mala.
Joo arranjou um belo cesto com uma tampa para a Didi. P-lo em cima da mesa. A Didi voou para l cheia de curiosidade. Saltou para dentro e ps-se a espreitar para
fora com um ar muito cmico.
- Isto  que ela  esperta! - exclamou Joo. J sabes que vai ser o teu cesto de viagem, no sabes?
"Deus salve o rei!", fez a Didi, comeando a esfregar o bico adunco nas bordas do cesto.
"No faas isso", intimou Joo. "Ds cabo dele. Pra l com isso, Didi!"
A Didi saiu do cesto, empoleirou-se no ombro de Joo e comeou a esfregar o bico no cabelo.
"L vai uma", murmurou. "Trs pombinhas a voar".

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"Uma catatua a voar, queres dizer", observou Maria da Luz. "No sei se sabes que vais andar de avio!"
O dia passou lentamente, mesmo muito lentamente. O dia seguinte ainda custou mais a passar.  hora do ch os pequenos j tinham a sensao de que a noite nunca mais
chegaria.
Mas ao jantar j se sentiam mais animados. O carro que os transportava ao aeroporto chegava s dez e um quarto. Depois entrariam para o avio com o Jaime e l iriam
pelo escuro fora. No sabiam porqu, mas parecia-lhes muito mais emocionante voar de noite do que  luz do dia.
Deram as dez horas. Trouxeram as malas e as mantas para a entrada. Tambm l puseram a mquina de Joo e um grande embrulho com as fatias de po com presunto e os
bolos. O binculo levava-o Joo a tiracolo. O cesto da Didi tambm estava, mas a catatua andava  solta. S tencionavam fech-la  ltima hora.
- L vem o carro! - exclamou Filipe, cujo ouvido apurado depressa captou o rudo do carro que subia at  porta. - Venham! Adeus, me! Tenha cuidado consigo at
ns voltarmos!
- Adeus, tia Lia - despediu-se Joo, abraando-a. - Ns
mandamos-lhe um postal. Anda, Didi, so horas de ir para o cesto.
A Didi custou um bocado a entrar. Estava contagiada pela excitao dos quatro pequenos. Ainda levou tempo a met-la no cesto e a fechar a tampa. Ps-se a gritar
com quanta fora tinha.
"Pobre Lena, pobre Lena, viva o rei! L vai uma, andaram de mo em mo!"
"Ests a fazer uma salada de cantigas", observou Maria da Luz, rindo-se. "Cala-te, Didi! Devias estar contente por vires connosco, mesmo tendo de viajar numa cesta
fechada".
Estavam feitas as despedidas e a Sr.a Mannering ainda observou:
- No sei porqu, mas no me agrada deix-los ir. -  uma tolice, mas a verdade  que no fico tranquila. Parece que tenho um pressentimento,

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como se vocs fossem meter-se numa situao perigosa.
- J prometemos que no - retorquiu Filipe muito srio. - No se preocupe. Nada nos vai acontecer e daqui a uns dias voltaremos so e salvos. Seja como for, o Jaime
tem telefone, por isso pode comunicar connosco quando quiser.
O carro desceu a vereda e a Sr.a Mannering ficou  porta a fazer acenos de despedida.

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Os pequenos acenavam tambm, muito excitados. E l foram.
- C vamos a caminho do aeroporto! - comentou Filipe, radiante. - Parecia que a noite nunca mais chegava. Que horas so? Ainda  cedo. Belo. Tens os bilhetes de
ingresso, Joo?
- A Dina  que os meteu na mala - respondeu Joo. Dina l os encontrou. Eram as autorizaes de entrada na pista que lhes permitiriam chegar junto de Jaime.
Ainda era longe o aeroporto. A noite estava escura e o cu coberto de nuvens, o pra-brisas comeou a ficar salpicado de gotas de chuva.
- C est o campo! - exclamou Joo, ao ver as luzes pela janela. - Olhem para a pista, toda iluminada. No  maravilhosa? Que grandes ficam os avies com aquelas
sombras aos lados! Vamos, Dina, as autorizaes. Temos de as mostrar agora.
Mostraram os bilhetes ao homem que estava na entrada e l foram.
- Vo ficar aqui para falar ao vosso amigo - declarou o motorista. - Depois vou ao avio e deixo-lhes l as malas. At j!
- Agora vamos procurar Jaime - disse Filipe enquanto o carro se afastava. - L est ele! Jaime, j c estamos!

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Captulo III - UM PERIGOSO ENGANO


Jaime estava a conversar com alguns homens. Acenou aos pequenos, no parecendo, no escuro da noite, mais do que uma sombra alta e corpulenta.
- Ol, pequenos! Agora estou ocupado. Vo para o avio e esperem l por mim. Arrumem as malas atrs, ao p da minha. Daqui por uns dez minutos l estarei.
- Est bem, Jaime - respondeu Joo, e os quatro dirigiram-se para o local onde o motorista lhes tinha deixado as malas, ao p de um avio.
Estava muito escuro, mas os pequenos viam o suficiente para arrumarem as malas. Subiram a escada e entraram.
L dentro nada se via. Como no sabiam onde acender a luz, dirigiram-se s apalpadelas para a cauda do avio, onde pousaram as malas e as mantas. - Joo ps o cesto
da Didi no cho com todo o cuidado. A catatua no parava de exteriorizar a sua indignao.
"Foi na loja do mestre An", palrava ela. "Deus salve o rei!"
A meio do avio estava um grande caixote. Os pequenos no puderam deixar de pensar no que estaria l dentro. Estaria vazio ou cheio? Devia ser qualquer coisa que
o Jaime queria levar para casa.
- Ocupa o espao todo - comentou Joo. - Com isto aqui nem podemos sentar-nos como deve ser. Instalemo-nos l atrs em cima das mantas. Ali ficamos bem. Quando o
Jaime vier, talvez arrede um bocadinho o caixote e nos diga onde havemos de ficar.
E sentaram-se pacientemente nas mantas,  espera.

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O barulho dos motores dos avies l fora nada mais deixava ouvir, apesar de Joo dizer uma vez que ouvia algum a falar alto.
Foi at  porta e olhou para fora. Estava tudo escuro e de Jaime nem sombra. Que demora!
Voltou para o lugar, bocejando. Maria da Luz estava meia a dormir.
- Quem me dera que Jaime viesse - dizia Filipe. - Estou aqui estou a dormir.
Foi ento que, num momento, aconteceram muitas coisas. Sobrelevando os rudos dos motores ouviram-se tiros. Os pequenos levantaram-se de um salto.
Depois ouviu-se outro tiro, algum subiu apressadamente a escada do avio e um homem atirou-se para a cadeira do comando. Depois chegou outro, arquejante, que quase
no se via, no escuro. Os pequenos ficaram estarrecidos. Que queria aquilo dizer? Algum daqueles homens seria o Jaime? Mas quem era o outro? E porqu tanta pressa?
O primeiro homem tomou o comando e os pequenos ficaram admirados ao notar que iam a andar. Mas porque no lhes teria Jaime falado? Nem sequer olhava para trs para
se certificar de que eles estavam l!
- Calem-se! - aconselhou Joo aos outros. - Se o Jaime no nos fala  porque l tem as suas razes. Talvez no queira que o outro saiba que estamos aqui. Deixem-se
estar calados.
O avio descolou, com os motores a fazerem um grande barulho, contra o vento.
Os homens falavam bem alto um com o outro, mas os pequenos no conseguiam perceber o que eles diziam por causa do rudo dos motores. Deixaram-se ficar quietos e
calados, escondidos pelo grande caixote que ocupava o centro do avio.
Jaime no lhes dirigia a palavra. Nem perguntava se eles l estavam, nem mandava o companheiro ver se iam bem. Fazia de conta que eles no estavam ali. Era estranho
e Maria da Luz no estava a gostar daquilo.
Um dos homens tacteou a parede e encontrou um interruptor. Puxou o boto e a luz iluminou a zona onde estavam os dois homens, deixando o resto do avio s escuras.

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Filipe foi espreitar por trs do caixote para ver se encontrava o olhar de Jaime, mas logo a seguir regressou para o p dos outros, sentando-se silenciosamente,
sem dizer palavra.
- Que foi? - perguntou Joo, sentindo que Filipe estava preocupado.
- Vai tu dar uma espreitadela por ali - disse Filipe. - E repara bem nos dois homens.
Joo foi espreitar. Voltou admirado e assustado.
- Nenhum deles  o Jaime. Que coisa estranha! - exclamou.
- Que queres dizer? - perguntou Maria da Luz alarmada. - Um deles tem de ser o Jaime. Este avio  dele.
- Tens a certeza? - perguntou Dina subitamente. - Repara ali naqueles assentos que esto iluminados, Maria da Luz. So encarnados, e os do avio de Jaime eram verdes,
que eu bem me lembro.
- Pois eram - disse Joo, lembrando-se. - E esta! Enganmo-nos no avio!
Fez-se um penoso silncio. Ningum sabia o que pensar. Tinham-se enganado no avio. Aquele no era o do Jaime! Iam dois estranhos no comando, que provavelmente ficariam
muito zangados quando descobrissem aqueles inesperados passageiros. Pelo menos nem Joo nem Filipe gostavam do aspecto dos homens. A verdade  que s lhes tinham
visto as nucas e uma das faces de um deles que se virara para falar com o outro, mas nenhum dos rapazes se sentira atrado por eles.
"Tm um pescoo to gordo!", pensou Joo. " horrvel! E depois aqueles tiros, quem sabe se tero alguma coisa que ver com eles! Subiram para o avio to precipitadamente
e puseram-se logo a andar. Parece-me que voltamos a cair em cheio noutra aventura".
Filipe falava com cautela. Segredar era impossvel, porque ningum ouviria. Por isso via-se obrigado a falar em tom mais alto, esperando no ser ouvido pelos homens
que seguiam  frente.
- Que havemos de fazer? Enganmo-nos realmente no avio! A culpa foi daquele estpido motorista que foi pr as nossas coisas ao p deste avio.

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Estava to escuro que ns no vimos a diferena.
Maria da Luz chegava-se muito a Joo, assustada. No lhe era agradvel voar no escuro, num avio desconhecido, com homens que nunca tinham visto.
- Que havemos de fazer? - perguntava Joo a si prprio. - Estamos metidos numa grande alhada. Estes dois homens devem ficar furiosos quando derem por ns!
- Sero capazes de nos deitar pela porta fora - lembrou Maria da Luz, alarmada. - E nem sequer temos pra-quedas. Joo, no deixes que eles nos descubram.
- Mais tarde ou mais cedo descobrir-nos-o - respondeu Dina. - Fomos uns palermas em nos enganarmos no avio! Foi coisa que nunca me passou pela cabea.
Fez-se novo silncio. Cada qual procurava uma soluo.
- E se nos deixssemos estar aqui atrs em cima das mantas? Pode ser que no nos vejam - sugeriu Filipe. - Quando chegarmos a qualquer parte talvez possamos sair
do avio sem sermos vistos e pedir a algum que nos ajude.
-  a nica soluo - concordou Joo. - Aqui estamos bem escondidos, a no ser que venha algum deles c atrs buscar qualquer coisa. Talvez cheguem ao destino, saiam
sem nos ver, e ns, ento, escapamo-nos e pedimos a algum que nos ajude a voltar para casa.
- Gostava tanto de estar com o Jaime - lamentava-se Maria da Luz, quase a chorar. - Que ir ele pensar?
- Quem sabe! - exclamou Joo tristemente. - Deve andar  nossa procura por todo o aeroporto. Sabem, parece-me que era o Jaime que ns ouvimos gritar quando eu fui
 porta ver o que era. Deve ter entrado no avio dele, viu que no estvamos l e ps-se a gritar por ns. Se eu tivesse adivinhado!
- Agora  tarde - protestou Filipe. - Oxal a me no esteja preocupada. Vo pensar que nos metemos de cabea noutra complicao. E ns que prometemos no ter mais
aventuras...
O avio roncava pela noite fora.

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Os pequenos no sabiam se iam para o Norte, para Sul, Leste ou Oeste. Foi ento que Joo se lembrou que tinha uma bssola de algibeira e tirou-a para fora.
- Vamos na direco Leste - disse ele - Para onde iremos ns? Nem me parece que estou num avio, nada posso ver l para baixo.
Os outros sentiam o mesmo. Maria da Luz deitou-se nas mantas a bocejar.
- Vou dormir. Assim acordada s consigo assustar-me e preocupar-me.
-  boa ideia - admitiu Filipe, estendendo-se tambm nas mantas.
- Quando chegarmos, acordamos com certeza.
- Algum quer uma sanduche ou uma fatia de bolo? - perguntou Dina, lembrando-se do embrulho. Mas nenhum deles quis coisa alguma. O susto de se encontrarem num avio
desconhecido tinha-lhes tirado o apetite.
Todos adormeceram, excepto Joo. Ficou acordado a pensar. Teria Jaime alguma coisa que ver com aqueles tiros que eles tinham ouvido? E estes homens, estariam eles
relacionados com o caso em que Jaime andava empenhado, o caso "secreto"? Talvez ele e os outros descobrissem alguma coisa que fosse til ao Jaime. Era importante
que os dois homens no viessem a saber que havia passageiros escondidos no avio.
A Didi soltou um guincho desesperado de dentro do cesto. Joo deu um salto. Tinha-se esquecido da Didi. Bateu no cesto e falou numa voz to baixa quanto possvel,
esperando que o animal o ouvisse.
"Cala-te, Didi! Haja o que houver no faas barulho.  muito importante o que estou a dizer. Ests a ouvir, Didi! Tens de estar calada, percebeste?"
"Calada",, repetiu a Didi de dentro do cesto. "Ch-ch-ch-ch-ch!". Joo no pde deixar de sorrir.
"Pois", disse ele, encostando-se ao cesto. "Ch-chchch-chch!"

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Depois disto, a Didi calou-se. Era um pssaro maroto e barulhento, mas ficava calado sempre que Joo ordenava. Deixou-se ficar no cesto, procurando meter a cabea
debaixo da asa para dormir. Mas o rudo forte dos motores perturbava-a. Nunca ouvira semelhante coisa. Estava-lhe mesmo a apetecer imit-lo. Felizmente no o tentou
nessa altura.
Passado um bocado, os homens trocaram de lugares, passando o segundo para o comando. O primeiro bocejou e espreguiou-se. Depois ps-se de p e Joo ficou apavorado
s de pensar que ele era capaz de vir  cauda do avio.
No sabia se devia ou no acordar os outros.
Mas o homem no veio para a cauda. Deixou-se ficar de p um bocado, como para desentorpecer as pernas e depois acendeu o cachimbo. O fumo azulado evolou-se para
a cauda do avio. Joo ficou aliviadssimo quando viu o homem voltar a sentar-se.

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Depressa lhe veio o sono. Deitou-se ao p dos outros, contente por ter um casaco, porque estava muito frio. Depressa adormeceu. S a Didi ficou acordada, batendo
o bico de vez em quando, intrigada, sem perceber nada desta estranha aventura nocturna.
O avio continuava a voar no escuro, passando por cidades e aldeias, campos, rios e bosques. Tambm passou pelo mar, onde tremulavam tenuamente as luzes de barcos.
Viam-se brilhar as luzes das cidades e, aqui e ali, o foco dum aeroporto iluminava o cu. Mas o avio no descia. Passava por eles, sempre na direco de Leste,
at de madrugada.
Ento, pouco antes de romper o Sol, comeou a descrever crculos mais devagar. Descia e, de uma vez, desceu to depressa que os pequenos iam rebolando. Acordaram
e sentaram-se sem saber onde estavam. Mas depressa se lembraram e ficaram a olhar muito uns para os outros.
- Vamos aterrar. Onde teremos vindo dar? Agora alerta! Assim que surgir uma oportunidade, escapamo-nos - segredaram uns aos outros. - C vamos ns a descer, estamos
a aterrar!

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Captulo IV - ONDE ESTAREMOS?


O avio aterrou, pousando com uma certa violncia e assustando os pequenos. Depois correu um pouco sobre as rodas enormes e parou. Tinham chegado ao destino.
Onde estariam? A manh rompera e a luz entrava pelas janelas, mas ainda no era dia claro. Um dos homens desligou os motores. Imediatamente uma grande calma e paz
invadiram o avio. Que maravilha deixar de ter aquele ensurdecedor rudo a atormentar os ouvidos! As quatro crianas sentiram-se aliviadas.
Ouviram as vozes dos homens:
- Foi um trajecto rpido e a aterragem foi boa. Manobraste bem o aparelho, Jos.

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- No temos muito tempo a perder - respondeu o interpelado. - Toca a sair para ver se desentorpecemos as pernas. Vamos  barraca ver se comemos.
Para grande alegria dos pequenos, os homens saram do avio e desapareceram. Nem sequer tinham ido atrs do caixote, onde descobririam os quatro amigos! Talvez pudessem
sair j dali para pedir ajuda a algum. Fosse como fosse, poderiam mandar recado a Jaime e  Sr.a Mannering para que no estivessem em cuidado.
- Vamos - disse Joo, levantando-se cautelosamente. - Temos de espreitar pela janela para ver onde estamos. Com certeza que num campo de aviao. Devemos encontrar
um ou dois mecnicos e pedir-lhe-emos que nos indiquem alguma autoridade.
Comprimiram-se todos junto da janela mais prxima, mas ficaram desolados!
No estavam em qualquer campo de aviao, mas sim num vale, num terreno amplo e plano, coberto de erva, e o vale parecia rodeado de enormes montanhas por todos os
lados.
- Mas onde estaremos ns? - perguntou Joo. - Parece que viemos dar ao fim do mundo.
- Estamos num vale - respondeu Filipe. - Com montanhas a toda a volta. So lindas, no h dvida, mas horrivelmente solitrias! Quem nos poder ajudar num stio
destes? Avio que nos leve outra vez para casa no arranjamos com certeza.
No se via uma casa ou qualquer outra construo. Do outro lado do avio a vista era precisamente a mesma: montanhas por todo o lado. Pelo que viam, estavam no sop
de todas, num vale verdejante. Que estranho! Que viriam ali fazer aqueles homens?
- E agora? Samos, ficamos, ou qu? - perguntou Dina.
- No sei o que pensas, Filipe, mas eu no gosto daqueles homens, nem da maneira como saram, no meio da noite, depois daquele tiroteio, nem deste vale solitrio
- comentou Joo. - Mas, em todo o caso, parece-me melhor sairmos para explorarmos isto.

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Talvez encontremos gente do campo, pastores, ou coisa parecida.
- Em que pas estaremos?--perguntou Maria da Luz. - Falaremos a lngua deles?
- Estou convencido de que no - respondeu Filipe. - Mas temos de esforar-nos por nos fazermos compreender.
- S gostava de saber o que querero daqui aqueles homens - dizia Dina pensativa. - Isto  to solitrio! No parece que andem metidos em coisa boa. O melhor ser
ver se samos daqui enquanto podemos. Depois escondemo-nos e tentaremos descobrir algum que possa ajudar-nos. Quando voltarmos para casa havemos de contar tudo
ao Jaime.
- Boa ideia - concordou logo Joo.
- Quem me dera outra vez o ar livre. Est muito abafado dentro do avio.
Olharam com cuidado por todas as janelas para ver se conseguiam descobrir os dois homens mas nem sinais deles havia.
-  melhor irmos andando - opinou Joo. - E que fazemos ns s malas, s mantas e  Didi?
- No podemos deix-los aqui - respondeu Filipe. - No queremos que eles descubram que ns viajmos no avio deles. Levamos tudo connosco.
Os quatro l saram do avio, dando as malas e as mantas uns aos outros. A Didi emitiu umas palavrinhas de desagrado por ser tratada como bagagem, mas sempre baixinho.
Pouco depois j os pequenos estavam fora do avio, sem saber para onde ir. Joo deu uma cotovelada a Filipe to repentinamente que o fez dar um salto.
- Olha! Olha para ali!
Todos olharam e viram uma espessa espiral de fumo azul que se erguia no ar.
- Os homens acenderam lume l adiante - disse Joo em voz baixa. -  melhor no irmos naquela direco. Vamos por este caminho, se  que se lhe pode chamar caminho.
O grupinho contornou umas grandes rochas e foi dar a um riacho

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que gorgolejava pelo monte abaixo. Rebentava como uma nascentezinha para logo se transformar num ribeiro.
- Podamos beber gua daquela - disse Filipe. - Tenho tanta sede! Fome  que no tenho.  curioso!
-  de estarmos cansados, preocupados e sem sabermos o que fazer - respondeu Joo. - Bebamos com as mos em concha. Tambm tenho sede.
A gua, deliciosa, era muito fresca e cristalina. Todos se sentiram melhor depois de beber. Dina mergulhou um leno no ribeiro e limpou a cara. Depois sentiu-se
muito mais fresca e Maria da Luz fez o mesmo.
- O que temos a fazer  arranjar um bom lugar onde possamos esconder-nos e  bagagem - lembrou Joo. - Se aqueles homens se pem a andar por aqui, podem encontrar-se
connosco. Para onde havemos de ir?
- Continuemos a andar - sugeriu Dina. - Pelo monte acima. Se ficarmos num lugar elevado poderemos ver o avio no vale e orientar-nos-emos. Temos  de seguir junto
s rvores.
- Est bem - respondeu Filipe, e l foram andando devagar junto s rvores. Estavam mais seguros ali. No seria fcil descobri-los. Por outro lado, viram que j
no conseguiam vislumbrar o avio.
- Para o vermos s temos de trepar a uma rvore - disse Joo.
- Olhem, aquilo no  uma casa?
Numa clareira estava o que parecia uma casa, mas, quando se aproximaram, verificaram que estava toda queimada, era uma runa negra, vazia e deserta.
- Que pena! - lamentou Filipe. - Podamos to bem pedir ajuda aos donos desta casa. Porque ter ela ardido?
Subiram mais um bocadinho, atravs dum grupo de vidoeiros prateados. Viram outra construo um pouco mais acima, mas ficaram admirados e desolados ao verificar que
tambm no passava duma runa negra e torcida.

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- Duas casas queimadas e ningum que se veja - disse Joo. -  estranho. Que ter acontecido neste vale?
Ainda mais acima viram outra casa. Estaria tambm queimada? Foram at l e ficaram a olhar desesperados.
- Tudo queimado - exclamou Dina. - Que coisa horrvel! Que ter acontecido s pessoas que viviam aqui? Deve c ter havido guerra, ou coisa parecida. Onde estaremos
ns?
- Olhem: aquele estbulo ou l o que , no est muito queimado - informou Joo. -- Vamos ver se ainda tem tecto. Se assim for, pomos l as nossas coisas.
Dirigiram-se para o estbulo. Parecia que as chamas tinham devorado metade e deixado a outra. O tecto estava em parte derrubado, mas atrs havia um lugar abrigado,
com divisrias onde as vacas costumavam ficar.
- Estamos aqui bem - afirmou Joo entrando na ltima divisria. - O tecto aqui abriga-nos da chuva, se a houver, e h por ali umas grandes nuvens. Podemos c pr
as nossas coisas.
- O cho est todo sujo - observou Maria da Luz, torcendo o nariz, enjoada.
- Talvez arranjemos uma vassoura ou coisa parecida para o limparmos. Depois cobrimo-lo com ervas e fetos - sugeriu Dina. - Ento, se pusermos as mantas em cima,
at podemos dormir aqui. Somos capazes de no encontrar hoje algum que nos ajude. Sempre podemos passar c a noite.
Pousaram as malas naquele canto e colocaram-lhes as mantas em cima. No topo puseram o cesto com a Didi. A catatua soltou um protesto.
- Parece-vos que a podemos soltar? - perguntou Joo. - Estou convencido de que, se eu lhe disser,  capaz de ficar horas seguidas empoleirada no meu ombro. Deve
sentir-se muito pouco confortvel ali encaixada.
-  melhor solt-la - interveio Filipe. - Se voar para qualquer parte e os homens a virem no sabero o que ela  nem a quem pertence.

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Se se puser a falar, ainda lhes prega um bom susto.
Soltaram a Didi, que ficou radiante. Saiu do cesto e voou para o ombro do Joo, para lhe dar bicadinhas ternas na orelha.
"Onde meteste o leno?" perguntou. "Quantas vezes te tenho dito..."
"Pronto, Didi, pronto", interrompeu Joo. "Se queres ser bonita, no fales to alto".
"Chhhhhh", fez a Didi com toda a energia. Depois calou-se e deixou-se estar quieta a bater o bico.
- E agora, que fazemos? - perguntou Filipe, sentando-se na mala. - Vamos prosseguir nas exploraes, e ver se encontramos algum que nos ajude? Preferem vigiar aqueles
homens para ver se descobrimos o que vieram c fazer, ou ficamos simplesmente aqui escondidos?
- Parece-me que o melhor  continuar a explorar isto. O que mais nos interessa  descobrir quem nos ajude. Devemos regressar a casa imediatamente, se pudermos. A
tia Lia e o Jaime devem estar doidos de aflio por nossa causa - afirmou Joo.
- Este vale  to bonito! - observou Dina, espreitando para fora do estbulo arruinado. - No percebo porque no est coberto de casas, gado e carneiros. O facto
 que no se v vivalma. Nem fumo, a no ser aquele bocadinho que vem de onde os homens esto. Que mistrio! Porque estaro aquelas casas todas queimadas e por que
ser que no h ningum aqui?
- A verdade  que ns s explormos um bocadinho do vale e da encosta - respondeu Filipe. - Podemos dar uma volta e talvez encontremos uma aldeia completa. Que grandes
so as montanhas!
- Formam um crculo em volta do vale - observou Maria da Luz. - Onde ser a passagem? H sempre passagens nas montanhas, no h?
- Pois h - respondeu Joo. - Mas no me interessava pr-me  procura duma sem saber o caminho. Vs aquela montanha?

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 branca l no alto. Deve ser neve. Por aqui j se v como  alta.
Era realmente um bonito vale e magnficas as montanhas que o rodeavam. Mas tinha um ar solitrio e deserto, e at os poucos pssaros que por ali passavam pareciam
silenciosos e cautelosos.
- Aqui h um mistrio qualquer - lembrou Joo. - Sabem, estou convencido de que nos metemos noutra aventura.
- Tolice! - exclamou Filipe. - Daqui a pouco encontramos uma quinta, pedimos ajuda, mandamos notcias, dirigimo-nos at uma estrada, vamos de carro  cidade mais
prxima e de l para um aeroporto. Vo ver que amanh estamos em casa.
- Vo ver que no - discordou Joo. Maria da Luz ficou alarmada.
- E que comemos ns? - perguntou ela. - S temos o embrulho da tia Lia, umas bolachas e chocolate. Se no formos para casa depressa morreremos de fome. Aqui nada
h que comer.
Ningum tinha pensado nisso. Que aborrecimento! Uma aventura era uma coisa, mas uma aventura sem nada que comer era muito diferente. Isso  que no podia ser.
- No me parece realmente que isto venha a ser grande aventura - ripostou Joo. Mas foi realmente. Aquilo no era ainda mais do que o princpio.

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Captulo V - CONTINUAM AS EXPLORAES


As quatro crianas dirigiram-se  porta arruinada e olharam para as montanhas que as rodeavam. Parecia fecharem o vale e transform-lo numa priso verde. Nenhum
dos pequenos tinha jamais visto montanhas to altas. Duas ou trs delas tinham, a meio, crculos de nuvens e s se lhes viam os cumes quando,' de quando em quando,
as nuvens deslizavam e se dividiam!
- Que lugar solitrio! - exclamou Joo. - Deve haver por aqui uma espcie de pssaros estranhos, embora ainda no tenha visto mais do que um ou dois,  curioso aqueles
homens saberem assim aterrar neste vale, aquele relvado  realmente um belo campo de aterragem. No deve ser a primeira vez que c vm.

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Mas que viro c fazer? No parece haver grandes atractivos por aqui, nem um hotel, nem sequer uma cabana que no esteja queimada, pelo que parece.
- Pode ser que haja - refutou Filipe. - Mas olha para esta lagartixa. Nunca vi nenhuma assim. Que bonita!
A lagartixa correu junto dos ps de Filipe. O rapaz curvou-se e as suas mos hbeis agarraram o bichinho pelo pescoo. Se o tivesse apanhado pelo rabo, este com
certeza se quebraria e a lagartixa fugiria sem ele.
- Pe-na no cho, Filipe, pe! - exclamava Dina. - Que bicho horrvel!
- Isso no  verdade - respondeu Filipe. - Olha para as patinhas dela, e para os deditos. Olha, Dina!
Dina soltou um guincho e empurrou Filipe. Maria da Luz e Joo ficaram a olhar para a lagartixa com interesse.
- Parece um drago minsculo - observou Joo. - Abre a mo para ver se ela fica contigo, Filipe.
- Est claro que fica! - respondeu Filipe, que parecia ter um poder mgico sobre os animais nos quais tocava. Abriu a mo e deixou a lagartixa descansadamente na
palma. O bichinho nem tentou fugir.
- Vs? Quer ficar comigo. E h-de ficar. Como te chamas, bichinha? s capaz de ser Tixa.
Maria da Luz no pde deixar de rir, esquecida por momentos de todas as preocupaes. Que belo nome para uma lagartixa. Era mesmo do Filipe arranjar um nome assim.
- Vamos ver se consigo apanhar umas moscas para ti, Tixa - proferiu Filipe, dirigindo-se para um lugar cheio de sol onde as moscas zumbiam. Apanhou uma, segurou-a
entre os dedos e estendeu-a  lagartixa. A mosca desapareceu num abrir e fechar de olhos, e a lagartixa pestanejou deliciada.
- Agora estou a ver que vais deixar que essa lagartixa habite a tua algibeira ou qualquer outra parte do teu vesturio durante sculos - asseverou Dina, enojada.
- Nunca mais me chego para o p de ti. Quando no tens um rato no pescoo,


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tens um sapo na algibeira, um ourio beb que passeia por ti, ou umas carochas. s insuportvel!
- Nada de discusses - ordenou Joo. - Temos coisas mais importantes para nos preocuparmos.
A lagartixa enfiou-se pela manga de Filipe acima. A Didi tinha estado a observ-la com a cabea de lado. No apreciava muito os bicharocos de Filipe, e, s vezes,
at tinha cimes deles.
"L se vai a lagartixa por gua abaixo", disse ela, fazendo uma daquelas observaes inesperadas, mas certas. Os outros desataram a rir. A Didi ficou satisfeita.
Balanou-se dum lado para o outro, batendo o bico.
"Chhhhhhhhhh!", fez ela.
- Oh, Didi ainda bem que te trouxemos, - exclamou Joo. - E agora, que planos temos ns?
- Temos de continuar a explorar isto para ver se h algum a viver neste vale - respondeu Filipe. - Se houver estamos bem. Se no houver,  que  pior. Temos de
c ficar at que nos venham salvar.
- Olha, salvar! E como queres tu que nos venham salvar se no fazem a mais pequena ideia de onde nos encontramos?
- perguntou Dina. - No digas tolices, Filipe.
- Ento ests disposta a viver aqui neste vale at ao fim dos teus dias? - perguntou Filipe.
- C est outra vez a Tixa a sair da outra manga. Tu  que s uma bela exploradora. Quem dera que soubesses dizer como se sai deste vale.
Dina seguia to longe de Filipe quanto possvel. Detestava aqueles bicharocos. E era pena, porque eles eram divertidos e simpticos.
- Temos de ter cuidado para no nos perdermos - observou Maria da Luz ansiosamente. - Este vale e as encostas das montanhas so enormes. No podemos afastarmo-nos
uns dos outros.
- Pois no - concordou Joo. - E temos de saber voltar ao estbulo, uma vez que deixmos l as coisas. Aqui pelo
menos, temos abrigo e as mantas para nos deitarmos.

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Se ao menos tivssemos mantimentos! As bolachas e o chocolate no vo dar para muito.
- A tua bssola vai ser-nos muito til - observou Filipe, lembrando-se. - Escutem: se ns agora metssemos ps ao caminho e explorssemos mais um bocado, fazendo
deste estbulo uma espcie de quartel general ao qual devemos regressar?
- Boa ideia - respondeu Dina. - Mas temos de cobrir as malas e o resto para os camuflar, no vo os homens entrar
aqui e verem-nas.
- No vem nada. Que interesse poderiam eles ter num velho estbulo em runas? - observou Filipe. - Bem podemos deixar
aqui tudo.
Saram do estbulo. O Sol agora inundava os cumes das montanhas, iluminando o vale. Os pequenos viram a espiral de fumo que se erguia do lume que os homens deviam
ter acendido.
Ento Joo disse:
- S temos de conservar-nos afastados daquela direco. Vamos por este caminho. Parece que foi em tempo um caminho daqui at outra qualquer parte.  melhor fazermos
uns golpes nas rvores por que passarmos, para podermos encontrar o caminho no regresso.
A ideia agradou a Maria da Luz. Fazia-lhe lembrar os ndios peles-vermelhas e os seus costumes.
Joo e Filipe puxaram do canivete. De cinco em cinco ou seis em seis rvores faziam um golpe at que foram dar a um bosquezito e se encontraram numa encosta coberta
de flores
e erva verde.
Maria da Luz ficou maravilhada com aquele tapete de
flores.
- Que beleza! Nunca vi cores to vivas. J viste aquela florzinha azul, Joo? Ainda  mais azul do que o cu. E estas muito pequeninas cor-de-rosa? Tantas!
- E se nos vem aqui neste descampado? - perguntou Dina de repente. Joo e Filipe olharam l para baixo, para o vale.

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Tinham subido um pedao e estavam na encosta das montanhas.
- L est o avio! - exclamou Joo. - E, reparem, parece que vai ali um dos homens na direco do aparelho. Deitem-se no cho, depressa!
Rapidamente, todos se estenderam ao comprido. Joo trazia o binculo e levou-o aos olhos. Agora j via nitidamente que o homem era Jos. Tinha cara plida, cabelo
negro e oleoso, e um pequeno bigode tambm negro. O pescoo era grosso e todo ele era entroncado. Desapareceu no avio.
- Entrou no avio. Ir-se- embora? - interrogou Joo.
- Ir c deixar o outro? Ainda no ps os motores a trabalhar.
Um ou dois minutos depois o homem voltou a sair, trazendo qualquer coisa que Joo no conseguiu distinguir. Andou na direco do fumo. Havia ali perto um bosquezito
e ele ficou encoberto pelas rvores.
- Foi ao avio buscar qualquer coisa - explicou Joo
- Agora foi-se embora outra vez.  melhor irmos para outro lado porque se ns o vemos tambm ele poderia ver-nos se tivesse olhado para cima. Vem aquela fossa,
acol? Vamos por ali! L ningum nos v.
Dirigiram-se para a tal fossa, coberta de sol. Devia, sem dvida, ter sido um caminho pela montanha acima. Os pequenos seguiram por ali e chegaram a uma salincia
de rocha que contornava, bastante perigosamente, parte da montanha. Joo foi  frente.
Afinal no era to perigoso como parecia. Por isso, disse para os outros:
- Parece-me que no h novidade.  mais largo do que eu julgava. Venham. Isto deve ir dar a qualquer parte.
Fizeram caminho pela salincia, contornando a montanha, e chegaram a um ponto da encosta que lhes proporcionava um maravilhoso panorama do vale e arredores.
Estava completamente deserto. No se via uma casa, um carneiro ou uma cabra. Um pouco mais acima estava uma construo negra e carbonizada que fora, com certeza,
uma grande casa de quinta.

- 40 -

S restavam as vigas enegrecidas e parte das paredes de pedra. Tudo o mais abatera, transformando-se numa triste runa.
- Mais runas! - exclamou Joo, atemorizado. - Que ter acontecido a este vale to bonito? Porque ser que as casas arderam assim? Estou a comear a pensar que no
h aqui vivalma alm de ns quatro e dos dois homens.
- Parece-me que tens razo - respondeu Filipe. - No se v fumo em parte alguma, nem um nico animal domstico, um co que seja. E no percebo porque no ter vindo
gente dos vales prximos reconstruir as casas e trazer o seu gado a pastar nesta erva maravilhosa.
- Talvez este vale seja um vale maldito - lembrou Maria da Luz, arrepiada. - Parece que no estou a gostar muito disto.
Sentaram-se ao Sol, que j ia alto, sentindo, de repente, muita fome. Inesperadamente, Dina tirou bolachas e chocolate dum saco que trazia, dizendo:
- Calculei que no tardaramos a ficar cheios de fome e resolvi trazer metade das bolachas e do chocolate que tnhamos.
Filipe ficou satisfeito:
- Tiveste uma boa ideia! Tixa, anda comer uma migalha.
Imediatamente Dina se colocou a razovel distncia. Tixa saiu pelo decote da camisa de Filipe e desceu-lhe pelo peito. Era evidente que no tencionava separar-se
dele.
"A Tixa foi  caa", observou a Didi, depenicando um bocado de chocolate que Joo tinha na mo.
"D c isso, Didi", gritou-lhe Joo. "Que modos so esses?"
"Foi  caa, foi  caa", continuou a Didi, que parecia no tirar aquilo da cabea.
Depois do chocolate e das bolachas ficaram cheios de sede.
- Quem me dera que encontrssemos qualquer coisa para beber, gua fresca e cristalina como a daquela nascente - desejou Joo.
" caa", respondeu a Didi.

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"Combinado. Vais tu  caa dela", proferiu Joo.
- No poderamos dormir um bocadinho? - perguntou Dina, cheia de sono. - Est-se aqui to bem.
- S um bocadinho - respondeu Filipe. - Parece-me que estamos aqui seguros. Os homens no se lembraro de subir at c acima.
- Sabem uma coisa? Parece-me que ouo gua a correr - disse Maria da Luz, que estava deitada de costas com a carita sardenta iluminada pela luz do Sol. - No  muito
perto, mas escutem.
Puseram-se todos  escuta. No havia dvida de que ouviam qualquer coisa alm do vento. Que seria? Parecia realmente o gorgolejar duma nascente.
- Vamos investigar - declarou Joo. - Vocs, se quiserem, fiquem aqui. Vou eu e o Filipe.
- Isso no! - exclamou Maria da Luz. - Antes queremos ir com vocs. Poderemos perder-nos.
E partiram os quatro na direco daquele estranho rudo. Subiram mais alto e chegaram a uma parte rochosa, ngreme e difcil de subir. Mas o rudo ouvia-se agora
muito mais prximo
- Assim que virarmos ali, j vemos o que ser - declarou Joo. - Venham!
Subiram um bocadinho mais e o caminho foi dar subitamente a um rochedo. Do outro lado alargava um pouco e os quatro pequenos ficaram a olhar estarrecidos para o
que fazia aquele rudo.
Era uma cascata, e que grande! A gua caa duma grande altura, quase perpendicularmente, pela encosta da montanha e formava uma cascata muito abaixo deles, enchendo
tudo de espuma que se espalhava no ar. Embora estivessem a uma boa distncia daquela massa de gua, ficaram com os rostos molhados s de estarem ali.
- Que panorama soberbo! - exclamou Filipe maravilhado. - Nunca tinha visto uma queda de gua to grande. Faz um barulho! Quase tenho de gritar.  formidvel!


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L em baixo, a queda de gua tornava-se um rio serpenteante que contornava o sop da montanha. Os pequenos no conseguiam ver aonde ia dar. A gua que caa cintilava,
formando, aqui e ali, pequenos arco-ris. Maria da Luz nunca tinha visto coisa alguma que se lhe comparasse.
Ia lambendo os salpicos que lhe chegavam  cara e lhe escorriam at  boca.
- Estou a beber a espuma! - disse. - Mas, j viram? Naquela rocha est uma pocinha de gua, da espuma que cai ali. Ser boa para beber?
Era clara e brilhante. Joo provou-a e disse:
-  ptima. Podem beber.
Ficaram um tempo a ver a queda de gua. A Didi estava entusiasmada. Por qualquer razo aquilo encantava-a doidamente. Voou at perto e deixou-se ficar toda salpicada,
palrando alto.
-  um espectculo magnfico! - dizia Dina sem tirar os olhos da gua que caa com estrondo. - Era capaz de ficar aqui um dia inteiro a olhar.
- Amanh voltaremos c - respondeu Joo. - Agora parece-me que  melhor voltarmos ao estbulo. Vamos!  evidente que no h aqui algum que possa ajudar-nos.

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Captulo VI - QUE ESTARO TRAMANDO OS DOIS HOMENS?


Maria da Luz estava um tanto receosa de que se perdessem no regresso. Mas os rapazes tinham fixado tudo. Podiam ter surgido dificuldades depois de entrarem no bosque,
mas aqui as rvores golpeadas guiaram-nos no bom caminho.
Viram que o avio ainda se conservava no vale. Os homens deviam andar por ali. Tinham de ter cuidado e Joo recomendou  Didi que estivesse calada. A queda de gua
parecia ter-lhe subido  cabea e o animal no parava de fazer barulho, cantando e palrando.
- C est o nosso estbulo - exclamou Maria da Luz aliviada. Voltar para ali depois daquela enorme encosta da montanha era quase como voltar para casa.
- Oxal as nossas coisas estejam l a salvo.
Entraram. Tudo estava conforme eles tinham deixado. Belo!
O Sol comeava j a descer. Deviam ser horas do ch, e os pequenos ficaram hesitantes sem saber se deveriam ou no acabar com as bolachas e o chocolate.
-  melhor no - opinou Joo. - Se logo  noite tivermos muita fome, ento comemo-los. Mas, esperem a: e o farnelzinho que a tia Lia nos arranjou? Ainda o temos,
no temos? No o comemos ainda, pois no?
- Claro que no - respondeu Dina. - Estava a poup-lo. Temos to pouco que pensei que seria melhor guard-lo para mais tarde.
- Mas o po vai ficar todo seco - alegou Filipe, que sentia um verdadeiro vazio no estmago.

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- Depois para nada serve. Bem podamos com-lo enquanto est tragvel.
- Ento podemos comer o po e deixarmos para amanh o bolo, as bolachas e o chocolate - respondeu Dina. - Mas primeiro temos de pr isto em condies de se poder
c dormir. Est imundo.
- No quero dormir aqui - atalhou Maria da Luz. - No gosto disto. Porque no dormimos l fora? Temos os impermeveis para nos deitarmos em cima, quatro mantas e
podamos tirar umas roupas da mala para nos servirem de almofadas.
- E se vier uma carga de gua? - observou Dina.
- Talvez eu consiga improvisar um telhado - disse Joo, passando uma vista de olhos pelo estbulo em runas. - H ali uns postes velhos e um bocado de chapa de ferro
ondulada. Se Filipe me desse uma ajuda, eu podia pr a chapa de ferro em cima dos velhos postes.
Os dois rapazes tentaram pr isto em prtica, mas a chapa no estava bem segura.
As raparigas ficaram horrorizadas s de pensar que o vento podia atir-la para cima deles enquanto dormiam.
- Se ao menos encontrssemos uma gruta! - lembrou Maria da Luz.
- Mas no encontramos - respondeu Joo um pouco azedo por ver que todos os seus esforos com os postes e a chapa eram baldados. - Seja como for, no me parece que
venha chuva. O cu est to limpo... Se vier uma carga de gua, temos de entrar na ltima divisria do estbulo e pronto.
O trabalho com os postes tinha-lhes aumentado mais o apetite. Dina abriu o embrulho e tirou o po e enormes fatias de bolo. Comeram o po em silncio, saboreando
cada dentada.
- S gostava de saber o que estaro aqueles homens a fazer - disse finalmente Joo. - J no vejo fumo. E se eu fosse sorrateiramente at ao avio, sempre escondido,

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para ver se os via?
-  uma ideia - respondeu Filipe. - Tens a certeza de que sabes bem o caminho de ida e volta? Por amor de Deus, no te percas!
- Se me perder, peo  Didi que imite o apito do comboio - disse Joo sorrindo. - Ficam logo a saber onde estamos.
- Se tiveres oportunidade, espreita para dentro do avio e v se por l h alguma coisa de comer - lembrou Dina. E Joo l foi com a Didi no ombro. Maria da Luz
no gostou de o ver ir s. Bem desejaria ir com ele, mas sabia que ele no o permitiria.
- Vamos ns tratar das camas - disse Dina, que gostava de estar sempre ocupada com qualquer coisa. - Vamos, Luzinha, ajuda-me a abrir as malas para arranjarmos qualquer
coisa que nos sirva de almofada e temos de trazer tambm os impermeveis.
Na ausncia de Joo, os trs estiveram muito ocupados. Depressa ficaram com uma confortvel cama feita sobre a erva, debaixo do grande vidoeiro. Primeiro puseram
os impermeveis para se preservarem da humidade. Depois uma manta para dar conforto. Quatro montes de roupas de l serviam de almofadas, e, por ltimo, as outras
trs mantas para os cobrir.
- Parece-me que est mesmo bem - aprovou Dina. - Puxa essa manta mais para aqui, Maria da Luz. Isso mesmo. Tu, Filipe, dormes do lado de fora. No quero ter essa
lagartixa a andar em cima de mim de noite.
- A Tixa no faz mal - disse Filipe, tirando a lagartixa duma manga. - Pois no, Tixa? Faz-lhe uma festinha, Dina.  to simptica.
- Quieto, Filipe! - ordenou Dina, dando um gritinho, por o irmo lhe estender a lagartixa na mo. - Dou-te uma bofetada se te atreves a deixar a lagartixa tocar-me!
- No a irrites, Trunfa - pediu Maria da Luz. - Empresta-me a Tixa. Eu gosto dela.

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Mas a Tixa no quis ir para a Maria da Luz, com grande aborrecimento desta. Correu pela manga de Filipe acima e desapareceu. Depois foram aparecendo aqui e ali uns
altinhos na camisola dele que permitiam localiz-la.
Dina olhou para o cu. Estava limpo. O Sol j se tinha posto. Cedo apareceram as primeiras estrelas. A pequena estava cansada e irritvel.
Os outros estavam na mesma.
O facto de terem dormido pouco e o susto que tinham apanhado estavam a produzir efeito. Maria da Luz viu que dum momento para o outro podia rebentar uma violenta
discusso entre Dina e Filipe.
Ento, levou Dina consigo para a nascente, lavaram-se na gua fresca e cristalina e beberam. Depois deixaram-se ficar ali uns momentos para gozarem a beleza do vale
e das montanhas que o rodeavam.
- Parece que crescem para ns - observou Maria da Luz. - Que se aproximam.
- Isto  que tens uma imaginao! - exclamou Dina. - E agora vamos embora. O Joo deve estar a chegar e eu estou morta por saber o que ele tem para contar.
Regressaram. Filipe deitara-se sobre os casacos e as mantas e bocejava.
- J estava decidido a ir  vossa procura. Demoraram-se tanto! O Joo tambm ainda no voltou. Oxal nada lhe tenha acontecido.
Maria da Luz ficou alarmada. Adorava o irmo. Por isso, subiu a uma rocha de onde podia v-lo. Mas virou-se para os
 outros quase imediatamente.
 - L vem ele! - gritou. - Traz a Didi no ombro. Saltou da rocha e correu ao encontro de Joo. Ele sorriu-lhe e a Didi voou para o ombro de Maria da Luz.
 - J estava em cuidado, Joo - exclamou ela. - Aconteceu alguma coisa? Viste os dois homens? Que estavam a fazer?

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Chegaram ao p de Dina e Filipe. Joo olhou para a cama e estendeu-se ao comprido:
- Que cama soberba! Isto sim. Estou cansado!
- Ento, Joo, aconteceu alguma coisa? - perguntou Filipe.
- Praticamente nada - declarou Joo. - Aproximei-me do avio tanto quanto pude, mas no me atrevi a ir mesmo at l com medo de ser visto. No se esqueam que est
num descampado. Dos homens, nem sinal.
- A Didi portou-se bem? - perguntou Maria da Luz ansiosamente. - Fiquei com medo que ela guinchasse ou coisa parecida e chamasse a ateno para ti.
- Pois, portou-se muito bem - respondeu Joo, coando a cabea ao animal. "Foi ou no foi, Didi?" -
Ora eu pensei que o que havia a fazer a seguir era tentar descobrir onde estavam os homens, e de onde vinha aquele fumo. Por isso, fui andando na direco dele,
conservando-me o mais possvel encoberto com os arbustos e rvores. Deviam ter voltado a acender o lume, porque se via no ar um rolo de fumo espesso e negro.
- E viste os homens? - perguntou Dina.

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- Primeiro ouvi-lhes as vozes - respondeu Joo. - Ento, pensei que seria uma boa ideia subir a uma rvore e observ-los pelo binculo. Trepei e fiquei no cimo de
uma arvorezinha. L em baixo, no muito longe, perto de uma cabana em runas, estavam os dois homens, cozinhando qualquer coisa numa fogueira.
- Cus! - exclamou Maria da Luz. - No tiveste medo
que te vissem?
- No. A rvore escondia-me bem - respondeu Joo. - Eu no fazia o mais pequeno rudo. Peguei no binculo e pus-me a ver. Os homens estavam a estudar um mapa qualquer.
- Para qu? - perguntou Dina admirada. - Eles devem conhecer muito bem esta parte do mundo, seno no tinham aterrado com tanta facilidade.
- Eles que vieram aqui para alguma coisa foi - respondeu Joo. - No sei o que querero, eles l sabem. Devem andar  procura de algum, ou de alguma coisa, e o
mapa deve mostrar-lhes o caminho a seguir. Ouvi um deles dizer: "Por aqui!" e "depois por aqui acima", como se estivessem a planear qualquer expedio.
- Se ns fssemos atrs deles ficaramos a saber tudo - lembrou Dina.
- Isso no, muito obrigado - respondeu Joo. - No serei eu quem v escalar montanhas atrs daqueles homens. Tm cara de poucos amigos. A minha ideia  outra: deixamo-los
partir e vamos inspeccionar a cabana deles e o avio. Talvez encontremos alguma coisa que nos diga quem so e o que procuram.
- Isso! Havemos de fazer isso - apoiou Maria da Luz, cheia de sono. - Talvez possa ser amanh. Oxal que sim. O Joo fica a observ-los com o binculo e quando eles
desaparecerem j ns podemos inspeccionar tudo bem.
- J contei tudo - disse Joo, bocejando. - Nada mais. Os homens enrolaram o mapa e ficaram a falar baixo. Ento eu desci da rvore, voltei, e aqui estou.

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- E se nos preparssemos para dormir? - alvitrou Maria da Luz.- Nem consigo ter os olhos abertos. Aqui estamos seguros, no estamos?
- Estou convencido disso - respondeu Joo, satisfeito por se estender. - Seja como for, a Didi avisa-nos se vier algum. Boa noite.
- Boa noite - disseram os outros. Filipe acrescentou mais umas palavras.
-  Dina, no grites se sentires alguma aranha, rato ou ourio a passar por ti. Aqui deve haver muitos.
Dina deu um gritinho e cobriu logo a cabea. Fez-se silncio. Adormeceram todos.

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Captulo VII - UMA MARAVILHOSA DESCOBERTA


Depressa as estrelas cintilaram no cu. Um mocho piava e o vento segredava qualquer coisa s rvores, l em cima. Mas as quatro crianas no viam as estrelas, nem
ouviam o mocho ou o vento. Estavam estafadas. Dormiam profundamente e, embora Dina estivesse quase a ponto de sufocar, com a manta a cobrir-lhe a cabea, no acordou,
nem sequer se mexeu.
A Didi tambm dormiu com a cabea debaixo da asa. Estava empoleirada num ramo do vidoeiro que ficava exactamente por cima da cabea de Joo. Acordou ao ouvir o mocho
e respondeu-lhe, piando tambm baixo. Depois voltou a meter a cabea debaixo da asa e adormeceu novamente.
Quando rompeu a madrugada ainda os pequenos dormiam. A Didi acordou antes deles. Estendeu primeiro uma asa, depois a outra. Encrespou as penas da cabea e sacudiu-as.
Depois coou pensativamente o pescoo e ps-se a olhar para Filipe.
A lagartixa tambm tinha acordado e corria pela manta que cobria Filipe. Chegou at ao ponto onde os ps deste estavam a espreitar e desapareceu por debaixo da manta.

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Os olhos da Didi ficaram a observar os altinhos que ela fazia na manta, subindo pelo Filipe acima para desaparecer pelo pescoo.
"Limpa os ps", fez de repente a Didi, dirigindo-se  lagartixa. "Quantas e quantas vezes te tenho dito que limpes os ps?"
A Tixa assustou-se. Saltou do pescoo de Filipe para Joo e ficou meia escondida no cabelo dele, olhando para as rvores, embora sem conseguir localizar nada. A
Didi, aborrecida por ver a bichinha atrever-se a pr os ps no seu querido dono, deu um grito furioso e desceu da rvore, decidida a dar-lhe uma bicada, mas a lagartixa
desapareceu outra vez rapidamente debaixo da manta.
A Didi veio aterrar pesadamente no estmago de Joo, dando uma bicada severa na parte da manta que cobria a perna direita de Filipe, por l ter visto um altinho
mvel, indcio de que a lagartixa ia a correr por ali abaixo. Joo e Filipe acordaram sobressaltados.
Ficaram admirados por verem as folhas verdes das rvores oscilando por cima deles. Depois viraram a cabea e deram de cara um com o outro. Num abrir e fechar de
olhos lembraram-se de tudo.
- No havia meio de perceber onde estava - disse Joo, sentando-se. "Ah, s tu, Didi! Vai-te embora. Toma l umas sementes de girassol e deixa-te estar calada seno
acordas as raparigas".
Meteu a mo na algibeira e tirou de l umas sementes chatas que a Didi muito apreciava. O animal voou para o ramo, fazendo estalar duas com o bico.
Os rapazes comearam a falar baixo para no incomodarem as irms, que dormiam ainda descansadamente.
- Agora sim, j me sinto melhor - exclamou Joo, esticando os braos. - Ontem  noite estava to cansado que at me apetecia chorar. E tu, Filipe?
- Eu tambm j me sinto bem - respondeu Filipe, bocejando muito. - Mas ainda tenho sono. O que vale  que no  preciso levantarmo-nos j para o pequeno almoo.

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No vai tocar gongo algum para nos chamar. Por isso vamos dormir outra soneca.
Mas Joo estava esperto de mais para voltar a dormir. Deslizou da manta para fora e foi lavar-se  nascente. Ento, olhou para baixo e viu a espiral de fumo tal
como na vspera.
"Aqueles fulanos j andam a p", disse para consigo prprio. "No deve ser muito cedo. O Sol j vai bastante alto. Bolas! Esqueci-me de dar corda ao relgio ontem
 noite".
As raparigas depressa acordaram e ficaram muito admiradas ao verificarem que tinham dormido profundamente durante toda a noite, sem praticamente mudarem de posio.
Dina ps-se  procura da lagartixa com o olhar.
- No h novidade - disse-lhe Filipe amavelmente. - Est numa das minhas pegas. Eu gosto de lhe sentir as patitas na minha perna.
- s um parvo! - exclamou Dina. - Vou lavar-me. Depois tomaremos o pequeno almoo: bolo e bolachas, uma vez que nada mais temos.
Infelizmente tinham tanta fome que devoravam o bolo, as bolachas e o resto do chocolate. Acabaram com os mantimentos.
- Temos de nos arranjar de qualquer maneira, seja ela qual for - afirmou Dina. - Nem que tenhamos de comer a tua lagartixa, Filipe.
- Ficava na cova dum dente, no era, Tixa? - disse Filipe. - Mas que  aquilo?
"Aquilo" era o som de vozes. Os quatro pequenos levantaram-se a toda a pressa e, arrastando com eles as mantas, impermeveis, e as outras roupas, correram a esconder-se
no estbulo. Amontoaram tudo na ltima divisria e acocoraram-se sem flego.
- Teremos l deixado alguma coisa? - segredou Joo.
- No me parece - respondeu Filipe muito baixo. -- A erva  que est um bocado pisada. Esperemos que eles no reparem.
Havia uma brecha numa parede do velho estbulo e Joo ps-se a espreitar por ela. Tinham fugido mesmo a tempo.

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Os homens vinham subindo devagar na direco dos vidoeiros, conversando. Chegaram ao local onde os pequenos haviam passado a noite anterior.
Atravessaram-no, mas um deles ps-se a olhar para trs com ar intrigado. Fixou o local que os pequenos tinham ocupado. O que disse no conseguiu ouvir-se, mas apontou
para a erva calcada. Ento os dois voltaram para trs e ficaram a olhar muito srios.
- Quem ter feito isto? - perguntou o homem que se chamava Jos.
-  estranho - murmurou o outro. Tinha uma cara gorda, os lbios grossos e uns olhinhos pequenos e muito juntos. - Talvez tenha sido um animal qualquer.
- Pois olha que este espao dava para um ou dois elefantes!- exclamou Jos. - E se fssemos investigar isso?
O outro consultou o relgio e depois disse:
- No, agora no, talvez quando voltarmos. Temos muito que fazer hoje. Anda. No deve ser nada.
Continuaram a andar e depressa desapareceram no arvoredo. Ento Joo disse aos outros:
- Vou subir a uma rvore com o binculo e ver para onde eles vo. Temos de nos certificar de que esto longe antes de virmos c para fora.
Saiu cautelosamente do estbulo e deu uma corrida na direco de uma rvore alta. Como trepava muito bem, num abrir e fechar de olhos ficou l em cima. Sentou-se
num ramo que balouava, enlaando-o bem com as pernas. Depois ps-se a espreitar pelo binculo.
Assim que os homens chegaram  zona da encosta que estava coberta de erva e flores, Joo viu-os logo. No seguiram na mesma direco que os pequenos haviam tomado
na vspera, mas mantiveram-se na clareira por um tempo. Joo continuava a segui-los com o binculo. Ento tiraram um mapa ou papel, abriram-no e pararam a observ-lo.
"Parece que no sabem bem o caminho", pensou o rapaz. "L vo eles outra vez".
Comearam a subir uma encosta ngreme e Joo ficou a observ-los enquando pde. A certa altura contornaram uma rocha e desapareceram por trs dela. O pequeno desceu
da rvore.
- At pensmos que tinhas adormecido na rvore - exclamou Dina impaciente. - Estou farta de esperar neste estbulo imundo. Os homens j se foram?
- J. Agora esto bem longe - informou Joo. - Podemos muito bem sair para ver isto. Eles no foram pelo caminho que ns tommos. Vi-os subir a montanha por uma
encosta muito ngreme. Vamos, toca a sair daqui enquanto  tempo.
- Podamos ir ver o avio por dentro - alvitrou Dina. Largaram a toda a pressa para o vale e chegaram ao p
do avio, que l continuava, apoiado nas suas enormes rodas. Os quatro subiram a escada que ia dar  carlinga.
- O caixote j c no est - informou Joo. - No sei como conseguiram tir-lo de c. Devia estar vazio seno os dois homens nunca teriam podido com ele. Foi ali
que nos escondemos naquela noite!
Filipe e Joo passaram uma busca a todo o avio para ver se encontravam alimentos ou quaisquer informaes. Mas nada havia ali de comer, nem um pedacito de papel
que lhes pudesse dar uma ideia de quem fossem os homens ou do que viriam ali fazer.
Saram todos outra vez.
- Bolas! - exclamou Joo. - Estamos na mesma! Nem um pedacito de chocolate! Vamos morrer  fome.
- Se consegussemos explorar aquela cabana onde viste os homens a noite passada, ia apostar em como encontraramos muito que comer - lembrou Dina. - No te lembras
de que eles disseram: "Vamos  cabana comer qualquer coisa?" Se no houvesse l provises eles no podiam ir comer, por isso deve ser l que eles as guardam.
Esta ideia animou-os. Joo foi  frente, para os guiar at onde vira os homens sentados junto da fogueira na noite anterior.

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O lume estava quase apagado, embora ainda fumegasse um bocadinho.
A cabana ficava mesmo ali. Estava arruinada mas no queimada como as outras que eles tinham visto. Tinha sido toscamente reparada. A nica janela que tinha parecia
slida e era to pequena que no permitiria a algum entrar ou sair por ela se quisesse. A porta tambm era slida. Estava fechada.
- Fecharam-na  chave - observou Joo, dando-lhe um empurro. - E levaram a chave. Quem pensariam eles que poderia c vir tirar-lhes alguma coisa? Nem sabem da nossa
existncia.
- E se espreitssemos pela janela? - sugeriu Maria da Luz. - Era fcil vermos o que h l dentro.
Joo iou Filipe. Este esteve um tempo a olhar l para dentro, sem conseguir distinguir nada porque o interior da cabana estava escuro. A nica luz entrava por aquela
janela.
- Agora j vejo melhor - disse por fim. - Dois colches, mantas, uma mesa e uma cadeira, um fogo pequeno. Olha! Olhem para aquilo!
- Que ? - gritaram todos impacientes. Maria da Luz ps-se aos saltos para ver se tambm distinguia alguma coisa pela janela.
- Que quantidade enorme de provises! - exclamou Filipe. - Latas e mais latas. Boies e potes. At me fazem crescer gua na boca!
Joo j no podia mais com o peso de Filipe. F-lo saltar para baixo.
- Agora ia-me tu - disse ele, e Filipe assim fez. Os olhos de Joo quase lhe saram das rbitas quando viu tanto comer, tudo arrumado em prateleiras que ocupavam
uma parede da cabana.
-  uma espcie de armazm ou abrigo - disse, saltando das costas de Filipe. - Se ao menos pudssemos apanhar umas coisas daquelas! Para que tero eles levado a
chave? Que gente desconfiada!
- No ser possvel entrar pela janela? - perguntou Filipe,

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e ficou-se a olhar para l ansiosamente. - Impossvel! Nem a Maria da Luz l cabe. E de mais a mais no se pode abrir.  um vidro metido num caixilho de madeira
sem fecho. Tinha de se partir, e isso mostrar-lhes-ia que estava aqui algum.
Os pequenos puseram-se a andar tristemente  volta da cabana. Depois foram ver se haveria por ali mais qualquer coisa. Mas no havia.
- Parece-me que o melhor ser voltarmos ao nosso estbulo, tirarmos de l as coisas e escondermo-las em qualquer outra parte para o caso desses homens resolverem
passar uma busca por l quando voltarem - disse Joo. - Irrita-me tanto deixar a comida toda nesta cabana! Estou cheio de fome.
- Tambm eu - disse Maria da Luz. - Parece-me que at era capaz de comer as sementes de girassol da Didi.
- Toma - disse Joo, oferecendo-lhe uma mo-cheia. No so venenosas.
- Agradecida - respondeu Maria da Luz. - A fome tambm no  assim tanta.
Filipe voltou  porta da cabana e ficou-se a olhar para ela. - Gostava tanto de te deitar abaixo - explodiu. - Obstculo que nos separas duma belssima refeio,
toma l.
Para grande divertimento dos outros pregou um formidvel pontap na porta, e depois outro.
A porta abriu-se de par em par. Os pequenos sustiveram a respirao de admirados e quedaram-se de olhos esbugalhados at que Joo disse:
- Afinal estava fechada, mas no  chave. Fomos uns palermas em pensar que estava fechada  chave! Agora vamos banquetear-nos !

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Captulo VIII - A DIDI FALA DE MAIS


Meteram-se todos dentro da cabana mal iluminada e ficaram a contemplar alegremente as pilhas de coisas que estavam nas prateleiras.
- Bolachas! Lngua! Anans! Sardinhas! Leite! H de tudo!
- Por onde havemos de comear? - perguntou Joo.
- Espera l. No devemos desarrumar as prateleiras de maneira que eles descubram que esteve aqui algum - explicou Filipe. -  melhor tirarmos as latas de trs e
no as da frente. E no vamos comer aqui a fruta e as outras coisas, levamos tudo connosco.
Ento Joo falou devagar:
-Parece-me... sim, parece-me boa ideia levarmos daqui tanto quanto pudermos, para o caso de termos de ficar bastante tempo neste vale. At devemos encarar a hiptese
de estarmos completamente perdidos e separados do mundo que conhecemos e de ningum vir em nosso auxlio seno daqui a muito tempo.
Todos ficaram com ar solene e Maria da Luz fez tambm uma cara assustada.
- Tens razo, Pintinhas - respondeu Filipe. - Vamos levar de c tudo quanto pudermos. Olhem, esto aqui muitos sacos velhos. E se enchssemos uns dois deles de latas
e os carregssemos a meias? Era a maneira de levarmos mais coisas.
- Boa ideia - exclamou Joo. - Aqui temos um saco para ti e para Dina, e aqui est outro para mim e para a Maria da Luz.

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Filipe empoleirou-se numa das cadeiras e meteu a mo por trs da primeira fila de latas. Foi atirando para baixo lata aps lata que os outros iam metendo nos sacos.
Que fornecimento havia naquela cabana!
Os sacos depressa ficaram cheios e muito pesados para serem transportados. Sabia bem pensar em todos aqueles petiscos que haviam de comer. Joo encontrou tambm
um abre-latas e meteu-o na algibeira.
Filipe lembrou ento:
- Antes de nos retirarmos, vamos passar uma vista de olhos por isto para ver se descobrimos quaisquer papis ou documentos que nos digam alguma coisa sobre estes
misteriosos aviadores.
Mas, embora passassem revista a todos os cantos e at debaixo do monte de sacos, nada encontraram.
- S gostava de saber o que tero eles feito quele caixote que vinha no avio - disse Joo. - Ainda no o encontrmos. Tambm gostava de lhe dar uma olhadela.
O caixote no estava na cabana. Por isso, os pequenos resolveram sair e passar uma busca s imediaes e, numa moita de rvores novas e arbustos, cobertos com um
oleado, encontraram uns caixotes.
-  boa! - notou Joo, retirando o oleado. - Olhem para isto: tantos e todos vazios! Que querero eles c meter?
- Sabe-se l! - respondeu Filipe. - Mas tambm quem se lembraria de trazer caixotes vazios para este vale deserto na esperana de encontrar com que os encher? S
doidos.
- No me digas que ests convencido de que aqueles homens so doidos - exclamou Maria da Luz alarmada. - Que havemos de fazer?
- Conservamo-nos afastados deles - disse Filipe. - Vamos. A porta ficou fechada? Ficou. Ento, mos  obra, Dina, pega na ponta dum dos sacos e toca a andar para
o nosso abrigo.
Tropeando sob o peso dos sacos e chocalhando as latas, os pequenos dirigiram-se devagar para o estbulo, onde tinham escondido as malas. Joo largou rapidamente
o saco e correu
a trepar  rvore onde j estivera, para perscrutar tudo com o binculo e ver se os homens viriam de regresso. Mas nem sequer sinais deles havia.
- Por enquanto no h novidade - disse, voltando para o p dos outros. - Agora toca a comer. Vai ser a refeio mais apetecida de toda a vida, porque nunca tivemos
tanta fome.
Escolheram uma lata de bolachas e abriram-na. Tiraram de l umas quarenta, certos de que cada um comeria pelo menos umas dez. Abriram uma lata de lngua que Joo
cortou s fatias com o canivete. Depois uma lata de pedaos de anans e outra de leite.
- Que banquete! - exclamou Joo, sentando-se ao sol, satisfeito. - Vamos a isto!
Nunca qualquer coisa lhes soubera to bem.
- Mmm-mm-mmm - fez Maria da Luz, e com isto queria dizer: "Que maravilha!" A Didi imitou-a logo:
"Mmm-mm-mmm! Mmm-mm-mmm!" No se disse palavra a no ser quando a Dina viu a Didi mergulhar na lata de anans.
- Joo! Olha a Didi! Vai comer tudo!
A Didi retirou-se para o ramo da rvore que lhes ficava por cima, levando um grande pedao de anans na pata e repetindo:
"Mmm-mm-mmm! Mmm-mm-mmm!"
Dina foi  nascente lavar a lata de leite vazia. Depois encheu-a de gua fresca e regressou. Despejou a gua sobre o sumo de anans que ficara no fundo da lata e
agitou-a. Depois ofereceu a todos um refresco de anans para terminar!
- Agora sim, j me sinto melhor - disse Joo, desapertando o cinto e alargando-lhe uns dois ou trs furos. - Ainda bem que te irritaste e te puseste aos pontaps
quela porta, Filipe. Estvamos convencidos de que a tinham fechado e levado a chave.
- Que tolos! - exclamou Filipe, deitando-se e fechando os olhos. - Que fazemos ns s latas vazias?

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- Tu, nada - respondeu Dina. Eu encarrego-me de as enfiar numa toca de coelho. Os coelhos at as podem lamber.
Pegou numa lata, mas logo soltou um grito. Deixou-a cair e a lagartixa fugiu de l. Estivera deliciada a cheirar os restos de lngua que l tinham ficado. O bichinho
correu para Filipe e desapareceu-lhe pelo pescoo abaixo.
"No faas ccegas, Tixa", murmurou Filipe ensonado.
- Eu vou vigiar para o caso de os homens voltarem - disse Joo, voltando a trepar  rvore. Maria da Luz e Dina encheram uma toca de coelho com as latas vazias.
A Didi ficou-se a olhar admirada para as latas no buraco depois foi at l e ps-se a depenicar numa delas.
"Isso no, Didi", disse-lhe Maria da Luz. - Joo, leva a Didi contigo para a rvore.
Joo assobiou. Didi voou logo para ele e empoleirou-se-lhe no ombro, satisfeita, enquanto o pequeno subia pela rvore, mudando de posio sempre que um ramo ameaava
deit-lo abaixo.
-  melhor trazermos c para fora malas e tudo o mais, para estarmos prontos para as escondermos noutro stio sem ser o estbulo - observou Dina. - Se os homens
resolverem passar aqui uma busca quando voltarem,  mais do que certo que vo ver o estbulo.
E as duas puseram tudo c fora, com a Dina sempre a resmungar porque o Filipe parecia dormir e no mexia um dedo para as ajudar. Joo desceu da rvore, dizendo:
- Ainda no se vem sinais deles. Mas temos de descobrir um stio onde esconder tudo isto.
"Tudo isto", repetiu a Didi.
"Cala-te", ordenou Joo. Ps-se a olhar para todos os lados, mas nada conseguiu descobrir. Foi ento que teve uma ideia.
- J sei onde h-de ser.
- Onde ? - perguntaram as raparigas.
- Vem aquela rvore, ali? Aquela que tem uns ramos grandes e largos? Podemos subir, levar as coisas para cima e esconder-nos na folhagem.

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Ningum se lembraria de nos procurar ali. Nem a ns nem s nossas coisas.
As raparigas puseram-se a olhar para aquela rvore cheia de folhas. Era um castanheiro-da-ndia, escuro e recamado de folhas brilhantes. Um ptimo esconderijo.
- E como havemos de levar para l as malas? - perguntou Dina. - No so muito grandes mas ainda pesam bastante!
Joo desatou uma corda que trazia  cintura. Andava quase sempre com uma.
- Aqui tm! Eu subo  rvore e deito a corda c para baixo. Vocs enfiam-na nas pegas das malas e atam-na. Eu puxo e pronto!
- Vamos acordar o Filipe - disse Dina, que no via por que razo o irmo no havia de ajudar a iar as coisas para a rvore. Foi aban-lo. Ele acordou sobressaltado.
- Vem ajudar-nos, preguioso. Joo encontrou um esconderijo esplndido para ns e para as coisas - afirmou Dina.
Filipe veio juntar-se aos outros e concordou que era realmente um belo lugar. Props-se subir com Joo e ajudar a iar as malas.
A Didi estava interessadssima na tarefa. Quando Joo fez descer a corda, o animal voou para ela e deu-lhe uma bicada tal que Joo a deixou fugir.
".Didi, para que fizeste isso, patifa?", gritou-lhe Joo. "Agora tenho de descer e voltar a subir! Grande peste!"
A Didi desatou s gargalhadas. Esperou nova oportunidade e voltou a puxar a corda ao pobre Joo.
Joo chamou-a com rudeza. O animal veio, batendo o bico, pouco satisfeito com o tom de voz do dono. Este deu-lhe uma boa pancada no bico.
"Traste! Grande traste! Vai-te embora! No te quero aqui. Vai-te embora!"
A Didi voou, palrando desanimada. Joo raramente se zangava com ela, mas o bicho sentia que desta vez era a srio.
Refugiou-se no estbulo escuro e foi empoleirar-se l no alto, numa trave enegrecida, balouando-se de um lado para o outro.
"Pobre Didi! Pobre Didi!", resmungava. "L se vai a Didi!"
Joo e Filipe depressa iaram tudo, instalando as coisas na bifurcao dos grandes ramos. Depois, Joo trepou um bocadinho mais alto e levou o binculo aos olhos.
O que viu f-lo chamar apressadamente as raparigas.
- Vm a os homens! Subam depressa. Vejam l nada deixem a.
As raparigas deitaram um olhar rpido em redor. Nada viram. Maria da Luz trepou apressadamente pela rvore acima e, logo atrs dela, Dina. Instalaram-se em ramos
largos e ficaram a olhar para baixo. Nada viam porque a folhagem era muito espessa. Ora se eles no viam para baixo, ningum poderia ver para cima. Estavam seguros.
Depressa comearam a ouvir vozes. Os homens aproximavam-se. Os pequenos ficaram calados que nem ratos. Maria da Luz sentiu uma vontade enorme de tossir e tapou a
boca com a mo.

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L em baixo os homens faziam uma busca ao velho estbulo. Mas nada encontraram, porque os pequenos j tinham tirado tudo. Voltaram a sair e ficaram a olhar para
a erva amachucada. Estavam muito intrigados.
Ento o que se chamava Jos disse:
- Vou dar mais uma vista de olhos ao estbulo.
Desapareceu no escuro mais uma vez. Ora a Didi ainda estava empoleirada na trave enegrecida, toda amuada, e ficou aborrecida por voltar a v-lo.
"Limpa os ps! Quantas vezes te tenho dito que feches a porta!", disse severamente.
O homem deu um salto e ps-se a olhar para todos os lados. A Didi estava escondida num cantinho do tecto e ele no a via. Procurou em todos os outros cantos, sem
querer acreditar no que ouvia. Ento, gritou para o companheiro:
- Olha! Houve algum que me mandou limpar os ps e fechar a porta.
- No ests bom da cabea! - afirmou o outro. - No ests a regular bem.
"Bem, muito obrigado", respondeu a Didi. "Bem, bem, bem! Onde meteste o leno?"
Os homens agarraram-se um ao outro. A voz da Didi soara to inesperadamente dentro do estbulo escuro...
- Vamos escutar. Est calado - ordenou Jos. Didi ouviu a ordem de "estar calado" e fez logo com toda a fora:
"Chhhhhhhhhh! Chhhhhhhh!"
Isto foi de mais para os homens. Largaram a fugir para fora do estbulo.

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Captulo IX - NOVOS PLANOS


A Didi ficou contente por ver sair os dois homens e gritou-lhes:
"Fecha a porta! Fecha a porta".
Os homens foram a correr e s pararam quando j estavam afastados do estbulo. Jos enxugou o suor da testa.
- Que te parece isto? - perguntou. - Uma voz e mais nada!
O outro recobrava nimo rapidamente.
- Se h uma voz, h um corpo - afirmou. - Est ali algum, algum que nos quer pregar partidas. Quando vi esta manh a erva amachucada pensei logo que no estvamos
aqui ss. Quem estar c? Parece-te que haja algum que saiba do tesouro?
Os quatro pequenos, bem escondidos na folhagem da rvore mesmo por cima das cabeas dos dois homens, arrebitaram logo as orelhas. Tesouro! Ento era isso que os
homens procuravam neste vale solitrio e deserto. Um tesouro!
- Ningum pode conhecer o que ns sabemos - disse Jos com desdm. - No te enerves s porque ouviste uma voz, Firmino. Se calhar foi um papagaio.

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Firmino riu alto. Era o momento de ele se mostrar desdenhoso:- Um papagaio? Que mais tolices dirs tu hoje, Jos? J viste alguma vez papagaios aqui? E a falarem?
Eu coma o meu chapu e o teu se aquilo  um papagaio!
Os pequenos ouviram tudo e ficaram com cara de riso. Maria da Luz pensou que gostaria de ver Firmino, quem quer que ele fosse, a comer o chapu. E bem teria de comer
tambm o de Jos, porque se a Didi no era um papagaio era sem dvida uma ave palradora.
-  algum que est ali escondido - observou Firmino. - Como c veio ter  que no sei. Talvez haja uma cave por baixo do estbulo. Vamos entrar e havemos de descobrir
se est l algum escondido. H-de arrepender-se de querer brincar connosco.
Os pequenos no gostaram do tom de voz do homem. Maria da Luz ficou arrepiada. Que gente horrvel!
Dirigiram-se cautelosamente para o estbulo. Jos ficou junto da porta arruinada e gritou.
"Quem quer que sejam, saiam dessa cave! No tero outra oportunidade".
 claro que ningum saiu. Primeiro, porque no estava l algum, depois, porque nenhuma cave havia. Jos empunhava um revlver. A Didi, assustada com aquela voz
de trovo, deixou-se estar calada, o que foi uma sorte para ela.
O silncio tornou-se insuportvel a Jos. Apontou para onde calculava que fosse a entrada da cave e fez fogo. Pum!
A Didi quase caiu da viga com o susto e os pequenos iam tombando da rvore tambm. Joo deitou a mo a Maria da Luz mesmo a tempo, e segurou-a firmemente.
Pum! Outro tiro. Os pequenos chegaram  concluso de que Jos devia estar a atirar  toa, s para assustar quem ele pensava ter ouvido falar. Que pena a Didi ter
ficado no estbulo, amuada! Joo estava em cuidado. Receava que a catatua tivesse apanhado algum tiro.
Os homens voltaram a sair.

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Estiveram a examinar tudo por uns momentos e depois seguiram a conversar na direco do castanheiro.
- Agora ningum l est. Deve ter-se escapado. Sabes o que te digo, Firmino? Est c gente, e anda a espiar-nos!
- Se assim fosse no ia trair-se mandando-nos limpar os ps e fechar a porta - respondeu Firmino com desdm.
- Amanh voltaremos c e passaremos uma busca a srio a tudo - retorquiu Jos. - Tenho a certeza de que h c gente. E gente que fala a nossa lngua. Que querer
isto dizer? Estou preocupado. No nos interessa que algum suspeite da nossa misso.
-  claro que temos de fazer uma batida a este lugar - concordou Firmino. - Temos de descobrir quem fala. At a estamos de acordo, e at comearamos agora a bater
isto tudo se no estivesse j a escurecer e a fome a apertar. Vamos, toca a ir embora.
E, para grande alvio dos pequenos, os dois homens desapareceram. Joo, que do cimo da rvore avistava o avio, ficou  espera at ver os dois homens atravessarem
o vale, a caminho da cabana. Ento, gritou para os outros.
- Est tudo bem. Vo a passar pelo avio. Cus, que susto apanhei quando eles dispararam. A Maria da Luz ia caindo do ramo.
- A Tixa largou a fugir da minha algibeira e desapareceu - disse Filipe. - Oxal no tenha acontecido nada  Didi. Deve ter apanhado o maior susto de toda a vida
ao ouvir os tiros ressoarem naquele estbulo to pequeno.
A Didi estava como petrificada em cima da viga quando os pequenos entraram no estbulo. Acocorou-se a tremer. Joo chamou-a baixinho.
"Pronto, Didi. Anda. Estou aqui para te vir buscar".
A Didi desceu logo e veio pousar no ombro de Joo. Fez-lhe muita festa, repetindo:
"Mm-mm-mm! Umm-mm-mm!"
O estbulo era escuro e os pequenos no gostavam de l
estar. Maria da Luz tinha a sensao de que havia gente escondida nos cantos e disse:
- Vamo-nos embora. Que fazemos esta noite? Ser prudente voltarmos a dormir no mesmo stio da noite passada?
- No.  melhor levarmos as mantas e tudo para outro local - respondeu Joo. - H uns arbustos mais acima onde ficaramos abrigados do vento e escondidos. Podamos
ir para l.
- Olhem! J viram o que ns deixmos no estbulo? - observou Filipe de repente. - Os sacos com as latas. Ali naquele canto!
- Que sorte os homens no terem reparado que estavam cheios! - exclamou Joo. - Mas tambm no admira, no parecem mais do que montes de lixo. Mas vamos lev-los
para os arbustos. Os nossos mantimentos so bastante preciosos para que os deixemos ficar aqui.
Arrastaram os sacos para os arbustos e deixaram-nos l. Depois ps-se a questo das coisas que estavam na rvore.
- O melhor  trazermos para baixo as mantas e os impermeveis - alvitrou Joo. - As roupas que nos serviram de almofadas esto embrulhadas nas mantas. As malas podem
ficar l em cima. No temos necessidade de andar com elas atrs de ns.
Estava a ficar to escuro que se tornou difcil tirar as mantas e os impermeveis para baixo, mas l conseguiram arranjar-se. Dina e Maria da Luz fizeram "a cama",
como elas diziam.
- Aqui no estaremos to quentes - observou Dina.
- O vento sopra  nossa volta. E amanh onde havemos de esconder-nos? Os homens ho-de vir procurar atrs destes arbustos, disso no resta dvida.
- Lembram-se da queda de gua? - perguntou Filipe.
-  possvel que hajam muitas rochas e esconderijos l em baixo. Podemos descer e talvez encontremos um bom lugar.
- Isso! - exclamou Maria da Luz. - Gostava muito de voltar a ver a queda de gua.
Deitaram-se todos nas mantas. Como desta vez estava frio, encostaram-se muito uns aos outros. Dina tirou uma camisola da "almofada" e vestiu-a.

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De repente, soltou um grito que fez com que os outros dessem um salto com o susto.
- Ai! Ai! Anda aqui uma coisa a correr por mim acima!
- No  nada - respondeu Filipe, encantado. -  a Tixa! J me encontrou! Tixazinha linda!
E assim era. Como a lagartixa descobrira onde Filipe estava  que nunca ningum soube. Fazia parte daquela espcie de magia que Filipe exercia sobre os bichinhos.
- Sossega, Dina - disse Filipe. - A Tixa j est s e salva na minha algibeira. Coitada da bicha, deve ter ficado tonta ao cair da rvore.
"Bicha Tixa", repetiu logo a Didi, encantada com as duas palavras Bicha e Tixa.
Todos se riram. A Didi s vezes era impagvel.
- Isto  que ela gosta de juntar palavras com o mesmo som! - exclamou Maria da Luz. - Vocs lembram-se quando ela, nas frias passadas, no parava de dizer "bolorento,
poeirento, bafiento" at ns quase gritarmos de irritados?
"Bolorento, poeirento, bafiento, bicha Tixa", repetiu logo a Didi, guinchando.
"Cala-te", ordenou Joo. "L ests tu a exibir-te, Didi. Vai dormir. E se te lembrares de me enterrar as unhas no estmago, como hoje de manh, dou cabo de ti".
"Deus salve o rei", fez a Didi concentrada, e calou-se.
Os pequenos ficaram ainda um tempo a conversar. Depois as raparigas e Filipe adormeceram. Joo deixou-se ficar deitado de costas, com a Didi empoleirada num tornozelo,
a ver as estrelas. De que servia prometerem  tia Lia que no teriam mais aventuras? Na mesma noite da promessa tinham voado num avio desconhecido para um vale
solitrio onde, pelo que parecia, havia um tesouro escondido. Era espantoso. E Joo adormeceu tambm. As estrelas ficaram brilhando sobre os quatro, deslizando no
cu at que o Sol nasceu no Oriente, apagando-as uma a uma.
Filipe acordou cedo. Era isso mesmo que ele queria, uma vez que no sabia a que horas os homens se lembrariam de procurar o dono da "voz".

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Acordou os outros e no deu ouvidos aos protestos deles.
-  preciso acordares, Dina - disse ele. - Hoje temos de nos levantar cedo. Vamos, acorda! Olha que te meto a bicha Tixa pelo pescoo abaixo.
Foi a maneira de Dina acordar de vez. Levantou-se dum salto e tentou dar uma palmada a Filipe, mas este escapou-se. A palmada foi acertar na Didi, que soltou um
grito de surpresa e indignao.
"Desculpa, Didi", exclamou Dina. "Desculpa. No era em ti que eu queria acertar. Coitadinha da Didi".
"Que pena, que pena!", fez a Didi, fugindo, no fosse dar-se o caso de Dina errar outra vez a pontaria.
- Vamos tomar um pequeno almoo rpido - alvitrou Joo. - Talvez umas sardinhas, bolachas e leite, no acham? Vi uma lata de sardinhas no cimo de um dos sacos. Ei-la.
Comeou a avistar-se uma coluna de fumo que se erguia do local onde estavam os dois homens e os pequenos ficaram assim a saber que eles tambm j andavam a p. Apressaram-se,
por isso, a acabar de comer, a Dina voltou a enfiar as latas numa toca de coelho e levantaram as ervas onde tinham estado deitados para que no ficassem to amachucadas.
- O melhor ser arranjarmos um bom esconderijo para estas latas e levarmos s o que chegue para hoje - alvitrou Filipe. - No podemos andar com estes sacos to pesados
atrs de ns.
- E se os atirssemos para o meio daqueles arbustos? - lembrou Dina. - So to bastos que ningum adivinharia que estavam l. E ns podamos voltar aqui quando quisssemos.
Deitaram os sacos para o meio dos arbustos, e realmente s se algum se metesse mesmo pelo meio deles os descobriria. Ento, os pequenos agarraram nas mantas, nos
impermeveis e noutras roupas e puseram-se a caminho. Os rapazes levavam as latas e Joo ainda mais a mquina fotogrfica e o binculo.


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Seguiram pelo caminho da vspera. Quando chegaram  encosta coberta de ervinhas e flores, sentaram-se a descansar. Os homens no lhes iam, com certeza, no encalo!
Deviam andar a passar uma busca ao estbulo e s imediaes.
Mas, de repente, ao longe, Joo vislumbrou um brilho cintilante. Rapidamente estendeu-se no cho e disse aos outros que fizessem o mesmo, dizendo:
- Est l em baixo algum com um binculo. O reflexo do Sol nas lentes veio acertar em mim. Ora bolas! Esqueci-me de que os homens podiam revistar as montanhas com
um binculo. Se nos viram, vm atrs de ns.
- O melhor ser arrastarmo-nos at quela rocha e pormo-nos atrs dela -lembrou Filipe. - Vamos. Depois j podemos continuar a andar at  queda de gua.

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Captulo X - UM BELO ESCONDERIJO


Uma vez atrs do rochedo, os pequenos ficaram certos de que no seriam vistos e respiraram fundo. Filipe ps-se a olhar em volta. O fosso onde j tinham estado na
vspera ficava um pouco  esquerda. Podiam l chegar sem serem vistos de baixo.
- Vamos - decidiu Filipe, escolhendo um caminho onde rochas e arbustos os encobriram do vale. - Por aqui.
Os pequenos subiram o fosso e chegaram  orla do rochedo que contornava uma parte ngreme da montanha. Seguiram por l e voltaram a ter a mesma magnfica viso da
vspera. Acima deles estava a casa grande arruinada e queimada. Maria da Luz no olhou para l. Sentia-se sempre triste ao ver as vigas enegrecidas e as paredes
derrubadas.
Quedaram-se a escutar o rudo da catarata. Chegava at eles como um som musical e contnuo, como uma orquestra longnqua, tocando uma simples melodia.
- Parece msica! - comentou Dina. - E, agora, subimos ou descemos, Filipe? Se querem ir at  base da queda de gua para nos escondermos nas rochas, temos de descer,
no ? Ontem subimos para aquela parte rochosa, no foi?
Os rapazes ficaram um momento a pensar. Por fim Joo disse:
- Talvez seja melhor descermos desta vez. Aquelas rochas, que ficam mesmo por cima da queda de gua, so capazes de ser muito escorregadias porque devem estar cheias
de espuma. Ns no queremos escorregar e temos as mos ocupadas com tudo o que temos de levar.
Escolheram ento outro caminho que ia at l abaixo. Filipe foi  frente para experimentar o trajecto mais seguro

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porque caminho verdadeiro no havia. Conforme se aproximavam da queda de gua comearam a chegar at eles uns salpicos de espuma que lhes humedeciam os cabelos.
Como estavam cheios de calor da escalada sentiam-se deliciosamente refrescados com aquela espuma.
Contornaram uma rocha e viram logo o buraco de onde saa a gua em cascata. Que espectculo maravilhoso! Maria da Luz susteve a respirao, cheia de admirao e
espanto, e ficou-se a olhar.
- Que barulho ensurdecedor! - gritou Joo. - Excita-me imenso.
- Tambm a mim - corroborou Dina. - Apetece-me danar, saltar ou qualquer coisa assim. E d-me vontade de gritar.
- Gritemos todos! - lembrou Joo, pondo-se a gritar como se fosse maluco. Os outros imitaram-no. S Maria da Luz ficou calada. Era como se quisessem gritar mais
alto e movimentar-se mais do que a gua que caa em catadupas.
Em breve pararam, exaustos. Estavam sobre uma rocha lisa, coberta de espuma. Ainda no tinham chegado  base da queda de gua, estavam a cerca de um quarto de caminho.
O barulho ensurdecia-os, e s vezes, a fora da espuma deixava-os sem flego. Era realmente emocionante.
Depois de terem olhado por largo tempo para a queda de gua, Joo disse finalmente:
- Vamos em busca de um bom esconderijo. No me parece que aqueles homens se lembrem de vir procurar-nos aqui.
Puseram-se todos  procura duma gruta ou rochas por trs das quais pudessem esconder-se. Maria da Luz no parecia muito entusiasmada.
- No me parece que possa vir a suportar este barulho todo durante o dia inteiro. At fico tonta.
"Tonta, Tixa, Tixa Bicha", observou logo a Didi. Tambm a catatua ficara excitada com a queda de gua e gritara como os outros.

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- Pois bem, ters de aguentar - respondeu Joo. - Vais ver que te habituas.
Maria da Luz ficou preocupada. Tinha a certeza de que nunca se habituaria quele constante rudo ensurdecedor. Nunca conseguiria dormir.
Os pequenos foram passando revista ao local da queda de gua, sem nunca se aproximarem muito, por causa da espessa massa de espuma. Parecia que nunca mais descobriam
um bom esconderijo. As rochas estavam todas hmidas e parecia no haver um lugar confortvel onde pudessem instalar-se.
- Com estes salpicos todos ficvamos com as mantas molhadas num instante - disse Dina. - E ns no podemos deitar-nos em mantas hmidas. Afinal, no me parece que
esta ideia tenha sido muito boa.
Joo subiu um pouco mais e enfrentou um feto gigante. Pendia como uma enorme cortina verde e era lindssimo. Joo pensou que talvez pudessem esconder-se atrs dele.
Afastou uma das hastes e soltou uma exclamao que os outros no ouviram por causa do barulho da gua.
"Formidvel!" repetiu para si prprio. "H uma gruta atrs do feto, e deve estar seca, uma vez que o feto a protege dos salpicos. Parece uma cortina espessa! Eh!
Companheiros!"
Mas ningum o ouvia e Joo estava impaciente de mais para esperar que os outros lhe prestassem ateno. Passou para o outro lado do feto e encontrou-se numa gruta
seca e sombria, de tecto bastante baixo e cho coberto de musgo. Apalpou-o. Estava seco.
Provavelmente, quando o feto murchara, no Outono, os salpicos tinham entrado na gruta e o musgo, humedecido, cresceu bem. Mas agora no era mais do que um leito
fofo verde-seco.
"Exactamente o que nos faltava!" exclamou Joo encantado. "Formidvel. Aqui ningum dar connosco porque o feto tapa a entrada toda. Foi por mero acaso que encontrei
isto. Que belssimo esconderijo para ns!"

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Num dos lados havia uma salincia de rocha que formava uma espcie de banco e Joo pensou logo:
"Ali podemos pr as nossas coisas, latas e tudo. E se pusermos os impermeveis em cima do musgo ficamos com uma cama maravilhosa, tenho de dizer aos outros".
E eram horas de voltar a aparecer, porque os outros tinham dado por falta dele e andavam a gritar com toda a fora.
- Joo! Joo! Onde ests? Joo!
Joo ouviu-os quando afastou as hastes do feto e espreitou pondo s a cabea de fora. Dina e Didi viram aquela cabea a espreitar por entre o feto, um pouco acima
deles. A Didi soltou um grito de surpresa e voou logo para l. Dina deu um salto.
- Olhem para ali! - gritou ela para Filipe e Maria da Luz. - J viram onde ele est? Escondido atrs daquele enorme feto!
Joo ps as mos em concha na boca e gritou o mais alto que pde numa tentativa para fazer-se ouvir acima do rudo da catarata.
- Venham c ver o que encontrei!
Os outros apressaram-se a subir. Joo afastou as hastes do feto para eles entrarem, dizendo cerimoniosamente:
- No querem entrar para a minha sala? Que prazer em v-los por c.
Atravessaram a cortina verde e entraram na gruta, soltando exclamaes de surpresa e contentamento.
- Que stio estupendo! Aqui  que ningum dar connosco !
- E tem um tapete macio, todo feito de musgo!
- E no se ouve tanto a queda de gua. J podemos falar uns com os outros.
- Ainda bem que gostam - disse Joo modestamente. - Encontrei isto por acaso. Mas foi um rico achado, no foi?
E era verdade. Maria da Luz ficou aliviada por ver que o rudo imenso da queda de gua ficava muito diminudo ali, na gruta. Dina ficou encantada com aquele cho
to macio.

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Filipe ficou contente com a segurana que este esconderijo oferecia. Ningum os encontraria, a no ser por acaso.
- Vamos buscar as coisas que deixmos na rocha - alvitrou Dina que gostava de ver tudo junto e organizado. - Aqui h muito onde as arrumar. Vou pr as latas naquela
espcie de banco de rocha.
- A altura d  justa para nos pormos de p - observou Filipe. Dirigiu-se para as pernadas de fetos que pendiam sobre a entrada, tornando a gruta escura, afastou
aquela cortina verde e logo um raio de Sol entrou na gruta, iluminando-a perfeitamente.
- Podamos amarrar parte do feto para o Sol entrar na gruta - sugeriu Filipe. - Daqui tem-se uma viso maravilhosa da queda de gua e vemos o que se passa l fora,
se algum vier por aqui, ns descobrimos logo. Belssimo!
- Aqui no me importo de viver por um tempito. Sinto-me segura - confessou Maria da Luz, satisfeita.
- Se calhar temos de c ficar um tempo - respondeu Filipe. - Mas olha que h stios bem piores.
- Aqui  que os homens nunca nos descobriro - opinou Joo.
Amarrou umas pernadas do feto e os pequenos sentaram-se no cho para gozarem por momentos o Sol, que entrava agora a jorros. O musgo era fofo como uma almofada.
Minutos depois, desceram para irem buscar as mantas, latas e tudo o mais e levaram-nas para a nova casa. Dina arrumou as coisas desirmanadas na salincia do rochedo.
E que bem que ficaram!
- Esta noite vamos ter uma cama fofinha - regozijou-se ela. - E vamos dormir aqui bem. No  abafado nem bolorento.
"Bolorento, poeirento, bafiento", fez logo a Didi, lembrando-se das trs palavras que aprendera nas outras frias. "Bolorento, poeirento, bafiento..."

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"No comeces, Didi. J estamos fartos dessa", interrompeu Joo.
A Didi voou-lhe para o ombro e ficou a olhar para fora da grutazinha. A vista era realmente soberba: primeiro, a gua em cascata, com reflexos coloridos, aqui e
ali, para alm dela a encosta ngreme da montanha, e muito para l, mais abaixo, o vale verde que se estendia at ao sop das montanhas que, do lado oposto, se erguiam
umas atrs das outras.
Eram horas de comer. Parecia que os pequenos ficavam todos com fome ao mesmo tempo, e comearam a olhar para as latas arrumadas na "prateleira". Joo levou a mo
 algibeira  procura do abre-latas.
- Cuidado no o percas. O teu abre-latas  presentemente o nosso maior tesouro, Joo - preveniu Filipe.
- No te preocupes, que no o perco - respondeu Joo, comeando a abrir a lata. A Didi ficou a observ-lo de cabea ao lado. Gostara muito daquelas latas. J sabia
que l dentro havia coisas extraordinrias.
Momentos depois j todos estavam sentados, comendo com todo o apetite e olhando a queda de gua atravs da entrada da gruta. Que bom era estar ali, saboreando o
almoo, com to bonita vista, no musgo fofo e com as pernas estendidas ao Sol!
- Realmente parece que somos dados a aventuras - observou Joo. -  estranho que no possamos conservar-nos afastados delas. Oxal o Jaime e a tia Lia no estejam
muito preocupados. Se ao menos pudssemos mandar notcias!
- Mas no podemos - respondeu Filipe. - Estamos encalhados aqui e afastados de tudo, sem possibilidade de nos pormos em contacto com algum que se saiba, tirando
aqueles dois homens. No h meio de saber que resoluo tomar. Ainda bem que temos bastantes mantimentos.
- O melhor que h a fazer  voltar aos arbustos onde pusemos as outras latas e traz-las para aqui logo que pudermos - disse Joo. - O que trouxemos no nos vai
dar para mais do que hoje.

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Vocs duas importam-se que eu v com o Filipe buscar o que pudermos? No vamos poder trazer tudo de uma vez. Temos de fazer vrias excurses at l.
- Aqui ficamos bem - disse Dina, dando  Didi o ltimo pedao de salmo da lata dela. - Podem ir esta tarde e deixem a Didi aqui a fazer-nos companhia.

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Captulo XI - A GRUTA DO ECO


Pouco passava do meio-dia. Os rapazes sabiam que tinham muito tempo para irem buscar as latas escondidas nos arbustos. Talvez eles os dois conseguissem trazer um
saco.
-  melhor irmos - disse Joo. - Temos de estar alerta, que aqueles homens devem ir passar uma busca minuciosa a tudo e no queremos que eles nos vejam. Vocs duas
tm a certeza de que no precisam de ns?
- Absoluta - respondeu Dina, cheia de preguia. Estava bem contente por no ter de voltar aos arbustos e carregar com um saco pesado at  gruta. Deitou-se ao comprido
no musgo, to fofo que parecia que tinha molas.
Joo ps o binculo a tiracolo. Podia vir a ser til para descobrir os homens ao longe. Ele e Filipe atravessaram as hastes verdes do feto. Joo, ento, ergueu a
voz para gritar para as raparigas.

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- Se por acaso virem algum por aqui no se esqueam de desatar o feto imediatamente, perceberam? As hastes voltam  forma primitiva e a gruta fica encoberta. Maria
da Luz, v l se fazes com que a Didi no venha atrs de ns.
A Didi estava no ombro de Maria da Luz, onde Joo acabara de a pr. A pequena segurou-lhe as patas e a Didi, percebendo que no queriam que fosse com o Joo, soltou
um grito de ira.
"Que pena, que pena!", fez ela, elevando a poupa, furiosa. Mas Maria da Luz no a soltou. Segurou-a firme at Joo e Filipe desaparecerem. Ento largou-a e a Didi
voou-lhe do ombro e saiu da gruta, indo empoleirar-se num rochedo,  procura de Joo.
"Foi-se por gua abaixo", resmungou ela aborrecida. "Trs pombinhas por gua abaixo".
"Trs pombinhas a voar, Didi. Trocas tudo", corrigiu Maria da Luz.
"Pobre Didi!", exclamou o bicho, batendo o bico. "Pobre Didi!"
E voltou para a gruta. Dina dormia a sono solto, estendida no musgo, de boca aberta. A Didi passou por ela e ps a cabea ao lado a ver a boca aberta da Dina. Depois
foi apanhar um bocado de musgo com o bico.
"Didi! Ora atreve-te a pr isso na boca da Dina! Grande m!", gritou-lhe Maria da Luz, que j conhecia as partidas do bicharoco.
"Limpa os ps", atalhou a Didi zangada, voando para o fundo da gruta. Maria da Luz virou-se de barriga para baixo para a ver. No podia confiar-se na Didi quando
ela estava com semelhante disposio.
O Sol entrava a jorros na gruta. Era de sufocar. Maria da Luz pensou que seria uma boa ideia desatar o feto para tapar o Sol. Puxou pelo fio como Joo lhe ensinara
e imediatamente a cortina de feto desceu e a gruta mergulhou numa penumbra verde na qual dava gosto ficar.
Dina no acordou. Maria da Luz voltou a deitar-se de barriga para baixo, pensando em tudo o que acontecera. O rudo da cascata chegava agora at ela, bastante abafado,
porque a cortina de feto era muito espessa. "Didi! onde ests?", perguntou.
Da Didi no veio resposta. Maria da Luz tentou descobrir onde estaria o bicho. Devia estar amuada por o Filipe e o Joo no a terem levado com eles. Muito pateta
era a Didi! E Maria da Luz voltou a chamar:
"Didi! Anda c! Vem falar comigo. Eu ensino-te uma cantiga bonita.
Mas da Didi no se ouvia nem um som. Maria da Luz no percebia porqu. Mesmo quando a Didi estava amuada, no deixava de responder quando lhe falavam.
Examinou o fundo da gruta. A Didi no estava l. Olhou para a salincia onde estava tudo arrumado. Didi, nem v-la. Onde se teria metido? Pelo feto no sara ela
de certeza. Ento tinha de estar na gruta!
Na salincia da rocha estava uma lanterna. Maria da Luz tacteou at a encontrar e pegou nela. Acendeu-a e iluminou a gruta com ela. No se via nem sinal da Didi.
No estava empoleirada em parte alguma, no tecto baixo da gruta. Que
mistrio!
Maria da Luz comeou a ficar em cuidado. Acordou Dina, que se sentou a esfregar os olhos, zangada por terem-na
acordado.
- Que aconteceu? - perguntou ela. - Estava a dormir
to bem.
- No encontro a Didi - informou Maria da Luz. - J
procurei em todo o lado.
- No sejas tola. Deve ter sado  procura do Joo - respondeu Dina, ainda mais zangada. Voltou a deitar-se, bocejando. Maria da Luz abanou-a.
- No vais adormecer outra vez, Dina. J te disse que a Didi estava ali no fundo da gruta, h uns minutos, e desapareceu. Parece que se evaporou.

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- No te importes, ela j volta. E agora deixa-me em paz, Maria da Luz - replicou Dina.
E fechou os olhos. Maria da Luz nada mais ousou dizer. Dina era dada a frias quando se zangava, por isso, a pequenita suspirou, desejando que os rapazes estivessem
de volta. E a Didi?
Maria da Luz levantou-se e atravessou o musgo at ao fundo da gruta. A rocha formava a uma espcie de pregas, e atrs duma delas havia um vo. Maria da Luz espreitou
para l com todo o cuidado, esperando ver a Didi ali escondida, pronta a gritar "Uh!" como tantas vezes impertinentemente fazia.
Mas a Didi no estava l. Maria da Luz iluminou tudo em cima e em baixo com a lanterna at que, a certa altura, a luz deixou de se reflectir por ter desaparecido
num buraco.
"Olha um buraco!", exclamou Maria da Luz, surpreendida. "A Didi deve ter ido por ali!"
Trepou at  abertura, que lhe ficava  altura do ombro e no dava para mais do que um corpo. Esperava ir dar a outra gruta, mas nada disso aconteceu. O buraco subia
levemente, era uma espcie de tnel circular e estreito. Maria da Luz ficou certa de que a Didi devia ter desaparecido por este estranho tunelzinho to estreito.
"Didi", gritou ela, iluminando o tnel com a lanterna. "Onde ests, minha pateta? Anda c!"
Da Didi no veio resposta. Maria da Luz enfiou-se pelo tnel dentro, com desejos de saber se seria muito comprido. Era quase circular, como um cano. Possivelmente
a gua fizera caminho por ali h anos atrs, mas agora estava completamente seco. Uma vez l dentro, e por mais que se esforasse por escutar, Maria da Luz deixou
completamente de ouvir a cascata. Ali reinava o silncio.
"Didi!", gritou. "Didi!"
Dina ouviu o grito em sonhos e acordou sobressaltada. Sentou-se, outra vez zangada. Mas desta vez Maria da Luz no estava na gruta com ela. Coube a vez a Dina de
se assustar. Lembrava-se de Maria da Luz lhe ter dito que a Didi desaparecera de repente.

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Agora parecia que acontecera o mesmo  Maria da Luz. As hastes do feto tapavam a entrada e ela no ia passar por l sem dizer a Dina que ia sair.
Dina examinou bem toda a gruta. De Maria da Luz nem sinais. Que lhe teria acontecido, a ela e  Didi?
Ouviu-se, ento, outro grito abafado e distante. Foi at ao fundo da gruta e descobriu as pregas de rochas. Foi buscar outra lanterna  prateleira improvisada e
iluminou tudo. Ficou boquiaberta ao ver dois sapatos a sarem dum buraco redondo aproximadamente  altura do ombro dela.
Puxou um bocado pelos tornozelos de Maria da Luz e gritou:
- Luzinha! Que ests a a fazer? Onde vais? Que h nesse buraco?
Maria da Luz respondeu:
- No sei. Descobri isto por acaso. A Didi deve ter subido por aqui. Achas que v ver se a encontro? Anda tambm.
- Est bem, vai andando - respondeu Dina.
Maria da Luz arrastou-se por aquele tnel estreito acima. De repente o tnel alargou, e,  luz da lanterna, viu, mais abaixo, outra gruta, mas desta vez muito ampla.
A pequenita conseguiu sair do buraco e ps-se a olhar em volta. A gruta parecia um salo subterrneo. Tinha um tecto bastante alto. De algures, naquela vastido
mal iluminada, vinha uma voz lamentosa.
"Que pena, que pena!"
"Oh, Didi! Ests aqui!", exclamou Maria da Luz e depois ficou admirada com o eco que se fez logo ouvir, repetindo como por magia.
"Aqui, aqui, aqui, aqui!"
- Despacha-te, Dina! - gritou Maria da Luz, pouco satisfeita com o eco.
Mas o eco repetiu: "Dina, Dina, ina, ina!"
A Didi voou assustada para Maria da Luz. Tantas vozes! Que seria aquilo?

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"Pobre Didi!", disse a catatua assustada. "Pobre Didi!".
"Didi, Didi, Didi!", repetiu o eco. O animal, apavorado, olhava para todos os lados para ver quem o chamava. Ento, deu um grito forte de desafio.
Imediatamente uma srie de gritos ecoou pelo ambiente, como se a gruta estivesse cheia de catatuas.
A Didi ficou sem fala. Tantos pssaros ali e ela sem ver nenhum!
Dina saiu tambm do buraco e ficou ao lado de Maria da Luz.
- Que coisa enorme! - exclamou. "Enorme!", ouviu-se.
- Repete-se tudo - disse Maria da Luz. - Parece magia. "Magia, magia", fez o eco.
- Vamos falar baixo - sugeriu Dina, segredando. Imediatamente a gruta ficou cheia de murmrios que assustavam as raparigas mais do que os gritos que tinham ouvido
anteriormente. Instintivamente chegaram-se uma para a outra. Dina depressa se refez do susto.
-  o eco - explicou. -  vulgar estas grutas grandes fazerem eco. Sempre gostava de saber se algum ter alguma vez entrado aqui.
- Com certeza que no - respondeu Maria da Luz, revistando tudo com a lanterna. - Somos capazes de estar a pisar um lugar onde nunca algum ps os ps!
- Vamos explorar isto - declarou Dina. - No que parea ter muito que ver, mas nada mais temos que fazer at os rapazes voltarem.
Devagar, foram dando a volta  grande gruta escura, ouvindo os prprios passos repetidos mltiplas vezes pelo eco. Uma vez, quando Dina espirrou, as raparigas ficaram
apavoradas com os enormes rudos explosivos que as rodearam. Parecia que o eco se estava a divertir  custa delas.
- Por favor, no voltes a espirrar - pediu Maria da Luz. -  horrvel ouvir estes espirros todos. Pior do que os gritos da Didi.

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Tinham j quase completado a volta  gruta quando chegaram a uma passagem alta e estreita entre duas paredes de rocha.
- Olha para isto! - exclamou Dina.-Uma passagem. Parece-te que isto v dar a algum stio?
-  capaz disso - disse Maria da Luz, com os olhos brilhantes. - No te esqueas, Dina, de que aqueles homens andam  procura dum tesouro. No sabemos que espcie
de tesouro ser, mas  possvel que esteja escondido algures nestas montanhas.
- Ento, toca a seguir pela passagem - disse Dina. - Didi Anda! No te queremos para trs.
A Didi voou-lhe para o ombro. Em silncio, as duas raparigas entraram na passagem estreita e rochosa, de lanternas acesas. Que iriam encontrar?

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Captulo XII - NOVA PERSPECTIVA DA CASCATA


A passagem era aos "esses". Descia um bocado e o cho era muito pouco plano, o que fazia com que as duas raparigas escorregassem e tropeassem a cada passo. A certa
altura o tecto tornou-se to baixo que tiveram de andar de gatas. Mas depressa voltou a ser alto como de princpio.
Passado um tempo comearam a ouvir qualquer coisa que no sabiam o que fosse. Era um troar interminvel que no tinha um segundo sequer de interrupo.
- Que  aquilo? - exclamou Dina. - Estaremos a aproximar-nos do corao da montanha? Parece-te que seja o crepitar dum fogo enorme, Maria da Luz? Que poder ser
isto? No sei o que possa provocar tanto barulho no meio da montanha.
- Nem eu - disse Maria da Luz j cheia de vontade de voltar para trs. Um fogo no centro da montanha, a fazer um barulho daqueles? No, no era coisa que se desejasse
ver. S de pensar nisso se sentia estremecer e sem flego.
Mas Dina  que no ia recuar depois de ter chegado at ali.

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- Voltar para trs antes de sabermos onde isto vai dar? - admirou-se ela. - Nem pensar! Os rapazes at se ririam de ns se soubessem.  raro termos assim uma oportunidade
de descobrirmos qualquer coisa antes deles. At podemos ir dar com o tesouro, Maria da Luz.
Mas Maria da Luz j no estava nada interessada em tesouros. O que queria era voltar para o ambiente seguro da gruta que conhecia, a gruta com a cortina de feto.
- Ento vai - respondeu Dina, desabrida. - Eu continuo por aqui. Maricas!
Apavorava-a mais a ideia de voltar sozinha  gruta do eco do que continuar por ali com Dina. Por isso, a pobre Maria da Luz l seguiu caminho. Com aquele estranho
rudo abafado nos ouvidos foi descendo pela passagem, sempre chegada  amiga. O rudo ia-se tornando cada vez mais forte.
Foi ento que elas perceberam o que era. Pois claro, era a cascata! Que tolas eram por no terem descoberto isso logo! Mas ali, na montanha, o rudo parecia que
soava diferente.
- Afinal no temos vindo a andar na direco do centro da montanha. Vamos sair algures perto da queda de gua. Onde,  que no sei - disse Dina.
Mas quando viram a luz do dia ficaram boquiabertas de espanto. A passagem fez uma curva e chegou at elas uma claridade quebrada, curiosamente cintilante. Envolveu-as
uma corrente de ar frio e qualquer coisa lhes humedeceu os cabelos.
- Maria da Luz! Viemos dar a um rochedo precisamente por trs da queda de gua! - exclamou Dina admirada. - Olha para aquela massa de gua na nossa frente, e que
cores! Ests a ouvir o que eu digo? A gua faz tanto barulho!
Maria da Luz ficou a olhar, dominada pela surpresa e pelo barulho. A gua formava uma enorme cortina mvel que as separava do ar livre. Caa em catadupas, brilhante,
cheia de energia, sem parar. Aquela fora poderosa deixou as raparigas em respeitoso silncio.

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Sentiam-se pequenas e fracas perante aquela enorme massa de gua que caa em torrente a uns metros delas.
Era espantoso poderem estar numa rocha precisamente por trs da cascata e sem serem afectadas por ela a no ser por aquela brisa hmida cheia de gotinhas minsculas.
A rocha era muito larga e abrangia a queda de gua de uma ponta  outra. Numa extremidade, a uns trinta centmetros do solo, havia uma rocha pequena e as raparigas
sentaram-se a admirar o deslumbrante panorama que tinham diante de si.
- Que diro os rapazes? - perguntou Dina. - Vamos ficar aqui at eles virem. Sentadas nesta ponta at podemos acenar-lhes. Vo ficar pasmados por nos verem aqui.
Nenhum caminho h que venha c dar a no ser o que ns descobrimos.
- Vai ser uma bela surpresa! - exclamou Maria da Luz, j sem medo. - Olha, daqui v-se a nossa gruta, pelo menos v-se o feto gigante que tapa a entrada.  fcil
vermos os rapazes quando chegarem.
A Didi estava silenciosa, admirada por ter vindo sair por trs da grande cortina de gua. Empoleirou-se numa rocha e ficou a olhar, pestanejando de vez em quando.
- Oxal aquela pateta no se lembre de querer atravessar a gua - disse Maria da Luz preocupada. - Ia por ali abaixo e ficava feita em bocados!
- Ela no faz uma coisa dessas - respondeu Dina. - Tem senso bastante para saber o que lhe aconteceria se tentasse semelhante coisa.  capaz de voar por um lado
da queda de gua, mas da no lhe vem grande mal.
As raparigas ficaram sentadas durante bastante tempo, sem se cansarem de ver a turbulncia da gua. Passado algum tempo, Maria da Luz soltou um grito e apertou o
brao de Dina.
- Olha! No so eles que vm a? So eles mesmos e trazem um saco. Ainda bem. Agora j temos comida que chegue.
Ficaram a ver os dois rapazes, subindo penosamente as rochas que iam dar  gruta. Nada adiantava acenar-lhes j.

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Mas, de repente, o rosto de Dina tomou uma expresso de horror.
- Que aconteceu? - perguntou Maria da Luz, assustada com aquela expresso.
- Olha! Vem algum atrs deles.  um dos homens. Vs? E o outro tambm l vem. Parece-me bem que nem Filipe nem Joo sabem que esto a ser seguidos. Os homens vo
ver que caminho eles tomam e ficam a saber do nosso esconderijo. Joo! Filipe! Cuidado, Joo!
Chegou-se mesmo  beira da queda de gua e, segurando-se a um feto que l crescia, debruou-se para a frente, gritando e acenando, completamente esquecida de que
os homens a podiam ver e ouvir to bem como os rapazes.
Infelizmente, absorvidos pela tarefa de levar o saco pela rocha acima, nenhum deles viu ou ouviu Dina, mas os homens avistaram-na e ficaram a olhar para ela. A espessa
cortina de gua continuamente a correr no os deixava perceber se era rapariga, rapaz, homem ou mulher. Tudo o que conseguiam distinguir era que estava algum a
danar e a acenar por trs da cascata.
- Olha! - disse um dos homens para o outro. - Olha para aquilo! Ali atrs da gua!  ali que eles se escondem. Que belo lugar! Como tero eles conseguido ir at
ali?
Os homens ficaram a olhar boquiabertos para a queda de gua, procurando com os olhos um caminho que fosse dar at  rocha onde estava aquele vulto, agitando-se e
acenando.
Entretanto, Joo e Filipe, sem a mnima conscincia de estarem a ser seguidos, e sem verem Dina, tinham chegado  gruta. Filipe afastou as hastes do feto e Joo
empurrou o saco para dentro, j sem flego por ele ser to pesado.
O saco ficou finalmente no musgo. Os rapazes atiraram-se para o cho, com o corao a bater muito, cansados da escalada at  gruta, carregando com o saco pesado.
De princpio, nem sequer notaram a ausncia das raparigas.
Perto dali, um pouco mais abaixo, estavam os dois homens, intrigadssimos. Distrados a ver Dina por trs da queda de gua,

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no tinham visto Joo e Filipe atravessar o feto e entrar na gruta. Por isso, quando deixaram de olhar para a queda de gua deram porque os rapazes, que eles tinham
to afanosamente seguido, pareciam ter desaparecido sem deixar rasto. -Onde se tero eles metido? - perguntou Jos. - Da ltima vez que os vimos estavam naquele
rochedo.
- Pois estavam. Foi quando eu vi aquela pessoa a acenar e desviei os olhos deles por um momento. E agora sumiram-se - resmungou Firmino. - Para onde eles foram 
fcil de ver. Devem ter seguido por um caminho que vai dar  queda de gua. Esto escondidos ali atrs, e que belo esconderijo! No lembra ao diabo esconderem-se
atrs duma queda de gua. Mas agora j sabemos onde os encontrar. Descemos para onde a gua cai e depois trepamos at quela rocha. Vamos caar os ratos no buraco.
Comearam a descer, esperando encontrar um caminho que fosse dar ao rochedo, por trs da queda de gua. As rochas eram escorregadias, o que tornava a descida difcil
e perigosa.
Na gruta, os rapazes depressa se recompuseram. Sentaram-se e puseram-se  procura das irms.
- Onde estaro a Maria da Luz e a Dina? - perguntou Joo admirado. - Prometeram ficar aqui at ns voltarmos. Oxal no se tenham lembrado de ir por a fora. Perdiam-se
que era uma beleza!
Mas na gruta no estavam. Isso era certo. Os rapazes no viram o buraco nas pregas da rocha ao fundo e ficaram intrigadssimos. Joo afastou as hastes do feto e
espreitou l para fora.
Ficou espantadssimo ao ver os dois homens, fazendo equilbrios nas rochas perto da queda de gua. Ia ficando sem fala.
- Olha para aquilo! - gritou Filipe, cerrando mais o feto, com medo de ser visto. - Esto ali os homens! At podiam ter-nos visto entrar! Como tero chegado aqui?
Ns vimo-los ao p do avio quando amos para os arbustos!

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Dina, entretanto, desaparecera. No chegara a perceber se os homens tinham ou no visto os rapazes atravessar o feto e entrar na gruta. Fosse como fosse, pensou
que devia avis-los da presena dos homens, pois estava certa de que nem Filipe nem Joo tinham dado por eles.
- Anda da, Maria da Luz - disse-lhe apressada. - Temos de ir ter com os rapazes. Mas olha-me para aqueles homens! Parece que andam a tentar subir at aqui. Devem
ter-me visto acenar. Anda depressa, Maria da Luz.
Tremendo de excitao, Maria da Luz seguiu Dina e as duas atravessaram a passagem escura e aos esses que ia dar  gruta do eco. Dina ia to depressa quanto podia,
sempre de lanterna em punho. Nenhuma se lembrou mais da Didi, que ficou s atrs da queda de gua, de penas humedecidas pela espuma, seguindo interessada os equilbrios
difceis dos homens. Nem deu pela retirada das duas.
Por fim, Dina e Maria da Luz chegaram  gruta do eco. Dina parou para pensar dizendo:
- Onde ser o buraco por onde entrmos? "Cala-te - ralhou Dina ao eco.
"Cala-te, cala-te, cala-te!", respondeu o eco, irritante. Dina iluminou a parede toda com a lanterna, e teve sorte em no levar muito tempo a encontrar o buraco.
Num abrir e fechar de olhos meteu-se por ele dentro, rastejando, com Maria da Luz logo atrs. Esta tinha a sensao de que vinha algum perseguindo-a, disposto a
agarrar-lhe os ps, e quase dava cabeadas nos ps de Dina to depressa queria andar.
Joo e Filipe estavam a observar os homens por entre o feto quando as pequenas saram do buraco ao fundo da gruta e se atiraram aos rapazes. Iam caindo de susto.
Filipe ps-se aos socos, pensando que eram inimigos. Dina apanhou um e gritou, pagando-lhe na mesma moeda. Rolaram os dois pelo cho.
- Acabem com isso - pediu Maria da Luz, quase a chorar. - Somos ns! No vem que somos ns?

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Filipe afastou Dina e levantou-se, Joo ficou a olhar, muito admirado, perguntando:
- Mas de onde surgiram vocs? Sempre nos pregaram um destes sustos! Saltarem assim sobre ns! Onde estiveram?
- Ali no fundo h um buraco e ns entrmos por l - explicou Dina, deitando um olhar furibundo a Filipe. - E vocs sabem que os dois homens vos seguiram? Ficmos
cheias de medo que eles vissem para onde vocs entraram.
- Mas eles vinham realmente a seguir-nos?!- exclamou Joo. - Isso  que ns no sabamos. Espreitem vocs duas pelo feto e vejam onde eles andam  nossa procura.

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Captulo XIII - SOS E SALVOS NA GRUTA


Foram todos espreitar por entre as hastes do feto. Maria da Luz tinha a respirao suspensa. Realmente os dois homens continuavam a fazer equilbrios prodigiosos
junto da queda de gua.
- Mas que esto eles a fazer? - perguntou Joo, intrigado. - No me digam que andam ali  nossa procura. Se nos seguiram devem saber muito bem que ns no fomos
por ali.
- Devem ter-nos visto acenar por trs da queda de gua
- explicou Dina. - E, com certeza, pensaram que nos escondemos ali.
- A acenar por trs da queda de gua? - repetiu Filipe, muito admirado. - Que ests a dizer, Dina? No deves estar boa da cabea.
- A  que tu te enganas - disse Dina. - A Maria da Luz e eu estvamos l quando vocs vinham a subir a encosta at  gruta. Encontrvamo-nos mesmo por trs da queda
de gua e eu fiz todos os esforos possveis para que vocs nos vissem, porque queria avis-los de que aqueles dois homens vos vinham a seguir.
- E como conseguiram vocs chegar a semelhante lugar?
- perguntou Joo. - Que falta de juzo! Lembrarem-se de trepar por aquelas rochas escorregadias, para se porem atrs da gua! At podiam...
- No sejas pateta, que ns no fomos por a - atalhou Dina. - Seguimos por outro caminho. E contou a Joo e a Filipe como tinham descoberto o buraco ao fundo da
gruta, entrado na gruta do eco e encontrado a passagem que ia dar  rocha atrs da queda de gua.

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Os rapazes ouviram tudo muito admirados.
- Que coisas extraordinrias! - exclamou Joo. - Quer dizer que os homens devem ter-te l visto, Dina, desviaram o olhar de ns por um momento e perderam-nos de
vista. Que sorte!
- Por isso eles no largam aquelas rochas todas molhadas - comentou Filipe, rindo. - Pensam que ns nos escondemos ali, por trs da cascata e querem ir apanhar-nos.
No sabem que o caminho no  aquele. No sei como eles ho-de conseguir passar para trs da cascata por aquelas rochas. Se no se acautelam ainda vo na enxurrada.
Maria da Luz ficou toda arrepiada.
- No quero ver uma coisa dessas.
E nunca mais quis espreitar pelo feto. Mas Dina e os rapazes ficaram a observar tudo, radiantes. Sentiam-se seguros na gruta encoberta pelo feto e achavam divertido
ver os dois homens a escorregarem nas rochas ao p da gua, cada vez mais furiosos.
A Didi ainda estava por trs da cascata a observar a cena, muito interessada. A certa altura soltou uma enorme gargalhada que os homens ouviram apesar do barulho
da gua. Olharam um para o outro, espantados.
- Ouviste? - perguntou Jos. - Est ali algum a rir-se de ns. Deixem estar que no perdem pela demora. Devem estar mesmo por trs da cortina de gua. Como tero
eles ido para l?
Era impossvel chegar  rocha por trs da cascata fazendo caminho pela parte de cima ou pelas rochas que ficavam em baixo. Absolutamente impossvel. E os homens
acabaram por chegar a esta mesma concluso depois de terem cado muitas vezes e quase resvalado de uma rocha molhada para a gua da cascata. Sentaram-se ento numa
rocha afastada da gua, para limparem a cara. Estavam furiosos e a suar e tinham a roupa ensopada.
E o pior era que nada compreendiam. De onde teriam surgido aqueles rapazes? Haveria algures por ali um grupo de gente acampada?

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Estariam escondidos nas montanhas? No deviam estar, seno t-los-iam visto por ali em busca de comida. No podiam ser muitos e deviam ter mandado os rapazes buscar
mantimentos.
Os pequenos continuavam a observ-los, divertidssimos. Dava um certo prazer ver os inimigos na m de baixo, v-los agir sem serem vistos. At a Maria da Luz veio
dar uma espreitadela, agora que j no estavam na iminncia de cair  gua.
- O melhor  ns irmo-nos embora - disse Jos. - Se o esconderijo deles  aquele, que lhes faa bom proveito. Podamos era arranjar algum para nos ajudar. Pnhamo-lo
aqui de guarda e ele havia de dar conta de quem entrasse para trs da queda de gua. Mas agora vamos embora, j estou farto disto at aos cabelos.
Levantaram-se. Joo vigiava-os atravs do feto. Para onde iriam? Para a barraca? Para o avio? Mas, compreendendo que iam passar bastante perto da gruta, o pequeno
apressou-se a fechar as hastes do feto e fez recuar os outros, dizendo:
- Estejam calados. So capazes de passar muito perto daqui.
E passaram realmente. Tomaram um caminho que passava mesmo rente  gruta. Os pequenos ficaram mudos e quedos, ouvindo os homens l fora. De repente, o feto oscilou,
e Maria da Luz levou a mo  boca para abafar um grito.
"Vo entrar, descobriram-nos!", pensou, e o corao quase lhe parou de bater. O feto voltou a oscilar e depois tudo ficou calmo. Os rapazes afastaram-se e os pequenos
ouviram as vozes dos dois, dizendo qualquer coisa que j no se percebia.
- Foram-se embora? - foi a pergunta muda de Dina ao olhar para Joo, erguendo as sobrancelhas. Ele fez que sim com a cabea. Sim, j se tinham ido embora. Mas que
susto apanharam quando os dois homens se agarraram ao feto para os ajudar na escalada! Mal sabiam Jos e Firmino que a dois passos deles estavam quatro crianas
caladas que nem ratos.

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Joo voltou a afastar o feto. Dos homens nem sinal. Ficou certo de que eles se tinham ido embora, mas no teve coragem para sair e examinar as redondezas.
- O melhor ser descansarmos um bocadinho. Comemos, e depois eu saio e vou dar uma vista de olhos por a. Onde est a Didi?
Ningum lhe soube responder. Foi ento que Dina se lembrou de que o bicho estivera com elas por trs da cascata. Tinham voltado sem ela, na nsia de avisarem os
rapazes da presena dos dois homens. Ainda devia estar no mesmo stio.
- Que aborrecimento! O melhor  irmos busc-la - alvitrou Joo. - Agora tambm no me apetecia faz-lo. Estou cansadssimo por ter vindo a carregar com aquele saco
tanto tempo.
De fora da gruta veio uma voz triste, lamentosa e cheia de censuras:
"Pobre Didi! Sozinha. Que pena, que pena, pobre Didi!"
Os pequenos desataram a rir, e Joo abriu cautelosamente a cortina de feto, no fosse dar-se o caso de ainda por l andarem os homens. Didi enfiou-se por ali dentro,
com ar de quem tinha muita pena de si prpria. Voou para o ombro de Joo e ps-se a dr-lhe bicadinhas na orelha.
"Tudo a bordo", palrou a catatua, j mais animada, dando estalinhos com o bico. Dina ajeitou-lhe as penas da cabea.
- A Didi deve ter-se escapado por um lado da queda de gua e vindo c ter - lembrou ela. "Sua espertalhona!"
"Deus salve o rei", exclamou a Didi. "Limpa os ps!" O abre-latas voltou a ser manobrado e os pequenos foram escolher as latas e os boies cujo contedo haviam de
comer. Faltava ainda acabar uma lata de bolachas e eles escolheram carne assada para comerem com elas e uma grande lata de alperches sumarentos. Joo afastou um
tudo-nada as hastes do feto, apenas o suficiente para a luz lhes permitir ver o que faziam. Depois, mais uma vez se sentaram a saborear uma boa refeio e a Didi
at se viu atrapalhada por tirar mais alperches do que devia.

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Os pequenos esperaram ainda um bocado antes de se atreverem a sair da gruta. Quando o Sol comeou a descer, Joo veio, ento, c fora examinar todas as redondezas.
No havia sinais dos homens. Joo descobriu um stio de onde podia ver at longe em qualquer direco.
- Vamos ficar de sentinela  vez - props ele. - Daqui por meia hora podes vir substituir-me, Filipe.
Depois divertiram-se imenso a vaguear por ali. Encontraram groselhas bravas e fartaram-se de comer. Eram deliciosas. A Didi tambm comeu e no parava de murmurar:
"Mmmmmmmm".
A cada um deles coube a vez de vigiar, mas nada de notvel aconteceu. O Sol escondeu-se por trs das montanhas e veio o lusco-fusco. Voltaram todos para a gruta.
- Vai ser to bom dormir aqui esta noite - declarou Maria da Luz, contente. - O musgo  to bom, to macio! Parece veludo.
Passou-lhe a mo por cima. Parecia mesmo veludo. Ajudou Dina a pr no cho os impermeveis e uma manta e ps as camisolas a servirem de almofadas.
- Um refresco de alperche e bolachas para todos - ofereceu Dina quando todos se sentaram na "cama", estendendo a lata das bolachas. Joo afastou as hastes do feto
e amarrou-as bem amarradas, explicando:
- Temos de deixar entrar ar na gruta. Com quatro c dentro isto  capaz de ficar muito abafado.
- Com cinco. No te esqueas da Didi - lembrou Dina.
- Seis - corrigiu Filipe, mostrando-lhes a lagartixa. - No se esqueam da bicha Tixa.
- E eu que estava toda esperanada em que a tivesses perdido - confessou Dina aborrecida. - No a vi em todo o dia.
Comeram as bolachas e deitaram-se. L fora estava escuro. A "cama" era quente e fofa. Os pequenos aconchegaram-se, procurando cada um a posio mais confortvel.

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- Se no fosse lembrar-me de que a me deve estar aflita por nossa causa, eu at gostava disto - declarou Filipe, cobrindo-se com a manta. - No fao a mais pequena
ideia de onde estaremos, mas  em stio bem bonito. Que agradvel  a msica da queda de gua, assim,  noite.
- Toca um bocado alto de mais - contrariou Joo, bocejando. - Mas no me parece que v impedir-me de dormir. " Didi, sai de cima da minha barriga. No sei porque
tanto gostas de te colocares a  noite. Pe-te antes num dos ps".
"Limpa os ps", palrou logo a Didi, levantando voo para aterrar no p direito de Joo. Depois meteu a cabea debaixo da asa.
- Amanh Filipe e eu havemos de ir a essa gruta do eco de que vocs falaram e de nos pr por trs da queda de gua - disse Joo. - Imagine-se, vocs as duas a terem
uma aventurazinha sozinhas.
- Aventurazinha! - exclamou Maria da Luz. - Foi uma aventura das grandes, sobretudo quando vimos que estvamos mesmo por trs da queda de gua!
Dina estava cheia de receio que a Tixa se pusesse a correr sobre ela durante a noite, e ficou acordada durante um tempo  espera de lhe sentir os pezitos. Mas a
Tixa estava enroscada na axila de Filipe, fazendo-lhe umas ccegas horrveis quando se mexia.
Maria da Luz adormeceu quase imediatamente e os outros no tardaram a seguir-lhe o exemplo. Toda a noite o rudo da queda de gua se fez ouvir ininterruptamente.
Levantou-se vento que veio agitar as hastes do feto. Uma raposa ou outro bicho parecido veio at  entrada da gruta cheirar, mas, alarmado com o cheiro de gente,
fugiu silencioso.
Ningum se mexeu, a no ser Filipe quando a lagartixa acordou, sentindo que precisava de mudar de posio, foi procurar outro lugar quentinho, desta vez atrs da
orelha dele. Acordou segunda vez, sentiu a Tixa a mexer-se e fechou os olhos quase imediatamente, contente por lhe sentir os pezitos.

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Ao amanhecer, os quatro pequenos foram acordados por um rudo de motores que penetrou na gruta, mais forte do que o da queda de gua. Joo levantou-se logo, surpreendido.
Que seria aquilo?
O rudo foi-se aproximando cada vez mais, como se estivesse quase em cima das cabeas deles. Realmente, que seria?
Rr-rr-rr-rrrrrrrrrrrrr!
-  um avio! - exclamou Joo. - Um avio! Deve vir salvar-nos. Vamos, depressa para fora da gruta!
Atropelaram-se na nsia de sarem da gruta,  procura do avio. Ia um a subir, uma forma grande que se recortava no azul do cu. Era evidente que se aproximara muito
da encosta da montanha, acordando-os com o barulho.
- Um avio para nos salvar? - proferiu Filipe com desdm.-No me parece! Aquele  o avio em que ns viemos, o avio dos homens, seu pateta!

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Captulo XIV - O POBRE PRISIONEIRO


No havia dvida de que se tratava do avio dos homens. Os quatro reconheceram-no perfeitamente e viram-no sumir-se ao longe. Ia para Oeste.
- Ir outra vez para o aeroporto do Jaime? - perguntou Joo. - Bem gostava de saber se o Jaime saber o que eles andam a tramar.
- Nem ns sabemos muito bem, a no ser que andam  procura de um tesouro qualquer - pronunciou-se Filipe. - Agora que tesouro eles pensam encontrar aqui  que no
percebo.
- Nem eu - respondeu Joo.--Pronto, l vo! Parece-te que voltam?
- Isso  mais do que certo - disse Filipe. - No vo desistir com tanta facilidade. So capazes de ir dizer que h gente agora por aqui. Possivelmente pensam que
andamos tambm  procura do tesouro! E so capazes de trazer com eles mais homens para ver se nos encontram.
- Isso  que no convinha! - exclamou Maria da Luz, alarmada.
- Parece-te que tero ido os dois no avio? - perguntou Filipe.
- Devem ter ido - respondeu Joo. - Mas ns podemos ir investigar. Se c ficou um, deve estar algures perto da cabana, uma vez que no sabe quantos ns somos. At
 capaz de pensar que haja homens connosco, sabem? E no se atreve a afastar-se muito, assim sozinho.
Mas mais tarde, quando os pequenos saram da gruta, nessa manh, e foram dar uma vista de olhos, como Joo sugeriu,

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no encontraram sinais nem de Jos, nem de Firmino. No havia lume. Tinham-no apagado e calcado. Desta vez a cabana estava realmente fechada  chave e a chave retirada
da porta. No houve empurres ou pontaps que a abrissem.
- Se ns soubssemos que eles iam regressar, podamos ter-lhes pedido uma boleia - disse Joo, tentando fazer esprito. - Bem gostava de saber quando viro, se 
que tencionam c voltar.
- Antes de amanh de manh no estaro c, com certeza - respondeu Filipe. - Devem voltar a partir da noite como da outra vez. E se tornssemos a examinar aqueles
caixotes?
Mas nada havia l para ver. Continuavam vazios e cobertos com o oleado. Os pequenos brincaram durante umas horas e comeram debaixo de uma rvore o contedo de umas
latas que foram buscar onde as tinham escondido, nos arbustos. Foi Joo quem as abriu.
Depois de comerem, Filipe lembrou que seria altura de voltarem  queda de gua para as raparigas lhes mostrarem a gruta do eco e a passagem que ia a dar por trs
da cascata. E l foram, no sem primeiro destrurem todos os vestgios da sua presena prximo da cabana dos homens.
Mas quando chegaram  gruta, Joo soltou uma exclamao de aborrecimento e ps-se a meter a mo em todas as algibeiras.
- Que foi? - perguntou Maria da Luz.
- Sabem o que fiz? Deixei l ficar o abre-latas - respondeu Joo. - Imaginem s! Esta minha cabea! Pensei que talvez precisssemos de abrir outra lata e pu-lo sobre
as razes da rvore debaixo da qual comemos. Com certeza que o deixei l ficar. No o tenho aqui.
-  Joo! Mas ns nada podemos comer sem abrirmos latas - exclamou Filipe, j com horrveis vises de uma noite de fome. - Que estupidez!
- Pois  - respondeu Joo, cabisbaixo. - S h uma coisa a fazer. Vou l busc-lo. Tu vais ver a gruta do eco com as raparigas,

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e eu vou com a Didi buscar o abre-latas. No mereo outra coisa.
- Eu vou contigo, Joo - interveio Maria da Luz, com pena do irmo.
- No, que j andaste muito - respondeu Joo. - Tu vais com eles. Sozinho at ando mais depressa. Vou s sentar-me aqui a descansar um bocadinho.  gruta posso eu
ir em qualquer altura.
Sentou-se no musgo. Os outros fizeram o mesmo, cheios de pena por saberem como ele devia sentir-se aborrecido consigo prprio. Mas mais aborrecido ainda era ficarem
sem comer. Algum tinha de ir buscar o abre-latas.
Cerca de meia hora depois j Joo se sentia capaz de nova caminhada. Despediu-se alegremente dos outros e partiu, descendo gil pelas rochas abaixo. Os outros sabiam
que ele no se perderia. Agora j todos sentiam que conheciam bem o caminho.
Joo levava a Didi no ombro e conversavam todo o caminho. A Didi estava radiante por ter o Joo s para si. Ele andava quase sempre com os outros. S disseram disparates,
mas divertiram-se na mesma.
Por fim Joo chegou  rvore  sombra da qual tinham almoado e ps-se  procura do abre-latas com certo receio de que algum o tivesse levado. Mas l estava onde
o deixara.
"Sou capaz de dar trs saltos!", exclamou.
"Salta a pulga na balana", respondeu a Didi. "As meninas a aprender, o filho do Lus".
"Tambm me parece", monologou Joo. "Bem, o melhor ser voltarmos. O Sol est a pr-se e eu nenhuma vontade tenho de voltar de noite. Toca a andar, Didi, vamos a
isto".
"Mos  obra", palrou a Didi.
"Ps  obra, queres tu dizer", corrigiu Joo, rindo-se e comeando a andar. Mas, de repente, parou para escutar. Ao longe ouvia-se um rudo familiar, um rudo de
motores: Rr-rr-rr-rr!

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"Caramba, Didi! Que cedo vm aqueles sujeitos", exclamou Joo, fixando o olhar a Oeste, no cu, que estava ainda raiado pelo Sol. "No h dvida,  um avio. Ser
o deles?"
O avio foi-se aproximando cada vez mais e Joo teve uma ideia. Correu para a cabana dos homens e trepou rapidamente para uma rvore perto do local onde eles costumavam
acender a fogueira.
Depois recomendou  Didi.
"Est calada! Nem uma palavra, minha tonta! Percebeste? Chhhhhhh!"
"Que pena, que pena!", fez a Didi num murmrio rouco. Depois calou-se, encostando-se ao pescoo de Joo e empoleirada no ombro dele.
O avio aproximou-se mais.
Foi descrevendo crculos ao mesmo tempo que descia. Por fim, inclinou-se para aquele vasto terreno liso que to bem servia de campo de aterragem, pousou as rodas
no solo e parou. De onde estava, Joo no via o aparelho.
Contava que os homens viessem para a cabana ou para a fogueira, e acertou. No tardaram a aparecer, e Joo ficou a espreitar por entre as folhas, quase em riscos
de se desequilibrar de tanto se esforar por distinguir o que se passava, j com pouca luz.
Desta vez vinham quatro homens. Joo observava tudo atentamente. Percebia-se que um dos homens era um prisioneiro porque trazia as mos amarradas. Que estranho!
De cabea descada, o homem bamboleava-se de um lado para o outro como se estivesse tonto. De vez em quando um dos outros dava-lhe um empurro para o endireitar.
Foram direitos  fogueira.
Jos comeou a tratar de tudo para a acender. Firmino foi  cabana, tirou uma chave do bolso e abriu a porta. Voltou a sair com latas de sopa e carne.
O prisioneiro sentou-se na erva, sempre de cabea pendida. Era evidente que no se sentia bem, ou seria simplesmente medo? Joo no sabia.

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O quarto homem que, pelo que Joo pensava, era uma espcie de guarda do prisioneiro, ficou sentado ao p do lume sem dizer palavra, a ouvir o que Jos e Firmino
diziam.
De princpio falavam muito baixo e Joo no conseguia perceber o que diziam. Comeram sopa quente e foram cortando fatias de lngua acompanhada de po que trouxeram
do aparelho. O prisioneiro levantou os olhos, os outros comiam numa total indiferena para com o homem. Este, em voz baixa, murmurou qualquer coisa. Jos riu-se
e disse ao guarda:
- Diz-lhe que no lhe damos de comer nem de beber enquanto no nos der as informaes que pretendemos.
O guarda repetiu isto numa lngua que Joo no percebeu. O prisioneiro respondeu qualquer coisa e o guarda deu-lhe uma bofetada. Joo ficou indignado. Bater num
homem que tem as mos amarradas! Cobardes!
O homem, depois de, sem xito, tentar fugir  bofetada, voltou a deixar descair a cabea e l ficou, sem nimo.
- Diz que vocs tm o mapa, por isso, que mais querem? - proferiu o guarda.
- Mas no se percebe nada - retorquiu Jos. -  muito confuso. Se no quiser explic-lo, ter de nos mostrar o caminho amanh.
O guarda traduziu isto para o prisioneiro. Este abanou a cabea e o guarda explicou:
- Ele diz que est fraco de mais para chegar at l.
- Ns arrastamo-lo se for preciso - respondeu Firmino, cortando nova fatia de lngua e metendo-a no po. - Diz-lhe que amanh tem de levar-nos at l sob pena de
no comer nem beber. Quando estiver a morrer de fome amansar.
Acabaram de comer. Jos bocejou longamente e disse:
- Eu vou para a cama. Tu, Lus, tens ali uma cadeira na barraca. Ao prisioneiro chega-lhe bem o cho.
O homem pediu que lhe desatassem as mos, mas eles no o atenderam. Joo estava cheio de pena dele. Apagaram o lume e foram para o interior da barraca. Joo ps-se
a imaginar Jos e Firmino no colcho e Lus na nica cadeira.

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O pobre prisioneiro tinha de ficar deitado no cho frio e duro e ainda por cima de mos amarradas atrs das costas.
Joo esperou at sentir que o terreno estava livre. Ento, desceu da rvore. A Didi tinha sido um anjo. Do bico dela no sara nem um murmrio. Em passos silenciosos,
Joo dirigiu-se  cabana. Estava uma vela acesa e ele viu os quatro homens quela luz vacilante. O prisioneiro tentava aconchegar-se no cho.
Era quase noite cerrada. Joo esperava ser capaz de chegar  gruta sem novidade. Meteu a mo na algibeira e ficou mais aliviado ao encontrar l uma pequena lanterna.
Ao menos isso.
Joo orientava-se normalmente bem no escuro, parecia que tinha olhos de gato. Desta vez, uma ou duas vezes parou sem saber por onde seguir - mas a Didi  que no
se enganava. Voava um bocadinho  frente e chamava-o ou assobiava.
"Bendita Didi!", exclamou. "Se no fosses tu era capaz de nunca mais dar com o caminho".
Os outros estavam muito preocupados. Quando escureceu sem que o Joo tivesse aparecido, Maria da Luz quis ir procur-lo.
- Perdeu-se, com certeza - dizia ela, quase a chorar.
- E se fssemos para a montanha com esta escurido, perdamo-nos todos - dizia Filipe. - Com certeza levou tempo a encontrar o abre-latas, viu que estava a cair
a noite e resolveu no se arriscar a voltar pelo escuro. Amanh de manh cedo j ele c est de certeza.
Estava escuro de mais para fazerem fosse o que fosse. Dina arranjou a cama e deitaram-se todos, Maria da Luz chorava baixinho. Sentia que devia ter acontecido alguma
coisa a Joo.
Foi ento que lhes chegou aos ouvidos um rudo de passos apressados. O feto foi afastado e os pequenos sentaram-se de repente, com os coraes a bater apressadamente.
Seria o Joo ou estariam descobertos?

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- Vivam! - disse a voz familiar de Joo. - Onde esto todos?
Acendeu a lanterna e viu trs rostos radiantes. Maria da Luz atirou-se-lhe ao pescoo.
- Joo! Pensmos que te tivesses perdido. Que estiveste a fazer. Estamos cheios de fome. Trouxeste o abre-latas?
- Trouxe, e venho carregadinho de novidades - exclamou Joo. - Mas podamos ir comendo enquanto eu as conto.

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Captulo XV - OS HOMENS APANHAM UMA DESILUSO


Abriram logo as latas e a Didi soltou uma gargalhadinha deliciada ao ver o anans de que tanto gostava. Maria da Luz chegou-se muito para Joo.
- Que te aconteceu? Estou morta por ouvir tudo. Conta depressa.
- Primeiro, deixa-me comer qualquer coisa - respondeu Joo, arreliador, farto de saber que os outros ardiam em impacincia por ouvir as novidades. Mas como ele ansiava
por cont-las tanto quanto os outros por ouvi-las, depressa comeou a narrativa.
- Com que ento o avio j voltou! - exclamou Filipe, quando Joo comeou a narrativa. - E tambm voltaram os dois homens?
Joo contou que eram quatro. Maria da Luz ficou desolada ao saber da existncia do pobre prisioneiro.
- Estou a comear a ver claro - observou Filipe, por fim. - Algures neste vale est escondido um tesouro, talvez coisas que pertenciam  gente que viveu nestas casas
antes de elas arderem. Aqueles dois homens souberam disso, e conseguiram, no se sabe como, arranjar um mapa do trajecto para o esconderijo. Mas aquele mapa no
chega para o encontrarem, e, ento, conseguiram deitar a mo a algum que sabe o caminho para l.
- Exactamente - disse Joo. - Ele  estrangeiro. Talvez tenha vivido neste vale e at escondido tambm coisas. Aprisionaram-no e tencionam obrig-lo a mostrar-lhes
o esconderijo. Nada lhe do de comer nem de beber at que ele lhes mostre o que querem saber.

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- Selvagens! - exclamou Dina, e os outros concordaram com ela.
- Acham que ele ir explicar tudo? - perguntou Maria da Luz.
- Oxal que sim. Era para bem dele - opinou Joo. - Mas vou contar-lhes os meus planos. A minha ideia era fazermos o possvel para um de ns, ou mais, os seguir
para sabermos onde fica o esconderijo. Os homens no conseguem tirar logo tudo. Talvez pudssemos arranjar ajuda e evitar que eles roubassem o resto. No lhes pertence,
com certeza.
- Que te parece que haja no tesouro? - perguntou Maria da Luz, com a cabea cheia de vises de barras de ouro e jias maravilhosas.
- Isso no sei - respondeu Joo. - Ns devemos estar algures nas profundezas da Europa, onde houve guerra, como sabem, e muita gente, boa ou m, escondeu, nos mais
estranhos lugares, coisas valiosas de todas as espcies. Na minha ideia deve ser qualquer coisa deste gnero que estes homens procuram. Eles falam ingls, mas no
so ingleses. Devem ser sul-americanos ou qualquer outra coisa, sabe-se l!
Os outros ficaram calados, pensando no que Joo dissera. Parecia-lhes que ele tinha razo. Mas a ideia de seguir os homens no agradava a Maria da Luz. E se eles
descobrissem que estavam a ser seguidos e os fizessem prisioneiros?
- O melhor seria Filipe e eu irmos amanh na excurso - props Joo. -  melhor vocs duas no se meterem nisto.
Dina ficou zangada, mas Maria da Luz sentiu-se secretamente aliviada.
- O que vocs querem  gozar isto tudo sozinhos - disse
Dina. - Mas enganam-se, porque eu tambm vou.
- Isso  que no vais - respondeu Joo. Acendeu a lanterna e virou a luz para a cara de Dina, dizendo:
- Logo vi que devias estar vermelha de fria. Mas no  caso para isso, Dina. Seja como for, tu e Maria da Luz j hoje tiveram uma aventura, quando descobriram a
gruta do eco e a passagem que vai dar  queda de gua.

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 justo que ns tambm tenhamos uma oportunidade.
- Conversa tens tu -resmungou Dina, mas no insistiu no assunto, com grande alvio de Maria da Luz.
- Onde est a Tixa? - perguntou Dina, sem querer instalar-se antes de saber ao certo onde parava a lagartixa.
- Sei l - foi a resposta arreliadora de Filipe. - Pode estar em qualquer parte. At debaixo da tua almofada.
- Est aqui - respondeu Joo. - Dum lado do meu pescoo est a Didi e do outro a Tixa. Estou quentinho que  um regalo.
"Que pena!", fez a Didi, palrando alto.
"Calada!", ordenaram logo todos. Ningum gostava do horrvel grito da Didi.
Ofendido, o animal meteu a cabea debaixo da asa.
Os pequenos deitaram-se todos. Estavam cheios de sono. Ento Filipe proferiu:
-  a nossa quarta noite neste vale, pode chamar-se ao que nos sucede a Aventura no Vale. S gostava de saber que mais ir acontecer.
Depressa adormeceram. A Tixa passou a correr por cima de Maria da Luz e foi aninhar-se ao p de Dina, que teria protestado veementemente se soubesse. Mas, como ignorava,
continuou a dormir com sossego.
No dia seguinte estavam todos bem dispostos.
- Sabem uma coisa? - disse Dina, tirando umas latas da "prateleira". - Parece-me que j vivo nesta gruta h imenso tempo.  espantoso como a gente se habitua a coisas
novas.
- Como havemos de descobrir quando os homens partem para a expedio e que caminho tomam? - perguntou Filipe.
- Deves lembrar-te de que os dois vieram nesta direco, e no na outra, quando quiseram orientar-se com o mapa - respondeu Joo. - Parece-me que, se formos para
aquela grande rocha negra por onde passamos sempre que vimos para aqui, conseguiremos v-los. Depois  s segui-los.

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Por isso, quando acabaram de comer dirigiram-se cautelosamente para o grande rochedo negro. Acocoraram-se atrs dele e Joo foi espreitando de vez em quando para
ver se avistava alguma coisa.
Passada cerca de uma hora o rapaz soltou uma exclamao em voz baixa:
- Olha! L vm eles, todos quatro, o prisioneiro, coitado, ainda continua com as mos amarradas e vem aos tropees.
Os quatro homens passaram de largo. Os pequenos viram-nos muito bem. Reconheceram os dois que j conheciam, e Joo disse-lhes que o quarto homem se chamava Lus.
O prisioneiro no sabia ele como se chamava. Do que no restavam dvidas era de que o pobre homem estava tonto de fome e de sede.
- Vocs, meninas, ficam aqui - observou Joo. - Pelo menos at nos perderem de vista. Depois voltam para a queda de gua e deixam-se ficar por l para no se perderem.
Toma a Didi, Maria da Luz. No pode ir connosco.
Maria da Luz pegou na Didi e segurou-lhe as pernas. O bicho soltou um grito tal que os pequenos olharam aflitos na direco dos quatro homens para verem se eles
por acaso teriam ouvido aquilo. Mas no.
Joo e Filipe prepararam-se para partir. Joo foi dizendo:
- Eu tenho aqui o binculo. Podemos segui-los a distncia para que no dem por ns, que eu no os perco de vista. Viva!
E os dois l foram, cautelosamente, encobrindo-se sempre que podiam. Ao longe viam-se ainda os homens.
- Ser preciso marcarmos o caminho ou parece-te que saberemos orientar-nos no regresso? - perguntou Filipe.
- O melhor ser marcarmos o que pudermos - respondeu Joo. - Nunca se sabe. Marcam-se as rochas com um pedao de gis branco que eu trago aqui e nas rvores faz-se
um golpe visvel.
Continuaram a andar, seguindo sempre a uma boa distncia dos quatro homens. Em breve chegaram a uma subida muito ngreme,

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difcil de escalar porque era to arenosa que se escorregava a cada passo.
- Oxal tenham desatado as mos ao pobre prisioneiro - disse Joo ofegante. - Detestava ter de subir uma coisa destas de mos amarradas, sabendo que no tinha possibilidades
de escapar  queda se escorregasse.
Quando chegaram ao fim da difcil escalada no se viam sinais dos homens e Joo exclamou aborrecido:
- Ora bolas! Com esta subida demormo-nos tempo de mais e perdemo-los de vista.
Levou o binculo aos olhos e examinou toda a encosta. Um pouco a Leste, e acima deles, vislumbrou quatro pequenas silhuetas e disse:
- L esto eles! Belo! Agora j os vejo. Vamos por ali, Trunfa.
Continuaram a andar, desta vez mais depressa, uma vez que o caminho era mais fcil. Passaram por framboesas selvagens e apanharam algumas, at pararam uma vez para
beber numa nascente de gua cristalina que jorrava por baixo de uma rocha.
No voltaram a perder os homens de vista, a no ser por um momento. Estes nunca se viraram para trs nem se serviram de binculos. Claro que no esperavam ser seguidos.
Por fim, os rapazes chegaram a uma parte da encosta muito desolada. Tinham abatido grandes blocos de pedra. As rvores estavam partidas pelo meio. Viam-se grandes
brechas na terra e nas rochas e, embora a erva crescesse por toda a parte, escondendo mazelas, era evidente que se dera ali qualquer catstrofe.
- Deve ter sido uma avalanche - disse Joo. - Com certeza caiu aqui uma enorme tempestade de neve que arrastou pedras e rochas de todos os tamanhos, deitou abaixo
rvores e abriu estas brechas. Deve ter sido no Inverno passado.
- E onde esto os homens? - perguntou Filipe. - J no os vejo. Eles contornaram aquela rocha.

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- Pois foi. E ns temos de ter cuidado a dar a volta. Esta zona est to devastada que quase no temos onde nos escondermos.
Contornaram a rocha com todo o cuidado, e fizeram bem, porque imediatamente soaram vozes e viram os quatro homens.
Joo fez parar Filipe. Por cima da rocha estava um arbusto. Os rapazes treparam at l e deixaram-se ficar muito encostados a ele, espreitando por entre as folhas.
L em baixo havia um fosso de rocha.
Tambm ali se viam sinais duma tremenda derrocada. Em frente de um monte de pedras estava o prisioneiro. J tinha as mos desatadas. Apontava para o monte de pedregulhos
e dizia qualquer coisa em voz baixa e montona. O guarda traduziu e Joo apurou o ouvido para saber o que ele dizia.
- Diz que a entrada era aqui - foram as palavras do guarda. Os quatro homens ficaram-se a olhar para as rochas.
- Exactamente em que stio? - perguntou Jos, ardendo de impacincia e clera. O prisioneiro voltou a apontar, murmurando qualquer coisa.
- Ele diz que no sabia que tinham cado aqui estas pedras - traduziu o guarda. - Diz que lhe parece que a entrada ficou obstruda, mas talvez removendo umas pedras
destas encontrem espao suficiente para entrarem.
Jos teve uma fria, se contra o prisioneiro se contra as rochas no se sabia bem. Atirou-se aos pedregulhos e comeou a puxar por eles com quanta fora tinha, gritando
a Lus e Firmino que o ajudassem. De princpio, o prisioneiro limitou-se a sentar-se numa rocha com ar infeliz. Jos deu-lhe um berro e ele levantou-se com dificuldade
para ajudar tambm, embora estivesse fraco de mais para semelhante tarefa.
Puxou por uma pedra, oscilou e caiu. Os outros deixaram-no cado e continuaram a puxar pelos pedregulhos, ofegantes e com as testas cobertas de suor.
Os dois rapazes ficaram a ver a cena. De onde estavam parecia-lhes impossvel desimpedir qualquer entrada de gruta.

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Joo disse baixinho a Filipe:
- Devem ter cado ali centenas de pedras! No acredito que assim consigam alguma coisa!
Passados uns momentos, tornou-se evidente que os homens haviam chegado  mesma concluso, porque desistiram de puxar pelos pedregulhos e sentaram-se a descansar.
O guarda apontou para o prisioneiro cado por terra e disse:
- E este? Como havemos de o levar outra vez para baixo?
- Dem-lhe de comer e de beber que j fica outro - resmungou Jos.
- Agora  melhor irmo-nos embora - segredou Filipe. - No tardar que comecem a descida. Vamos. Foi uma desiluso nada termos descoberto! Sempre esperei que pudssemos
ver um bocadinho do tesouro.
- Se  ali que ele est vo ser precisas mquinas para o tirarem de l - respondeu Joo. - No h foras humanas capazes de arrastar dali aquelas rochas maiores.
Vamos, depressa.
Iniciaram o caminho de regresso to depressa quanto podiam, satisfeitos por terem marcado rochas e rvores, porque seno ver-se-iam em riscos de se perderem.
As raparigas receberam-nos cheias de satisfao e encheram-nos de perguntas. Mas os pequenos abanaram as cabeas com ar desiludido.
- A gruta do tesouro tem a entrada obstruda - explicou Joo. - S espero que os homens no desistam e no se lembrem de abandonar este vale para sempre. Ento 
que ns ficvamos sem quaisquer recursos.

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Captulo XVI - SALVANDO O PRISIONEIRO


Pouco depois de Joo e Filipe terem chegado  gruta, Maria da Luz, que estava a espreitar l fora, soltou um grito:
- Est ali um homem! Ao p da queda de gua! So dois, no, trs.
Joo puxou o fio que prendia as hastes do feto e a gruta ficou encoberta. Depois ps-se a espreitar com todo o cuidado.
- Era de calcular que voltassem por aqui para ver se nos caavam - proferiu ele. - Ora bolas! Realmente so trs. E o prisioneiro?
-  capaz de ter ficado cado no caminho, coitado - respondeu Filipe, espreitando tambm. - Tinha todo o aspecto de estar muito fraco.
Os pequenos ficaram a observar os trs homens, ansiosos por saberem o que tencionavam eles fazer. Mas depressa se esclareceu tudo. Lus e Jos iam voltar  cabana
e Firmino ficava a vigiar a queda de gua para ver quem entrava ou saa, e tentar descobrir que caminho tomavam. Os pequenos no ouviam o que eles diziam, mas estava
tudo bem claro.
Lus e Jos foram-se embora. Do prisioneiro  que ningum sabia. Firmino sentou-se numa rocha que dava para a queda de gua, precisamente ao nvel da salincia onde
as raparigas haviam estado no dia anterior.
- Ora esta! - exclamou Joo. - No podemos sair nem entrar sem sermos vistos. Bem sei que est de costas para ns, mas pode virar-se em qualquer altura.

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Maria da Luz comeou a ficar preocupada com o prisioneiro.
- Suponham que caiu no caminho e os homens o deixaram l ficar.  capaz de morrer, no ?
- Pois  - respondeu Joo, tambm preocupado.
- Mas ns no podemos deix-lo morrer, Joo - disse Maria da Luz, de olhos muito abertos. - No pode fazer-se isso. No descanso enquanto no souber o que foi feito
dele.
- E eu estou um pouco como tu - respondeu Joo, e os outros concordaram. - Tinha um ar to triste ali sentado, sem poder nada contra os outros. Est doente com certeza.
- Mas como havemos de descobrir o que lhe aconteceu, com aquele fulano ali de guarda? - perguntou Filipe melancolicamente.
Todos se calaram. Aqui estava um caso de difcil soluo. Foi ento que Maria da Luz teve uma ideia e exclamou:
- J sei. H uma maneira de termos a certeza de que o Firmino no d conta de ningum sair desta gruta.
- Qual ? - perguntou Joo.
- Se um ou dois de ns se puser atrs da queda de gua aos saltos para lhe chamar a ateno, ele fica de olhos fitos e no d conta de quem quer que saia da gruta
- explicou Maria da Luz.
- Parece-me boa ideia - disse Joo, e Filipe concordou.
- Boa ideia, no h dvida. O melhor  metermos mos  obra. Vai comear o espectculo, o espectculo em honra do nosso querido Firmino. O melhor ser vocs duas
irem fazer a representao. Atrs da queda de gua esto seguras porque no h quem l chegue, a no ser pelo caminho que vocs tomam, e o Firmino no conhece esse
caminho. Enquanto vocs o entretm, Filipe e eu samos para ver se descobrimos sinais do prisioneiro.
- Ento, esperem aqui at nos verem por trs da gua - disse Dina, comeando a subir. Ela e Maria da Luz desapareceram pelo buraco ao fundo da gruta. Os rapazes
esperaram pacientemente que elas aparecessem por trs da cascata.


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Passado um tempo, Filipe apertou o brao de Joo, dizendo:
- L esto elas! Querida Maria da Luz, querida Dina! Que belo espectculo! Que tm elas na mo? Olha! Tiraram as camisolas vermelhas e esto a agit-las muito e
a fazer uma espcie de dana.
Firmino viu-as logo. Admirado, ficou a olhar, e depois levantou-se. As raparigas no fizeram caso e continuaram a danar. Firmino comeou a experimentar todos os
caminhos possveis para chegar onde elas estavam.
- Chegou a altura - disse Joo. - Vamos. Vai ficar de olhos postos na Maria da Luz e na Dina durante muito tempo.
Saram rapidamente da gruta, deixando o feto de hastes pendentes a tapar bem a entrada. Treparam s rochas que ali havia e depressa ficaram encobertos. Quando as
raparigas viram que eles j estavam fora da gruta e longe da vista, saram da salincia da rocha e entraram na passagem que ia dar  gruta do eco. J tinham representado
o seu papel.
Os rapazes seguiram cautelosamente pelas rochas, prestando ateno a tudo, no fosse aparecerem os outros. Quando j estavam bastante afastados de Firmino, pararam
para combinar o que fazer.
- E agora? Vamos at quela gruta que tem a entrada obstruda e onde parece estar o tesouro para ver se encontramos o prisioneiro cado pelo caminho? Ou seguimos
no outro sentido, para a cabana dos homens, para ver se, por acaso, eles o levaram para l?
-  melhor irmos  cabana dos homens - optou Filipe, depois de pensar um bocado. - No me parece muito provvel que o tenham deixado pelo caminho. Podem vir ainda
a precisar que ele lhes d quaisquer informaes mais.
Dirigiram-se, ento, para a cabana. Agora j sabiam o caminho de cor e salteado. Viram o fumo da fogueira ainda muito ao longe e ficaram a saber que eles j l estavam.
Mas dos dois homens ou do prisioneiro no se via sinal. Com mil cuidados, os rapazes espreitaram atravs das rvores perto da cabana.

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A porta estava fechada, possivelmente  chave. Estariam os homens l dentro?
- Escuta, aquilo no  o barulho dos motores do avio? - perguntou Filipe de repente.
- , no h dvida. Iro eles levantar voo outra vez? Foram para um lugar de onde viam bem o avio com o
binculo de Joo. Os homens no se preparavam para levantar voo, estavam a fazer qualquer reparao. No dava ideia de o prisioneiro estar com eles.
- Vais ficar aqui com o meu binculo, Filipe, e vigias o avio e os homens - recomendou Joo, metendo o binculo na mo de Filipe. - Se acabarem o trabalho e comearem
a dirigir-se para a cabana, tu vens logo dizer-me. Vou espreitar pela janela para ver se l est o prisioneiro. Estou preocupado com ele.
- Vai descansado - respondeu Filipe, levando o binculo aos olhos. Joo partiu a correr. Depressa chegou  cabana. Experimentou abrir a porta, que estava realmente
fechada  chave. Foi at  janela e espreitou.
O prisioneiro estava l dentro. Sentado na cadeira com o rosto apoiado nas mos, era a prpria imagem da desolao. Enquanto espreitava, Joo ouviu-o gemer e ficou
de corao apertado com aquele gemido.
"Se ao menos o pudesse tirar c para fora!", pensou. "Rebentar a janela no adianta.  pequena de mais para eu entrar quanto mais para ele sair. Que hei-de fazer?
No consigo meter a porta dentro, que  forte como tudo!
Fez uma inspeco a toda a volta da casa, duas ou trs vezes, sem conseguir descobrir meio de entrar. Depois, ficou-se a olhar para a porta com dio. Antiptica!
To forte!
Foi ento que viu uma coisa inacreditvel. Ao lado da porta estava um prego e nesse prego uma chave pendurada! Era uma chave grande que devia ser da porta, seno,
para que estaria ali? Deviam t-la l posto para que qualquer dos homens pudesse entrar ou sair sem ter de esperar pelo detentor da chave.

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Com a mo trmula, Joo tirou a chave do prego, meteu-a na fechadura e procurou dar-lhe a volta. Estava perra, mas esforou-se e conseguiu o seu intento.
A porta abriu-se e Joo entrou. O prisioneiro, ouvindo abrir a porta, levantou os olhos e ficou surpreendido a olhar para Joo. O pequeno sorriu-lhe.
- Venho libert-lo - explicou. - Quer vir comigo?
O homem no dava mostras de compreender. Franziu um pouco mais o sobrolho, fixou ainda mais o olhar em Joo, dizendo depois:
- Fale devagar.
Joo repetiu o que j dissera. Depois bateu no peito e afirmou:
- Sou seu amigo. Amigo! Percebe?
Viu-se que o homem compreendera porque, lentamente, um sorriso veio iluminar-lhe o semblante. Tinha um rosto simptico, bom, triste, e que inspirava confiana, pensou
Joo, e estendeu-lhe a mo, dizendo:
- Venha comigo.
O homem abanou a cabea e apontou para os ps. Estavam firmemente amarrados com uma corda que ele no tivera fora para desatar. Num abrir e fechar de olhos, Joo
puxou dum canivete e cortou os fios da corda, que caiu em bocados. O homem levantou-se, mas to cambaleante que parecia tombar a cada momento. Joo ajudou-o a equilibrar-se
e pensou que o pobre nunca mais conseguiria chegar  gruta deles. Parecia ainda mais fraco do que anteriormente.
- Vamos - disse o pequeno, apressado. - No h tempo a perder.
Meteu os bocados de corda na algibeira, trouxe o homem at c fora e voltou a fechar a porta sem se esquecer de pendurar a chave no prego. Depois sorriu ao prisioneiro,
dizendo:
- O Jos e o Lus no vo deixar de ficar admirados ao verem que o senhor, pelo que parece, atravessou uma porta fechada  chave. Gostava de c estar para ver a
cara que eles faro quando abrirem a porta e descobrirem que desapareceu.
Depois pegou no brao do homem e conduziu-o at umas rvores que os protegiam de vistas estranhas. O prisioneiro tinha grande dificuldade em andar. De vez em quando,
soltava um gemido como se lhe fosse penoso caminhar. Joo cada vez se convencia mais de que ele nunca seria capaz de chegar  gruta.
No sabia que fazer. Lembrou-se de abrigar o homem no velho estbulo que eles tinham descoberto no dia da chegada. Deix-lo-ia na ltima diviso e, no dia seguinte,
quando ele estivesse mais recomposto, viria busc-lo. Era o melhor que tinha a fazer.
- Espere aqui um bocadinho - disse o pequeno, pensando que o melhor seria dar uma corrida at Filipe para o pr ao corrente de tudo e dizer-lhe que continuasse a
vigiar at ele instalar o homem no estbulo.
Filipe ficou muito admirado com o que Joo lhe contou e concordou em ficar de guarda at Joo voltar.
- Os outros devem andar a inspeccionar o avio todo - disse ele. - Parece que ainda vo ter que fazer durante um tempo.
Joo ajudou o prisioneiro cambaleante a ir at ao estbulo. Levaram muito tempo a l chegar por ele andar com tanta dificuldade.
Quando l chegaram, deixou-se cair no cho, ofegante. No restavam dvidas de que era um doente. Mas ali no havia mdico, s lhe restava a boa vontade de Joo,
que j parecia deix-lo muito grato.
- O senhor vai ficar aqui at amanh, que eu depois venho c para o levar para um stio melhor - disse Joo, falando muito devagar. - Deixo-lhe gua para beber e
qualquer coisa para comer.
E ia para abrir uma ou duas latas das que estavam ainda escondidas nos arbustos. Nada lhe custava ir busc-las e deix-las ao p do homem.
Mas este bateu no peito e repetiu duas ou trs vezes:
- Otto Engler.

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Joo acenou com a cabea e, apontando para si prprio, disse:
- Joo Trent. Eu, Joo, o Senhor, Otto.
- Amigo - disse o homem. - Ingls?
- Ingls - repetiu Joo solenemente. - E o senhor?
- Austraco - disse o homem, pronunciando a palavra duma maneira estranha. - Amigo. Bom amigo. Aqui, porqu?
Joo tentou explicar como ele e os outros tinham vindo ali parar, mas era uma histria complicada de mais para o homem que se ps a abanar com a cabea.

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- No perceber - disse. Ento inclinou-se para Joo e falou em voz baixa.
- Sabes do tisoro?
- Do tisoro? Ah! Do tesouro! - exclamou Joo. - Nem por isso. Sabe?
- Sei tudo - continuou o homem. - Tudo! Eu desenhar mapa de tisoro para ti. Bom rapaz. Eu confiar.

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Captulo XVII - UM MAPA DO TESOURO



A primeira sensao de Joo ao ouvir isto foi a de grande excitao. Mas depois lembrou-se. J sabia onde estava o tesouro, mas de que lhe servia isso? Ali ningum
podia ir busc-lo.
- J sei onde est o tesouro - disse Joo, tentando falar devagar e com simplicidade. - Vi o senhor mostrar aos homens esta manh, mas caram l tantas pedras que
eles no conseguiram entrar na gruta do tesouro.
O homem soltou uma gargalhada curta. Parecia que tinha compreendido porque disse:
- So uns palermas. Uns grandes palermas. Ali no h tisoro.
Joo ficou-se a olhar para ele e depois perguntou:
- Quer dizer que os enganou? Sabia que tinham cado ali aquelas rochas e levou-os at l para fazer de conta que a entrada para o tesouro estava obstruda? Ento
o tesouro no est atrs daqueles pedregulhos?
O homem franzia muito a testa, esforando-se por compreender tudo o que Joo dizia. Ps-se a abanar a cabea, dizendo:
- Jh no h tisoro. Eu enganar Jos e Firmino. Eles a magoar as mos, a puxar pelas pedras, que engraado!
Joo no pde deixar de rir. Que rica partida! Ento, onde estaria o "tisoro"?
- Eu desenhar mapa - continuou Otto. - Mostro a ti a sada do vale. Pela passagem Ventosa. Tu e os amigos ir) por ali e levar o mapa a um amigo meu. J  tempo de
encontrar o tisouro escondido.
- Porque no vem connosco? - perguntou Joo. - Mostrava-nos o caminho, a Passagem, e amos ter com o seu amigo.

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- Eu muito doente - respondeu Otto. - Se no arranjar mdico e, como se diz, remedes...
- Remdios - corrigiu Joo.
- Se no arranjar remedes, morrer - prosseguiu Otto. O corao, mal, muito mal, doer muito. No pode andar muito. Tu leva mapa do tisoro, ser bom rapaz, sai do vale
pela Passagem, procura Julius, o meu amigo. Est assim tudo bem.
- Fica combinado - respondeu Joo. - Tenho pena de si. Gostava bem de o poder ajudar. Hei-de fazer o possvel por encontrar o Julius depressa, para ele o socorrer.
Parece-lhe que amanh poder vir at ao nosso esconderijo? Podia ficar l enquanto ns fssemos.
- Como? - fez Otto. - No percebo. Falas depressa. Joo repetiu tudo mais devagar. Otto acenou com a cabea.
Desta vez percebera.
- Hoje deixas-me aqui e amanh talvez tenha foras para ir contigo para o vosso esconderijo - disse. - Havemos de ver. Seno, vo pela Passagem Ventosa.  estreita,
mas no custa...
- Passar por ela? - ajudou Joo. Otto fez que sim com a cabea. Depois pegou num lpis e num livrinho de notas e ps-se a desenhar. Joo seguia-lhe os movimentos
com interesse. Apareceu a queda de gua, depois um rochedo com uma forma especial, depois uma rvore toda curvada e uma nascente. Pequenas setas indicavam a direco
a seguir. Era realmente uma coisa cheia de interesse.
Otto dobrou o mapa e deu-o a Joo dizendo:
- Julius percebe logo o mapa. Antigamente vivia na casa grande que fica aqui perto, mas os nossos inimigos queimaram-na, essa e outras, e levaram-nos as vacas, os
cavalos, os porcos e tudo o que ns tnhamos. Mataram muita gente. Poucos escaparam.
- E qual  o caminho para a Passagem? - perguntou Joo.

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Otto voltou a desenhar um mapa. L apareceu outra vez a queda de gua. Joo ps o dedo sobre o desenho e disse muito devagar para Otto perceber:
- Conheo isto. O nosso esconderijo  perto. Muito perto.
- Belo! - exclamou Otto, contente. - Para se chegar  Passagem vai-se por cima da queda de gua. Tem de se trepar at ao buraco de onde ela sai, na montanha. Eis
aqui, o mapa j est pronto.
- Como hei-de encontrar o Julius? - perguntou Joo.
- Do outro lado da Passagem h uma aldeia meia queimada - explicou Otto. - Pergunta a qualquer pessoa que dizem logo onde est Julius. Todos sabem. Julius trabalhou
muito contra o inimigo. Todos conhecem Julius. Neste momento devia ser grande entre os dele, mas os tempos mudam e agora, que temos paz,  capaz de no ser importante.
Mas todos conhecem Julius, e ele sabe o que h-de fazer quando lhe deres o mapa do tisoro. Eu escrevo tambm carta.
Rapidamente Otto escreveu um bilhete que deu a Joo. Era dirigido a Julius Muller.
- Agora vai - disse Otto. - Vai para os teus amigos. Se amanh estiver melhor, irei contigo. Hoje o corao est mal, mal. D dor sempre aqui. - E ps a mo sobre
o corao.
- Adeus e obrigado - disse Joo, levantando-se. - Oxal esteja aqui seguro. Tem aqui latas de carne e fruta j abertas. At amanh.
O homem esboou um sorriso cansado, encostou-se  parede do estbulo e fechou os olhos. Estava exausto. Joo teve muita pena dele. Se Otto no estivesse melhor no
dia seguinte, tinha de ir buscar socorros o mais depressa possvel. Ele e os outros sairiam do vale e iriam logo procurar Julius, quem quer que ele fosse. Como era
amigo de Otto, com certeza arranjaria um mdico imediatamente.
E Joo saiu do estbulo, vendo tudo mais cor-de-rosa. Que diriam os outros quando soubessem que ele tinha o mapa com as indicaes da localizao da gruta do tesouro
e instrues sobre a maneira de sair daquele vale!

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Filipe vinha por ali acima a correr j sem flego.
- Os homens saram do avio agora mesmo e seguem na direco da cabana. Temos de nos afastar. O prisioneiro est j instalado no estbulo?
- Est. Oxal no se lembrem de ir procur-lo - respondeu Joo. - Vamos, toca a seguir para o p das raparigas. J samos de l h imenso tempo.
- Agora, no regresso, temos de ter cuidado com o Firmino - recomendou Filipe. - A estas horas j se deve ter cansado de olhar para a queda de gua e para os saltos
das raparigas e resolvido vir ter com os outros.
- Nem tu sonhas o que trago aqui! - exclamou Joo, incapaz de se conter por mais tempo.
- Que ? - perguntou Filipe.
- Um mapa com a localizao do tesouro! - retorquiu Joo.
- Mas isso j ns sabemos - disse Filipe. - Est por trs daqueles pedregulhos todos que vimos esta manh.
- Pois enganas-te!-exclamou Joo triunfante. - O prisioneiro, que se chama Otto, pregou uma partida aos outros. Convenceu-os de que o tesouro estava numa gruta atrs
das rochas. J sabia que elas tinham cado ali, mas fingiu no saber e disse que o tesouro tinha ficado tapado pela avalanche. Percebes?
- E o tesouro est noutro stio qualquer! - observou Filipe. - Que belo trabalhinho! E tu tens um mapa com pontos de referncia para o tesouro, Joo? E j sabes
que espcie de tesouro ?
- Esqueci-me de lhe perguntar - respondeu Joo. - Mas sei muito mais coisas. Tenho aqui indicaes para encontrar a passagem que serve de sada a este vale, um bilhete
para um homem chamado Julius, e j sei como estas casas e tudo se queimou e porqu. Otto diz que, se amanh tiver foras, nos leva at  passagem, mas foi-me dando
os mapas para o caso de no poder vir connosco. So fceis de interpretar.

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Isto sim,  que eram boas novas. Filipe ficou radiante. Parecia que desta vez conseguiriam sair do vale, pedir socorros e talvez at presenciar a descoberta do tesouro.
- Cuidado! Parece-me que vi ali um vulto a mexer - segredou Joo subitamente. Os dois rapazes aninharam-se atrs de um arbusto, e fizeram bem porque Firmino surgiu
dum bosquezinho e veio andando rapidamente na direco deles. Mas percebeu-se logo que os no tinha visto, porque continuou a andar sem sequer olhar para o arbusto
atrs do qual eles se haviam escondido.
- Deve estar com fome e vai ver se come alguma coisa - disse Joo, sorrindo. - Ainda bem que o vi. Se dssemos mais uns passos amos esbarrar nele. Agora estamos
livres, podemos ir depressa e sem receio de que nos vejam. Estou cheio de fome!
Estavam os dois. Havia muito tempo que no comiam. E diante deles comearam a surgir vises de salmo enlatado, sardinhas, lngua, alperches, pssegos e pras. Puseram-se
a andar to depressa quanto podiam.
Ficaram aliviados quando afastaram as hastes do feto e viram as raparigas sentadas no cho da gruta. Dina preparava tudo para o jantar.
- s um amor, Dina! - exclamou Joo. - At me apetece dar-te um abrao! - Dina riu-se e respondeu:
O Firmino foi-se embora. No o viram?
- amos esbarrando nele - comentou Filipe. - E eu tenho tanta fome que era capaz de comer o salmo inteirinho de uma lata. Que tal estiveram vocs? Bem?
- Aborrecemo-nos - respondeu Dina. - Nada havia que fazer a no ser uns saltos de vez em quando por trs da gua, para manter o Firmino interessado. Haviam de ver
o que ele se esforou por descobrir o caminho at c acima. Uma vez, a Maria da Luz e eu chegmos a pensar que a gua o tinha levado. Escorregou, caiu, e, durante
uns vinte minutos, no tornmos a pr-lhe a vista em cima. Ficmos muito aliviadas quando voltmos a v-lo.

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- E vocs? - perguntou Maria da Luz. - Parece que esto contentes. Trazem boas novas? E o prisioneiro?
Com a boca cheia, os rapazes contaram o que tinham feito naquele dia. As raparigas ouviram tudo interessadissimas. Quando Joo puxou dos mapas que trazia na algibeira
caram em cima dele radiantes.
- Um mapa do tesouro! - exclamou Maria da Luz. - E eu que sempre ambicionei ver um. Olha a nossa queda de gua! No digam que o tesouro fica aqui perto!
- Quando vamos procur-lo? - perguntou Dina, com os olhos brilhantes de excitao.
- Isso no  connosco - respondeu Joo e ela ficou com uma cara desconsoladssima. Mas ele explicou:
- Temos de sair deste vale e procurar esse tal Julius. Deve ser ele a presidir s buscas do tesouro. Tenho pena de vos desiludir, meninas, mas realmente parece-me
que o melhor  sairmos deste vale o mais depressa possvel e mandar dizer  tia Lia e ao Jaime onde estamos. Perdamos muito tempo  procura do tesouro e parece-me
que uma vez que nos disseram onde  a sada do vale devemos ir por l e ver se arranjamos quem nos ajude e venha socorrer o pobre Otto. Est muito doente.
Era evidente que Joo tinha razo. Dina no pde deixar de suspirar.
- Gostava tanto de ir procurar esse tesouro. Mas, pacincia, talvez esse Julius, quem quer que ele seja, nos deixe tomar parte na expedio. Podamos c ficar para
assistirmos.
J era quase noite. Os rapazes estavam estafados. Cheios de sono, deitaram-se na "cama" que a Dina fizera. Mas as raparigas e a Didi estavam com vontade de conversar.
Falaram, falaram, as duas e a Didi, mas os rapazes quase no tinham fora para lhes responder.
- A Didi hoje andou a entrar e a sair da gruta do eco, a gritar com quanta fora tinha - contou Maria da Luz. - J no tem medo do eco. Haviam de ouvir a barulheira
quando ela imitou o apito do rpido!

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- Ainda bem que no ouvi - disse Joo, a gaguejar de sono. - Mas agora calem-se, meninas. Toca a dormir, que amanh vamos ter um dia em cheio. Temos de ir buscar
o Otto, procurar a Passagem Ventosa e depois o Julius.
- Parece que esta aventura est a acabar - disse Maria da Luz.
Mas a  que ela se enganava. Ainda estavam muito longe do fim.

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Captulo XVIII - A CAMINHO DA PASSAGEM VENTOSA



Na manh seguinte, os pequenos espreitaram com todo o cuidado pelas hastes do feto no fosse dar-se o caso de Firmino estar outra vez de guarda. Mas dele nem sinais
havia.
- Gostava de saber o que tero pensado Jos e Lus quando, de volta  cabana, abriram a porta e viram que o prisioneiro tinha desaparecido - comentou Joo, rindo.
- Ho-de admirar-se por ele ter atravessado uma porta fechada  chave.
- Pois sim, devem ter percebido logo que foi um de ns que o libertou - respondeu Dina. - Vo ficar furiosos. Oxal no o descubram no estbulo. Era capaz de lhes
contar coisas a nosso respeito.
- Isso no - disse logo Joo. - Tem um ar simptico, que inspira confiana, como o Jaime, a nica diferena  que no  assim forte.
- Quem me dera que o Jaime aparecesse aqui de repente
- suspirou Maria da Luz. - Era to bom! Bem sei que vocs dois tm tratado de tudo como poucos mas, no sei porqu, quando o Jaime chega sinto-me muito mais confiante.
- Pois olha que est aqui em segurana - respondeu Joo.
- E digam l quem descobriu um rico esconderijo quem foi?
- Foste tu - respondeu Maria da Luz. -  Filipe olha a Didi atrs da Tixa.
A Tixa apareceu a descer pela perna do Filipe, e a Didi, que por acaso estava ali perto, soltara um grito de satisfao, disposta a dar-lhe bicadas. Mas a lagartixa,
rpida como o pensamento, correu a refugiar-se no sapato de Filipe.
"Acaba l com isso, Didi!", gritou-lhe Filipe. - Bem, o melhor ser comermos alguma coisa.

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"Coisas e loisas", atalhou logo a Didi, pondo os pequenos a rir.
- Esta Didi lembra-se de cada uma - exclamou Maria da Luz. - Mas que ideia! Isto  que ela  esperta!
A Didi soltou um grito e ergueu a poupa, balanando-se de um lado para o outro como costumava fazer quando se sentia muito satisfeita consigo prpria.
"Vaidosa! Emproada!", disse-lhe Joo, coando-lhe a cabea. "V mas  se deixas a Tixa em paz.  o bicharoco mais inofensivo de todos os que o Filipe tem arranjado".
- Realmente sempre  melhor do que aqueles horrveis ratos e ratazanas, aranhas, carochas e ourios com que ele s vezes acamarada - retorquiu Dina, arrepiada. -
At gosto da Tixa, em comparao com os outros.
- Ena! - exclamou Maria da Luz admirada. - Ests a fazer progressos, Dina.
A Tixa e a Didi partilharam do pequeno almoo dos pequenos, embora a Didi nunca perdesse de vista a Tixa, no fosse ela resolver-se a comer qualquer coisa que lhe
agradasse a ela. Quando acabaram, puseram-se a combinar o que iriam fazer naquele dia.
- Primeiro vamos buscar o Otto - declarou Joo. - Quer dizer, vou eu e o Filipe. Vocs duas no precisam de ir. O melhor ser juntarem umas latas para levarmos connosco
quando formos pelas montanhas  procura da passagem. Pelo caminho devemos ter fome.
- Est bem - respondeu a Dina. - Oxal o Otto esteja melhor. Quando aqui chegarem com ele comemos qualquer coisa antes de partirmos. Depois atravessamos a passagem,
vamos indagar de Julius e procuraremos mandar notcias  me e ao Jaime. Talvez ele se meta no avio...
- ... venha ajudar a descobrir o tesouro e nos deixe ir tambm - interrompeu Maria da Luz. - Isto  que era bom!
Realmente era um rico plano. Os rapazes partiram, deixando a Didi com as raparigas. Atravessaram rapidamente a encosta da montanha,

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sempre de olho alerta, no fosse o Firmino e os companheiros aparecerem por ali.
Mas ningum viram. Cautelosamente, dirigiram-se para o estbulo. Joo deixou Filipe de guarda ali perto para ele o avisar no caso de vir algum. Depois foi com todo
o cuidado at ao estbulo e espreitou para dentro. Nada se ouvia.
De onde estava no via a ltima diviso. Entrou sem fazer rudo, passando por cima do entulho cado e disse baixinho:
- Otto! C estou! Est melhor? - No se ouviu resposta. Joo ficou sem saber se o homem estaria a dormir e resolveu ir at  ltima diviso.
Ningum. Otto no estava l. Rapidamente, Joo examinou tudo em redor. Que teria acontecido?
Reparou que as latas de carne e fruta, que deixara abertas para Otto, estavam intactas. Otto nada comera do que lhe deixara. Porqu?
"Que maada! Aqueles homens devem ter passado uma busca a tudo, quando deram por falta dele", pensou Joo. "Vieram descobri-lo aqui. S gostava de saber o que tero
feito dele. O melhor ser acautelarmo-nos, no vo eles prepararem-nos alguma emboscada. Mesmo que o Otto nada tenha dito, devem ter compreendido que algum o libertou.
Foi ter com Filipe e disse-lhe:
- O Otto desapareceu. Ser prudente irmos dar uma espreitadela  cabana?  possvel que descubramos alguma coisa, o que eles fizeram ao Otto, por exemplo.
- O melhor  treparmos quela rvore - respondeu Filipe. - Aquela de onde se v o avio. Se vssemos todos ocupados com o avio ficvamos a saber que podamos l
ir, agora arriscarmo-nos a encontrar os homens ao p da cabana no  coisa que me seduza. Podem estar precisamente  espera que nos aproximemos. Se nos apanhassem,
as raparigas ficavam sem saber o que fazer.
- Tens razo. Vou trepar  rvore - concordou Joo,

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comeando a subir, logo seguido de Filipe. Levou o binculo aos olhos, dirigindo-o para o avio e, surpreendido, exclamou:
- J viste esta? O avio foi-se embora outra vez! No est l!
- Pois no - confirmou Filipe surpreendido. - Desta vez  que eu no senti levantar voo, e tu?
- Eu tenho uma ideia de ter ouvido rudo de motores a noite passada, quando estava meio a dormir - respondeu Joo.
-  isso, devia ser o avio o que eu ouvi. Se calhar fomos ns que os assustmos. Ficaram cheios de medo quando descobriram que havia c mais gente, escondida num
local que eles no conseguiam desencantar, e gente que lhes arrancara o prisioneiro.
- E, ainda por cima, depois de descobrirem que no podiam chegar ao tesouro porque a derrocada das pedras tinha obstrudo a entrada, devem ter chegado  concluso
de que no valia a pena demorarem-se por c mais - acrescentou Filipe.
- E foram-se. Ainda bem! Agora podemos ir ter com as raparigas e seguir a caminho da passagem sem mais cautelas. Para falar-te com franqueza, estava a preocupar-me
o facto de levarmos o Otto. Pelo que tu contaste no dava ideia que pudssemos ir muito depressa com ele. E se ele tivesse um ataque de corao pelo caminho ficvamos
sem saber o que fazer.
- S gostava de saber para onde o levaram - prosseguiu Joo. - Esperemos que, ao verificarem que ele para nada lhes serve, o reconduzam ao local de onde o arrancaram
e lhe proporcionem a oportunidade de ele ser visto por um mdico.
Desceram da rvore e iniciaram a viagem de regresso to depressa quanto possvel, para empreenderem depois o caminho da passagem.
As pequenas ficaram muito admiradas por verem os dois de volta to cedo, e ainda as surpreendeu mais o facto de virem sozinhos.
- E o Otto? - perguntou Dina.

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"Foi-se por gua abaixo", atalhou a Didi, mas ningum lhe prestou ateno e o bicho soltou uns guinchos. Joo explicou:
- O avio foi-se embora, o Otto tambm, por isso penso que devem ter ido todos, aborrecidos por no poderem chegar ao tesouro. Bom vento os leve!
- Viva! Viva! - exclamou Dina muito aliviada por saber que o inimigo j andava longe. - E agora, que se faz?
- Vamos procurar a passagem - respondeu Joo. - Tenho aqui o mapa que o Otto desenhou. Sem isso  que nunca mais dvamos com a sada. Parece que s h uma, que 
essa tal Passagem Ventosa. Vamo-nos ento embora. J temos algumas latas para levar, Dina?
- J - respondeu ela. - Para onde vamos? Para cima ou para baixo?
- Para cima - disse Filipe, embrenhado na consulta do mapa que Joo tirara da algibeira. - Subimos at onde comea a cascata, esto a ver? Depois seguimos por um
caminho formado por salincias de rochas, foi o que Otto desenhou. Depois chegamos a um bosque espesso, vem? E voltamos a subir u trecho ngreme at outras salincias.
Chegaremos ento a uma estrada, a estrada que serve de comunicao e que as pessoas do vale utilizavam quando queriam visitar o outro lado. Quando chegarmos  estrada
j me sentirei mais confiante.
- Tambm eu - concordou Dina com entusiasmo. - E, sabe bem ver uma estrada. At pode acontecer vermos algo que v por ela fora.
- Nisso  que eu no acredito muito, uma vez que no vimos ainda algum no vale, a no ser os homens e ns quatro - respondeu Joo. - Para falar com franqueza, at
acho um bocado estranho que, havendo uma passagem em perfeito estado, que serve de entrada e sada a este belssimo vale, continue deserto. No percebo por que ser.
- Deve haver qualquer razo - interveio Dina. - Mas agora vamos embora. A primeira parte no vai custar, porque s temos de nos manter perto da cascata.

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Mas no era to fcil como ela pensava, porque o penhasco era muito ngreme e eles tiveram de armar em autnticos alpinistas. Mas conseguiram vencer porque j tinham
as pernas bem treinadas a andar e trepar.
Todo o caminho o rudo ensurdecedor da cascata os acompanhou. Era tremendo, e Maria da Luz s pensava em como seria bom quando chegassem ao cimo e no precisassem
de suportar to formidvel estrondo.
Algum tempo depois chegaram at ao comeo da cascata. A gua jorrava dum grande buraco na encosta da montanha e caa a pique, batendo pelo caminho em rochas enormes.
Era, sem dvida, um espectculo magnfico.
- Cus, produz-me uma sensao impressionante ver aquela grande massa de gua a sair da montanha - comentou Maria da Luz, sentando-se. - Tem um no-sei-qu de inesperado.
- Quando as neves derretem e a chuva cai, deve acumular-se no cimo da montanha uma enorme quantidade de gua que se infiltra - explicou Joo. - Essa gua junta-se
toda e tem de procurar sadas. Este buraco deve ser uma delas. E transformou-se, assim, nesta enorme queda de gua.
- Por onde vamos agora? - perguntou Dina, que estava cheia de impacincia por sair do vale.
- Vamos subir para aquelas salincias de rocha - respondeu Joo. - Parece-me que  um caminho estreito, e bem estreito, e passa mesmo por cima da cascata! No olhes
para baixo, Maria da Luz, que s capaz de ter alguma tontura.
- No me apetece nada ir por ali - disse a pobre Maria da Luz.
- Eu ajudo-te - respondeu Joo. - Desde que no olhes l para baixo nada te acontece.
Atravessaram sos e salvos aquele caminhito de rocha, com a Maria da Luz sempre bem agarrada  mo de Joo. A Didi voava-lhes por cima das cabeas com gritos de
exortao.
"A voar, a voar!", gritava ela, lembrando-se da cantiga das pombinhas.

- 147 -

Maria da Luz deu uma risadinha, dizendo:
- No pode dizer-se que a gente v a voar. Felizmente que j chegmos ao fim desta rocha. Agora atravessamos aquele bosque, no ?

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Entraram no bosque. Era um pinhal escuro e silencioso. Debaixo dos pinheiros, muito altos, nada vivia. O vento soprava-lhes a rama, produzindo um murmrio que no
passou despercebido  Didi.
"Ch!", fez a catatua. "Chhhhhhhhhh!"
- Chegmos ao fim do pinhal! - exclamou Joo. - Agora temos de trepar mais um bocado at outro caminho de rocha para irmos dar  estrada. Vamos, companheiros, toca
a andar!
Joo consultou o mapa.
-  isso mesmo. E temos de seguir sempre na mesma direco. Onde est a minha bssola? Com ela podemos seguir em linha recta na direco que o Otto indica aqui no
mapa.

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Captulo XIX - UMA GRANDE DESILUSO E NOVOS PLANOS


A subida era muito difcil porque a encosta at ao caminho de rocha, que eles viam acima deles, era ngreme e lisa. Maria da Luz quase chorava de tanto escorregar.
- Avano um passo e escorrego dois - lamentava-se ela.
- Agarra-te a mim - disse Filipe, e passou a dar-lhe um puxo de cada vez que ela dava um passo.
Quando chegaram ao segundo caminho de rocha estavam todos precisados de descanso e ficaram encantados ao verem ali uma pequena extenso coberta de framboesas bravas.
Podiam sentar-se entre os canios e banquetear-se. Que beleza! A Didi gostava imenso de framboesas e comeu tantas que Joo lhe disse:
" Didi! Tu rebentas!"

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"O balo rebentou", foi a resposta do bicho, que largou a comer mais uma dzia de framboesas.
Depressa se recompuseram e puderam recomear a escalada. Estavam j a uma grande altitude e at j viam mais montanhas acastelando-se atrs das que eles conheciam.
O panorama era soberbo.
- Sinto-me muito pequena e perdida no meio destas enormes montanhas - comentou Maria da Luz, e os outros concordaram. - Vamos agora contornar mais esta salincia
de rocha. Daqui a pouco deve ver-se a estrada. Ainda bem que este caminho no  estreito. Quase dava para se ir de carro.
Mas o trajecto pela rocha no era to fcil como Maria da Luz pensava porque, mais adiante, houvera uma derrocada, o que tornou difcil a passagem. Os rapazes seguiram
 frente para procurarem o caminho mais seguro para as raparigas. Depois de passadas as pedras, todos respiraram fundo por voltarem a pisar terreno liso.
A rocha contornava uma parte da encosta e foi ento que, de repente, os pequenos viram a estrada mesmo por baixo deles. Uma estrada a valer! Extasiados, ficaram
a olhar.
- Nunca pensei que me sentisse to contente por voltar a ver uma estrada - afirmou Dina. - A estrada que serve de sada a este vale! At que enfim surge um caminho
para algures!
- Vejam - exclamou Maria da Luz. - Vem a serpentear tanto! At nem se v onde vai dar porque a perdemos naquela curva.
- Mas a Passagem Ventosa v-se daqui - disse Joo, apontando. - Esto a ver onde esta montanha e a outra quase se tocam?  ali que deve ser a passagem, bem alta
e muito estreita. Vamos ter de seguir em fila indiana.
- Qual qu! - disse Filipe em ar de escrnio. - Deve ser larga que chegue para passar por l uma carroa. Parece estreita por ns estarmos to longe.
- Ento no querem descer  estrada? - perguntou Dina, iniciando a descida.

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Estavam a cerca de sete metros acima dela.
- Est coberta de ervas! - exclamou Joo admirado. - Quer dizer que ningum se tem utilizado dela.  estranho, no ? Dava a ideia que as pessoas haviam de querer
manter em bom estado a nica estrada que comunica com este vale.
- Realmente d que pensar - respondeu Filipe. - Mas vamos, mesmo coberta de ervas v-se ainda bem que  uma estrada.
Seguiram durante um tempo por ali fora. A estrada serpenteava pela montanha fora, formando grandes curvas pela encosta acima. Por fim, j se via nitidamente onde
devia ser a Passagem Ventosa, uma passagem estreita entre duas montanhas, a deles e a que lhe ficava prxima.
Estava frio naquela altitude e o vento soprava com fora. Se os pequenos no estivessem quentes da escalada teriam batido os dentes de frio. Assim, continuavam quentinhos
como borralhos.
- Ia apostar que, quando passarmos aquela curva, j se v a passagem! - vaticinou Joo. - E l vamos ns para fora deste vale misterioso!
Passaram a curva e realmente l estava a passagem ou o que devia ter sido a passagem, porque agora j no era caminho para parte alguma.
Acontecera qualquer coisa e a passagem ficara obstruda at muito acima por grandes rochas e pedregulhos negros tornando-a intransitvel.
Os pequenos, de princpio, nem perceberam bem. Limitaram-se a olhar admirados.
- Que foi isto? - perguntou Joo, finalmente. - Parece que houve c um terramoto ou coisa parecida. J viram isto?
- Nas rochas que servem de parede  passagem h buracos enormes - disse Filipe. - Olhem, at l em cima h buracos que parecem crateras.

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Ficaram a olhar em silncio, at que Joo se virou para os outros e disse:
- Sabem o que deve ter acontecido? Quando estiveram aqui inimigos em luta, bombardearam a passagem e obstruram-na. Toda esta destruio deve ter sido causada por
bombas.
- Deves ter razo, Joo - concordou Filipe. -  a ideia que d. Os avies devem ter sobrevoado o vale e largado dzias de bombas sobre aquela estrada estreita. Agora
est completamente intransitvel.
- Queres dizer que no podemos sair? - perguntou Maria da Luz, com voz trmula. Filipe acenou com a cabea, dizendo:
-  verdade. Ningum consegue ultrapassar esta muralha to perigosa e a pique, formada pelas rochas amontoadas pelo bombardeamento. Est explicada a razo por que
ainda no veio gente ocupar este vale. A maior parte dos que c viviam devem ter sido mortos, e os que escaparam fugiram pela passagem. Esta foi bombardeada, e ningum
pde voltar. Aqueles homens do avio, o Jos e os outros, devem ter ouvido falar num tesouro escondido no vale e projectaram c vir de avio, alis a nica maneira
de se entrar aqui.
Maria da Luz sentou-se no cho e ps-se a chorar:
- Que grande desiluso! E eu que estava to convencida de que amos finalmente poder sair deste horrvel vale. Mas continuamos presos aqui e no h ningum que possa
vir libertar-nos.
Os outros sentaram-se ao p dela, tambm muito tristes, olhando desolados para a passagem obstruda. Que balde de gua fria! E eles to esperanados em sair dali
e ir ter com Julius para lhe contarem do tesouro.
- Vamos comer qualquer coisa - props Dina. - Depois j nos sentiremos melhor. No admira que estejamos to patetas.
"Patetas e idiotas", palrou logo a Didi. Os pequenos puseram-se a rir.

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"Idiota s tu!", disse-lhe Filipe. "A ti no te aflige uma passagem obstruda, pois no, Didi? Atravessa-la de um voo. Pena  que no possamos atar-te um bilhete
a uma perna e mandar-te ir ter com o Julius para lhe pedir ajuda".
- E se fizssemos isso?--disse logo Maria da Luz.
- Que ideia! Primeiro, a Didi era capaz de arrancar o bilhete da perna - respondeu Joo -, depois, nunca mais sabia onde ir ou quem procurar.  um bicho esperto,
mas no to esperto
como isso.
Depois de comerem, sentiram-se realmente muito melhor. Comeram sempre de costas para a passagem obstruda. Nenhum deles queria sequer olhar para l.
- Agora vamos ter de voltar para a nossa gruta, no ? - disse por fim Dina. - Parece que realmente nada mais nos resta fazer.
- Tambm me parece - respondeu Joo com ar melanclico. - Foi uma rica partida, no h dvida.
Descansaram um bom bocado. O Sol estava muito quente, mas, como o vento era forte, nunca chegaram a aquecer de mais. Maria da Luz at se ps atrs de uma rocha que
a abrigava do vento, porque chegou a sentir frio.
Depois de descansarem, iniciaram a viagem de regresso. No iam to alegres e conversadores como quando tinham partido, de manh. A ideia de terem de ficar naquele
vale solitrio, depois de alimentadas tantas esperanas de l sair, atormentava-os a todos.
Maria da Luz tinha um ar to desconsolado que Joo tentou lembrar-se de qualquer coisa que a animasse. E pensou numa coisa verdadeiramente surpreendente.
- Alegra-te, Maria da Luz - disse ele. - Talvez agora possamos descobrir o tesouro para nos compensar desta desiluso.
Maria da Luz parou e ps-se a olhar para ele, entusiasmada.
- Srio? - disse ela. -  Joo, vamos procurar o tesouro.

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Todos pararam e ficaram muito excitados a pensar no assunto por momentos, at que Filipe disse:
- E porque no? No podemos mandar recado ao Julius porque a passagem est intransitvel. Os homens foram-se, e com eles Otto. S ficmos ns. Bem podemos ir em
busca do tesouro.  uma coisa divertida na qual podemos passar o tempo.
- Que formidvel! - exclamou Dina. - E eu que sempre desejei ir em busca dum tesouro. Quando comeamos? Amanh?
- E se ns realmente o encontrssemos? - disse Filipe entusiasmado. - Parece-lhes que nos caberia alguma parte?
- Ainda bem que o Otto te deu um mapa, Pintinhas!
- dirigiu-se Dina a Joo. Chamava-lhe sempre Pintinhas quando estava excepcionalmente bem disposta. - Ora, mostra-o c.
Joo tirou-o da algibeira. Desdobrou a folha de papel e estendeu-a. Otto tinha assinalado tudo com pontos cardeais tal como fizera com o mapa que indicava o caminho
para a Passagem Ventosa.
- Reparem no que ele desenhou - disse Joo. - Vem esta rocha de forma extravagante? Parece um homem de capote com uma cabea muito redonda. Se vssemos uma rocha
assim, sabamos logo que estvamos no caminho do tesouro.
- E isto que ? Uma rvore torta? - perguntou Dina.
- Mas como havemos de saber onde procurar estas coisas? No podemos pr-nos a andar por toda a encosta da montanha  procura de rochas de formas estranhas, rvores
tortas e coisas que tais.
- Claro que no - respondeu Joo. - Temos de comear como deve ser: pelo princpio. E o princpio  a nossa queda de gua. O Otto desenhou um caminho que vai do
estbulo at  queda de gua, vem? Mas no temos de preocupar-nos com ele. Comeamos logo na cascata. Depois, l no cimo, temos de procurar a rvore e ir at l.
Da rvore torta procuramos isto, que vem a ser, se no me engano, uma extenso de rocha negra e lisa. Quando l chegarmos procuramos uma nascente e, da,

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esta tal rocha extravagante. O tesouro fica algures por ali.
- ptimo - exclamou Maria da Luz, com os olhos quase sados das rbitas. - Vamos depressa para a queda de gua para podermos comear j. Venham!
Joo dobrou o mapa e encarou os rostos excitados dos companheiros. No pde deixar de sorrir, dizendo:
- No pode dizer-se que o tesouro nos vai servir de grande coisa, aqui engaiolados como estamos. Mas sempre  qualquer coisa de emocionante para passar o tempo.
Puseram-se novamente a caminho, com as cabeas cheias de vises de tesouros. E se fossem eles a descobrir o que aqueles homens queriam encontrar e no conseguiram?
Que diria o Jaime? Havia de ter imensa pena de no poder estar com eles. Passava a vida a dizer que eles se metiam de aventura em aventura.
Quando chegaram  cascata, o Sol desaparecia e da montanha pendiam enormes nuvens negras. Pesadas gotas de chuva comearam a cair. Os pequenos olharam desapontados
aquele cu to carregado.
- E esta? - disse Filipe. - Vem a uma enorme carga de gua. Assim no se pode ir  procura do tesouro. O melhor  metermo-nos na gruta antes que fiquemos ensopados.
Que grande chuvada!
Entraram mesmo a tempo na gruta acolhedora. A chuva comeou logo a cair em grandes btegas, vindo juntar mais aquele rudo ao da cascata.
- Agora pode chover a cntaros - exclamou Joo. - Mas amanh precisamos de sol, porque vamos procurar o tesouro!

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Captulo XX - A CAMINHO DO TESOURO


Naquela noite dormiram que foi uma beleza, porque todos eles estavam estafados. Toda a noite a chuva caiu, mas ao aproximar-se a madrugada o cu foi limpando, e
quando o Sol nasceu j estava todo azul claro. Quando Maria da Luz afastou as hastes do feto e espreitou l para fora ficou encantada.
- Est tudo to lavadinho, at o cu - exclamou ela. - Ora venham ver! Que lindo!
- Um ptimo dia para se procurar um tesouro - afirmou Joo. Oxal este sol seque depressa a erva, seno molhamos os ps todos.
- Ainda bem que trouxemos tantas latas da cabana dos homens - disse Dina, indo buscar umas duas ou trs. - E ainda h mais nos arbustos onde as escondemos, no h,
Joo?

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- H muitas - respondeu ele. - Anteontem tirei umas duas que abri para o Otto mas ainda ficaram muitas. Em qualquer altura podemos l ir buscar mais.
Puxaram as hastes do feto para trs e tomaram o pequeno almoo na entrada da gruta, olhando as montanhas que ao longe se recortavam naquele cu dum azul cada vez
mais profundo.
- Vamos, ento? - disse Joo, quando acabaram de comer. " Didi, tira a cabea dessa lata. Bem sabes que j est vazia".
"Pobre Didi!", lamentou-se o animal. "Que pena!" Por fim saram todos da gruta. Com aquele Sol quente de Vero tudo ia secando rapidamente. At Maria da Luz apontou
admirada para umas rochas, exclamando:
- J viram o vapor que se desprende daquelas rochas? Realmente era estranho v-las assim a fumegar.
-  melhor levarmos de comer - disse Joo. - Lembras-te disso, Dina?
- Podia l esquecer! - respondeu esta. - No havamos de c voltar para almoar, com certeza.
- Temos de ir at ao stio de onde sai a gua da cascata, como ontem - disse Joo. - Sigam-me que eu j sei o caminho.
Depressa chegaram ao cimo da queda de gua e mais uma vez pararam a admirar a grande torrente que saa do corao da montanha. Parecia duas vezes maior e mais barulhenta
do que na vspera.
- Deve ter engrossado com a chuva desta noite - observou Filipe. -  por isso que est maior e mais forte.
- , com certeza - concordou Joo, erguendo a voz e gritando para se ouvir acima do barulho da gua. "Pra de gritar ao meu ouvido, Didi!"
O rudo da cascata excitava a Didi, que se ps a fazer muito barulho naquela manh. Pouco depois, j Joo no a podia aturar, empoleirada no ombro, por causa dos
gritos que ela soltava. Enxotou-a e a catatua levantou voo.

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- E, agora, onde est a rvore torta? - perguntou Dina, lembrando-se. Estavam um pouco acima do comeo da queda de gua. - No vejo nenhuma rvore torta!
- No digam que no h aqui nenhuma rvore assim! - respondeu Joo, olhando para um lado e para o outro, para cima e para baixo. - Realmente parece que no se v
nenhuma, pois no?
E no. As poucas rvores que eles viam eram completamente direitas. Mas, de sbito, Maria da Luz soltou um grito e ps-se a apontar para baixo dizendo:
- Est ali, ou no ser? Ali em baixo, do outro lado da queda de gua. Olhem!
Puseram-se todos ao lado de Maria da Luz e olharam na direco indicada. Era verdade. Do outro lado da queda de gua, um pouco mais abaixo, estava uma rvore estranhamente
curvada. Era um vidoeiro e no se percebia porque estaria to torto. O vento por ali no era mais forte do que nos outros lados. Fosse como fosse era uma rvore
torta e isso  que lhes interessava.
Atravessaram por cima da queda de gua, saltando de rocha em rocha, e depois, desceram com cuidado do outro lado, at chegarem ao vidoeiro.
- O primeiro ponto de referncia - disse Joo.
- O segundo - corrigiu Dina. - O primeiro  a queda de gua.
- Seja o segundo - concordou Joo. - Vamos ao terceiro: uma extenso de rocha negra e lisa, uma espcie de muro, parece-me.
Olharam para todos os lados  procura da rocha negra. Desta vez foram os olhos de lince do Joo que a descobriram. Estava um bocado afastada e parecia difcil de
alcanar porque para tal era preciso andar ao longo da encosta ngreme da montanha que, exactamente naquele stio, estava cheia de penhascos.
Mas tinha de ser e eles l foram. Afinal, dados os primeiros passos, foi mais fcil do que parecia,

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porque havia uma grande variedade de plantas e arbustos bem fixos ao rochedo e os pequenos serviam-se deles para se agarrarem e porem os ps. Joo deu uma ajuda
 Maria da Luz, mas Dina no aceitou o auxlio do irmo. Sobretudo porque sabia que ele trazia algures consigo a lagartixa.
Levaram mais de meia hora em equilbrios sobre penhascos para alcanarem o muro de rocha negra embora ele no ficasse, na realidade, a grande distncia. Chegaram
l ofegantes.
- Que rocha to estranha, to negra e brilhante - disse Joo, passando os dedos sobre aquela superfcie to lisa. - Que rocha ser?
- Para o caso tanto faz - respondeu logo Dina, cheia de impacincia por continuar o caminho. - Qual  o prximo ponto de referncia? Este  o terceiro.
--Uma nascente - respondeu Filipe. -  ou no , Joo? V l no mapa.
- No  preciso, que eu j sei de cor - respondeu Joo.
- Agora vem uma nascente. No  que eu veja por aqui alguma, mas bem me apetecia beber aguinha fresca depois desta tirada difcil. Tenho as mos e os joelhos todos
sujos.
- Estamos todos a precisar dum banho - disse Filipe. Mas nenhuma nascente se via e Maria da Luz comeou a ficar desanimada.
- Coragem! - disse Joo. - Pode acontecer no vermos a nascente daqui deste muro de rocha, mas se estiver perto encontramo-la com certeza.
- Calem-se todos para podermos escutar - disse Dina. Ficaram mudos e quedos,  escuta.
- "Chhhhhhhh!", fez Didi, s para aborrecer.
Joo deu-lhe uma tapa no bico. A Didi soltou um grito de indignao e calou-se.
E, ento, no silncio da montanha, os pequenos ouviram o murmrio da gua, um murmrio alegre e convidativo.
- J estou a ouvir! -exclamou Maria da Luz encantada.
- Vem de algures para aquele lado.

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Atravessou rapidamente um bosquezito e l, muito escondida na erva semeada de flores, gorgolejava uma nascente lmpida que corria pelo monte abaixo, uma correntezinha
de gua fresca e cristalina.
- Comea ali - disse Joo, apontando para um grande arbusto debaixo do qual brotava a nascente.
- Quarto ponto de referncia!
- Agora toca a procurar o quinto e ltimo! - exclamou Maria da Luz muito excitada. - Vocs acham que estamos realmente perto do tesouro? No pode dizer-se que estejamos
muito, muito longe da nossa gruta. Quando estivemos calados  escuta do rudo da nascente at me pareceu ouvir a queda de gua, l ao longe.
- Tambm a mim - disse Dina. - E, agora, que falta procurar.
- A tal rocha de forma extravagante - respondeu Joo.
- Aquela que parece um homem com uma grande capa e uma cabea muito redonda.
-  fcil - disse Filipe com ar triunfante, apontando para cima. - Olha ali, toda recortada no cu azul.
Olharam todos para cima. Filipe tinha razo. L estava a rocha com aquele formato extravagante, to fcil de ver com o cu a servir de fundo.
- Vamos! - exclamou Joo muito excitado. - Toca a subir, exploradores de tesouros!
Treparam at  rocha. Havia outras em redor, mas esta era muito mais alta e distinguia-se das outras pela altura e pela forma.
- O nosso ltimo ponto de referncia! - exclamou Joo.
- E agora, onde estar o tesouro?
Era verdade, onde estaria o tesouro? Maria da Luz ps-se a olhar em volta para toda a encosta, como se esperasse encontr-lo ali espalhado. Os outros puseram-se
 procura de uma entrada de gruta. Mas nenhum deles encontrou coisa alguma.

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- Porque no perguntaste ao Otto onde ficava exactamente o tesouro, depois de alcanado o ltimo ponto de referncia? - perguntou Dina a Joo, cansada e desapontada.
- Eu sabia l que seramos ns que o havamos de procurar? - respondeu Joo. - Sempre pensei que o Julius Muller tomasse isso a seu cargo. Com certeza que, uma vez
chegados aqui, ele saberia muito bem onde estava o tesouro.
- Deves concordar que  de arreliar. Vir uma pessoa fazer esta caminhada, seguir o mapa to bem e nada encontrar- comentou Dina, que estava zangada e cansada. -
Estou farta. Eu j no procuro mais. Se quiserem continuem vocs na busca porque eu vou ver se descanso.
Deixou-se cair no cho e estendeu-se ao comprido, olhando para cima, para a encosta ngreme da montanha. Estava coberta de camadas chatas de rocha, salientes aqui
e ali, como prateleiras. Dina examinou-as preguiosamente com o olhar. De repente, levantou-se.
- Eh! - gritou para os outros. - Olhem para ali!
Os companheiros vieram ter com ela e puseram-se a olhar para cima.
- Vem aquelas camadas de rochas salientes que cobrem todo este lado do penhasco? - perguntou. - Parecem prateleiras. Olhem a meio. Esto a ver uma mais saliente
do que as outras? Reparem por baixo. Aquilo no  um buraco?
-- Se no , parece - concordou Joo. -  capaz de ser alguma toca de raposa. Mas como  o nico buraco de bom tamanho que h por aqui, o melhor  explor-lo. Eu
vou at l acima. Tu vens, Trunfa?
- Vou, pois - respondeu Filipe. - No parece custoso. Vocs duas no vm?
Dina, esquecida de que estava farta, juntou-se ao grupo e ps-se a trepar at ao buraco que ficava debaixo da camada de rocha. Quando l chegaram viram que era realmente
grande. De cima ningum via porque a rocha era to saliente que o encobria completamente. Via-se de baixo e, mesmo assim, s de determinado ngulo,

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precisamente aquele em que Dina se colocara quando resolvera estender-se no cho.
- Foi uma sorte tu t-lo visto, Dina - disse Joo. - Bem podamos andar todo o dia  procura sem nunca darmos com ele. Vamos a ver se ser a entrada da verdadeira
gruta do tesouro.
Espreitaram para dentro. O buraco escancarava-se, apresentando um aspecto vasto, mas completamente escuro.
- Ora, onde meti eu a lanterna? - perguntou Joo e, tirando-a da algibeira, acendeu-a.
Os pequenos olharam l para dentro. No parecia ser mais do que um buraco. Nenhum tesouro l havia. Mas, quando Joo iluminou o fundo com a lanterna, Dina teve a
impresso de que vira uma passagem e, entrando quase de roldo por ali dentro, de excitada que estava, disse:
- Parece-me que l no fundo h uma passagem.
A Didi voou do ombro de Joo e desapareceu por ali dentro. Depois chegou at aos pequenos uma voz lamentosa.
"Que h a, Didi?", gritou-lhe Joo.
"Trs pombinhas", foi a resposta da Didi, com voz solene, mas faltando  verdade. "Trs pombinhas. Hum!"
"s uma mentirosa!", disse Joo. "Seja como for, ns j l vamos para descobrirmos..."
"... as trs pombinhas", respondeu a Didi, lanando-se numa imitao do risinho de Maria da Luz.

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Captulo XXI - AS GRUTAS ESTRANHAS


Joo foi o primeiro a entrar no buraco. Baixou-se e no teve mais do que descer um degrau at ao cho, que ficava em nvel inferior.
- Agora vem tu, Maria da Luz - disse ele, ajudando-a a descer. Depois vieram os outros, excitados e ansiosos. Seria realmente a gruta do tesouro?
- Isto tem mesmo de ser o esconderijo do tesouro! - exclamou Joo. - No h por aqui outro buraco ou gruta. Agora deixem-me iluminar com a lanterna.
L no fundo, tal como Dina pensava, havia uma passagem, uma passagem larga e bastante elevada. At um homem muito alto l poderia entrar com facilidade.
- Vamos! - disse Joo, numa voz trmula de excitao. - Agora  que isto est a tornar-se interessante!
Seguiram-no pela passagem abaixo. A Didi empoleirara-se-lhe no ombro e Maria da Luz agarrara-o pela manga, meia receosa do que iriam encontrar.
A passagem era sempre alta e larga, mas no seguia a direito. Descia e, apesar de muitas curvas, ia sempre na mesma direco, para o centro da montanha.
De repente, a passagem terminou. Joo parou, boquiaberto. Diante dele estava qualquer coisa de extraordinrio.
A lanterna iluminou uma poro interminvel de colunas brancas e brilhantes que pendiam do tecto alto duma gruta. Que seriam?
Maria da Luz agarrou-lhe o brao, tambm muito admirada. Olhou para aquelas coisas brancas e brilhantes e viu que, do cho da gruta, se erguiam mais colunas brancas.

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Algumas haviam-se unido s que pendiam do tecto, o que dava a impresso de o tecto da gruta estar sendo sustentado por pilares.
- Joo! Que  isto?  o tesouro? - segredou Maria da
Luz.
-  gelo, no ? - disse Dina num tom de admirao. - Nunca, na minha vida, vi nada to bonito. Olha para aquelas que pendem do tecto, to brancas, to brancas e
to lindas!
- No  gelo - disse Joo. - So estalactites, pelo menos as que vm do tecto, e so de calcrio, parece-me. Cus, que coisa linda!
Os pequenos ficaram ali calados sem se cansarem de admirar a bela gruta silenciosa. O tecto era alto como o de uma catedral, e as graciosas estalactites pendiam
s dzias, brilhando  luz da lanterna de Joo.
- As que vem no cho so estalagmites, parece-me - disse Joo. -  assim, Filipe? Sabes alguma coisa sobre isto? Nunca na vida vi coisa alguma que se lhe compare!
- So estalagmites, so - disse Filipe. - Lembro-me de as ver em fotografia. Estalactites e estalagmites. Que coisa maravilhosa.
A Didi tentou repetir as duas palavras novas, mas no foi capaz. At ela parecia admirada com aquela descoberta espantosa e inesperada.
- Olha! - exclamou Maria da Luz de repente, apontando para o que parecia um xaile muito antigo esculpido em marfim.- Isto tambm nasceu aqui? Parece mesmo um xaile,
at o desenho d ideia! E vejam aquela espcie de porta, toda de talha! Com certeza que foi algum que os fez, no podem ter
nascido assim.
- Formaram-se - disse Joo, tentando explicar. - Tal como os cristais formam um floco de neve. No nasceram, porque no tm vida. Formaram-se.
Maria da Luz no percebia muito bem. L no ntimo pensava que todos aqueles maravilhosos pilares tinham crescido, e depois gelado, em toda a sua beleza.

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- At pensei que isto fosse o tesouro! - confessou ela, meio a rir.
- No me admiro - respondeu Joo. -  realmente lindssimo. Imagine-se, ns a encontrarmos uma gruta destas! Parece uma enorme catedral subterrnea. S lhe falta
um rgo e algum tocando um hino grandioso.
- Aqui no meio h uma espcie de corredor - disse Dina. - No sei se ser natural ou feito pelo homem. Esto a ver ao que me refiro?
- Perfeitamente - respondeu Joo, iluminando-o com a lanterna. - Deve ter sido em parte o homem e em parte a natureza que o fizeram. Ento, vamos? Aqui no h tesouro
nenhum.
Seguiram pelo meio do enorme salo silencioso, rodeado por todos os lados de pilares que pareciam de gelo. Maria da Luz chamou a ateno para muitos que se tinham
unido a colunas que vinham do cho.
- As gotas de gua das estalactites devem ter pingado para o cho e formado estalagmites que foram aumentando at se encontrarem com a coluna que pendia do tecto
- explicou Filipe. - Devem ter levado anos e anos a formar, sculos mesmo. No admira por isso que esta gruta tenha um aspecto to antigo. Eu at tenho a sensao
de que o tempo aqui no existe, nem anos, nem dias da semana ou horas, nada.
Maria da Luz no estava a gostar daquilo. Dava-lhe a sensao estranha de estar a viver num sonho, sem realidade. Segurou o brao de Joo e soube-lhe bem sentir
o calor agradvel e real dele.
Foram andando devagar at ao fim daquela gruta enorme. A encontraram um grande arco, tambm coberto de estalactites, mas que no vinham at muito abaixo. Os pequenos
atravessaram-no com toda a facilidade.
- Este arco parece um tnel - lembrou Filipe. A voz dele ressoou aumentada e oca, assustando-os. A Didi fez uma tossinha triste que tambm se transformou numa tosse
gigantesca e oca, o que espantou todos muito. Foram dar a outra gruta.

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O tecto desta no era to alto como o da anterior e de l s pendiam pequenas estalactites.
- As estalactites brilham no escuro? - perguntou Dina de repente. - Parece-me ver qualquer coisa a brilhar naquele canto.
Joo apagou a lanterna, e imediatamente os pequenos ficaram boquiabertos de espanto. No tecto e nas paredes brilhavam milhares de estrelinhas. Eram verdes e azuis
e tinham um maravilhoso brilho tremulante.
- Cus! Que  isto? -segredou Dina de olhos esbugalhados. - Ser alguma coisa viva?
Os rapazes no sabiam. Olhavam espantados aquelas estrelas cintilantes que pareciam acender e apagar, como as luzinhas dos gnios das histrias.
-  capaz de ser alguma espcie de pirilampo - alvitrou Joo. - Mas so lindas!
Voltou a acender a lanterna e o tecto brilhou, iluminado por aquela luz amarelada. Mas as estrelas desapareceram.
- Apaga a lanterna! - pediu Maria da Luz. - Quero ficar mais um bocadinho a ver estas estrelas. Nunca na vida vi coisa que me atrasse tanto. Parece uma fosforescncia,
azul-verde, verde-azul, vejam como elas acendem e apagam. Quem me dera apanhar um cento delas para as pr no tecto do meu quarto, l em casa!
Os outros riram-se dela, mas tambm se sentiam atrados por aquelas estrelas de brilho cintilante. Joo no voltou a acender a lanterna enquanto no se fartaram
de as ver.
- So duas grutas simplesmente maravilhosas - disse Maria da Luz com um suspiro. - Que haver na prxima? Sinto-me como se tivssemos descoberto o subterrneo de
Aladino ou coisa parecida.
Um corredor bastante comprido e sempre a descer levou-os para fora da gruta das estrelas, como Maria da Luz a tinha denominado.
- Encontramos uma gruta de eco, uma gruta de estalactites e uma gruta de estrelas - comentou ela. - Esta parte
da nossa aventura est a agradar-me. Agora s gostava de encontrar uma gruta do tesouro.
O tnel onde estavam era largo e alto tal como o primeiro corredor. A lanterna de Joo iluminou de repente qualquer coisa que brilhava no cho. O rapaz parou.
- Olhem para aquilo! - exclamou. - Que ser? Dina baixou-se para apanhar e disse:
-  uma pregadeira. Uma pregadeira sem p. O p deve ter-se partido e a pregadeira caiu de quem quer que a trazia. Mas  muito bonita.
E era realmente. Tratava-se de uma grande pregadeira de ouro com cerca de sete centmetros de largura, incrustada de pedras brilhantes e vermelhas como o sangue.
- Sero rubis? - perguntou Dina extasiada. - Vejam como brilha!  Joo, parece-te que isto faa j parte do tesouro?
-  possvel - respondeu Joo e logo a excitao voltou a apossar-se dos pequenos, fazendo-lhes bater o corao mais apressado. Uma pregadeira de rubis incrustados
em ouro lavrado! Que seria o resto do tesouro? Vises maravilhosas encheram os espritos das crianas, que seguiram aos tropees, na nsia de avanarem, de olhos
postos no cho em busca de qualquer outra coisa que brilhasse.
- E se ns encontrssemos uma gruta de jias? - disse Maria da Luz. - Iiiiih, todas a brilharem como estrelas e sis! Disso  que eu gostava.
- Pode ser que encontremos qualquer coisa do gnero - respondeu Dina. - Se assim for, hei-de enfeitar-me com elas dos ps  cabea para fazer de conta que sou uma
princesa.
O corredor continuava, sempre a descer, mas quando Joo consultou a bssula reparou que j no seguiam para o centro da montanha, mas na direco oposta. S esperava
que no viessem de repente dar  luz do dia sem encontrarem a gruta do tesouro.

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De sbito, foram dar a umas escadas que desciam. Eram uns degraus altos e largos cavados na rocha que continuavam a curva do corredor.
-  quase uma escada de caracol - disse Joo. - Onde ir isto dar?
Os degraus eram cerca de vinte. Depois apareceu uma enorme porta feita duma madeira rija e coberta de pregos de ferro. Os pequenos ficaram a olhar para ela.
Uma porta! Que haveria do outro lado? Estaria fechada  chave e trancada? Quem a teria posto ali e porqu? Seria para fechar e guardar a gruta do tesouro?
No se via puxador. Nem sequer uma fechadura. Tinha trancas grandes mas no estavam postas.
- No sei como se h-de abrir uma porta sem puxador
- disse Joo desesperado. Empurrou a porta, mas ela nem oscilou.
- D-lhe um pontap, como fizemos com a porta da cabana
- sugeriu Filipe, e Joo deu-lhe um pontap valente. Mas a porta no abriu.
Desesperados, os pequenos no tiravam de l os olhos. Chegaram at ali para aparecer uma porta a barrar-lhes o caminho ! Era de mais! Joo iluminou a porta de cima
abaixo.
Os olhos perspicazes de Maria da Luz notaram qualquer coisa.
- Vs aquele prego de ferro? - disse ela, apontando. -  muito mais brilhante do que os outros. Porque ser?
Joo fez incidir a luz sobre ele e reparou que era um prego maior do que os outros, e tambm, como Maria da Luz dissera, mais brilhante, como se tivesse tido uso.
Carregou nele. Nada aconteceu. Bateu-lhe com uma pedra. No deu resultado.
- Deixa-me experimentar - disse Filipe, empurrando Joo para o lado. - Vira a luz bem para c. Isso.
Agarrou o prego de ferro e abanou-o. Pareceu ceder um bocadinho. Abanou-o segunda vez. Nada. Ento pensou em torc-lo.

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O prego deu a volta com toda a facilidade. Ouviu-se um estalido forte e a porta abriu-se lentamente. Joo apagou a lanterna, receoso de que estivesse na gruta algum
que os visse. Apesar de que, se l estivesse algum, j teria ouvido todos aqueles encontres e pontaps na porta.
A porta estava agora toda aberta. Do outro lado entrava uma luz velada que lhes permitiu ver que estavam noutra gruta. Foi ento que Maria da Luz agarrou o brao
de Joo, segredando-lhe muito assustada:
- Est cheia de gente. Repara!


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Captulo XXII - O TESOURO


Os quatro pequenos ficaram  porta a olhar, sem quase se atreverem a respirar. O que viam punha-lhes os cabelos de p.
Na semiobscuridade da gruta distinguiam-se vultos por toda a parte. Os olhos e os dentes brilhavam duma maneira estranha. Os braos e os pescoos cintilavam, cobertos
de jias.

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Os pequenos agarraram-se uns aos outros, muito assustados.
Quem seria esta gente estranha e silenciosa e que faria ali de p, de olhos brilhantes e coberta de jias?
As pessoas que estavam na gruta no se mexeram, nem disseram palavra. No havia uma nica que estivesse sentada. Estavam todas de p, umas viradas para os quatro
pequenos apavorados, outras voltadas para o outro lado. Porque seria que no falavam? Porque no apontavam para eles dizendo: "J viram quem est ali?"
Maria da Luz comeou a soluar:
- Vamos embora. No gosto deles. S os olhos deles  que tm vida. Eles no.
A Didi soltou um grito, deixou o ombro de Joo e voou para o de um dos vultos que estava mais perto, o de uma mulher com roupas que brilhavam faustosamente na semiobscuridade
da gruta.
Mas a mulher no se mexeu. Que estranho! Os pequenos sentiram-se ento muito melhor ao verem que a Didi no parecia impressionada com a estranha companhia.
"Margarida vai  fonte", disse a Didi, dando bicadas na cabeleira da mulher em que se tinha empoleirado.
Os pequenos ficaram outra vez muito encolhidos. Que iria a mulher fazer  Didi? Encant-la com aqueles olhos estranhos? Lanar-lhe um feitio que a transformasse
em pedra? Teria toda aquela gente sido transformada em pedra?
- Vamos embora - rogava Maria da Luz. - No gosto desta gruta. No gosto destas pessoas e daqueles horrveis olhos brilhantes.
Mas, de repente, Joo transps de um salto o degrau que dava acesso  gruta e entrou ousadamente por ali dentro. Maria da Luz soltou um gritinho e tentou prend-lo
pela manga.
Joo dirigiu-se para a mulher em cujo ombro a Didi se empoleirara e ps-se a olhar bem para ela. Fixou de perto aqueles olhos brilhantes e bem abertos. Tocou-lhe
no cabelo. Depois virou-se para os outros, que o olhavam horrorizados.

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- Sabem o que ela ?  uma esttua, ricamente vestida, com cabelo verdadeiro e pedras preciosas a fazerem de olhos. Que pensam vocs de tudo isto?
Os outros no queriam crer, mas ficaram muito gratos por ouvir as palavras de Joo e v-lo a vaguear por entre aqueles vultos imveis sem que parecesse acontecer-lhe
mal nenhum.
Filipe e Dina resolveram entrar tambm na gruta, mas Maria da Luz  que no se atrevia a tal. Ficou a ver os outros a examinarem aquelas esttuas estranhas mas belas,
tentando convencer-se a juntar-se a eles.
Por fim, encheu-se de coragem e desceu  gruta. Olhou cheia de medo para a mulher em cujo ombro a Didi estivera. Realmente Joo tinha razo. No passava de uma esttua,
muito bela, de rosto finamente modelado e uma massa de cabelo negro. Tinha soberbas pedras preciosas a servirem de olhos e os dentes brilhantes eram tambm gemas
magnficas.  volta do pescoo tinha correntes de ouro incrustadas de pedras preciosas e nos dedos cor de cera brilhavam anis. Na cintura tinha o cinto mais belo
que Maria da Luz vira, lavrado e recamado de pedras vermelhas e azuis.
A gruta estava cheia de esttuas assim, umas de homens e outras de mulheres. Algumas tinham bebs nos braos, uns bebs gordos e risonhos com as vestes mais delicadas
ornadas de milhares de prolas pequeninas.
Estes bebs  que levaram Joo a perceber do que se tratava.
- Sabem o que elas so? - disse ele. - So imagens tiradas das igrejas algures neste pas. Esta representa a Virgem Maria e o beb  o Menino Jesus.  por isso que
esto enfeitadas com estas jias todas. As pessoas gastavam rios de dinheiro para as embelezarem.
- Pois , e, s vezes, at as levam em procisses por altura das festas na igreja - corroborou Dina, recordando-se de como a me lhe descrevera uma dessas festas.
- Imagine-se, imagens de igrejas! E que estaro elas aqui a fazer?

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- Devem ter sido roubadas - respondeu Joo. - Roubadas por pessoas que se aproveitaram da confuso da guerra e as esconderam aqui, na inteno de as virem buscar
quando tivessem oportunidade para isso.
- Devem valer muito dinheiro - disse Filipe, passando os dedos por aquelas jias maravilhosas-, mas digo-lhes que sempre apanhei um susto dos grandes quando as vi.
Pensei que fossem realmente pessoas.
- Tambm eu - confessou Maria da Luz, que j estava completamente calma. - Era insuportvel v-las assim to quietas e caladas. Estive quase a gritar de medo!
- Fomos uns tolos em no vermos logo que eram esttuas- decidiu Dina. - Mas, digam: de onde vem a luz que as ilumina?  uma luz muito tnue mas que chega bem para
as vermos.
Joo ps-se a olhar para todos os lados, e depois disse:
- Parece ser uma espcie de brilho fosforecente que vem das paredes e do tecto da gruta. Esta luz at  um bocadinho esverdeada, no acham?
- Olhem - chamou Filipe do lado de l das esttuas - aqui h outra escada! Venham ver.  capaz de haver mais outra gruta.
Foram todos ver. Para l da escada havia realmente outra gruta, iluminada pelo mesmo brilho tnue e esverdeado. Estava cheia de umas coisas pouco espessas, quadradas,
ovais e redondas. Esttuas no havia nenhumas.
Os pequenos foram inquirir que coisas eram aquelas.
- Quadros! -exclamou Joo, tentando virar um para ele. - Enormes! De onde viriam? De igrejas tambm?
- Possivelmente de museus - disse Filipe. - So capazes de ser quadros famosos e de muito valor. Devem ser de outro tempo. Olha aquele. Que trajos to antigos! Cus!
Estas coisas devem valer uma fortuna, ou muitas fortunas! Lembro-me de ter lido, h relativamente pouco tempo, acerca de uns quadros que valiam dois ou trs milhes
de libras.

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- Eu nem sabia que havia tanto dinheiro no mundo - disse Maria da Luz espantada. E ficou a olhar boquiaberta para aqueles quadros antigos e poeirentos, passando-lhes
um dedo pelas enormes molduras.
- Alguns dos quadros foram retirados das molduras para poderem ser trazidos para aqui - informou Joo, puxando por um rolo de tela espessa. - Olhem, deve ter sido
cortado da moldura e enrolado para ser mais facilmente transportado.
Alm dos quadros emoldurados havia cerca de cinquenta rolos de telas. Joo iluminou muitos com a lanterna, mas nenhum dos quatro os achou muito interessantes. Muitos
eram retratos de homens sisudos e gordos. Outros, cenas da Bblia ou de lendas antigas.
- Que formidvel descoberta! - exclamou Joo.- Se aqueles homens encontrassem isto, podiam fazer fortuna se os vendessem.
- Claro, andavam  procura de tudo isto - respondeu Filipe. - Para isso  que eles traziam aqueles caixotes todos. Para os embalar. Pensaram encaixotar tudo e levar
os caixotes no avio pouco a pouco. L espertos eram eles.
- Mas o Otto enganou-os! - exclamou Joo. - Levou-os at uma derrocada de rochas e disse que a gruta do tesouro ficava por trs daquilo tudo, e eles, humildemente,
desistiram e foram-se embora. Que tolos!
-E ns viemos encontrar tudo! - regozijou-se Maria da Luz. - Gostava tanto de poder contar isto ao Jaime!
- Haver mais grutas?--perguntou Joo, dirigindo-se para o outro extremo da segunda gruta. - H mesmo! C est outro arco e outra gruta. Aqui h livros! E documentos
antigos! Venham ver!
- Os livros doutro tempo e raros so, s vezes, to valiosos como os quadros antigos - explicou Filipe, olhando as rimas de livros enormes pesadamente encadernados.
- Olhem para este!  uma Bblia escrita em lngua estrangeira.  enorme! Reparem na letra de imprensa. Que antiga!

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- Estas  que so mesmo grutas de tesouros - comentou Joo. - Tesouros de igrejas, bibliotecas e museus. Suponho que os homens dessa altura devem t-los escondido
na inteno de vir busc-los quando chegasse a paz, para poderem encher-se de dinheiro com esta coleco. Mas no h direito que se roubem assim coisas.
- H aqui outra grutazinha, mesmo  sada desta gruta de livros - gritou-lhes Dina, que andava sozinha a explorar aquilo. - Est aqui uma grande arca. Olha outra!
E mais outra! S gostava de saber o que tero l dentro.
Joo veio ter com ela e levantou a pesada tampa de uma das arcas. Ficou mudo de espanto ao ver moedas brilhantes empilhadas na arca.
- Ouro! - exclamou. - Moedas de ouro de um pas qualquer, no sei qual. Nunca vi moedas de ouro como estas. Formidvel! Aquela caixa tambm contm uma fortuna, e
aquela arca, e aquela! Coisas valiosas por todo o lado!
- Parece um sonho - disse Maria da Luz, sentando-se numa das arcas. - Olhem que parece mesmo. Uma gruta de colunas de gelo ou de estalagas, ou l o que so! Outra
gruta de estrelas! Ainda uma outra de esttuas brilhantes cheias de jias! Mais uma gruta de quadros e outra de livros antigos! E agora uma gruta de ouro!  inacreditvel.
Era realmente extraordinrio. Os pequenos sentaram-se a descansar nas arcas de carvalho. Tudo estava iluminado por aquela luz tnue e esverdeada, uma espcie de
brilho plido que parecia no provir de lado algum em especial mas que estava em toda a parte.
Conservava-se tudo silencioso. Os pequenos at ouviam a prpria respirao e mesmo uma simples tosse de Joo lhes soou assustadoramente alto aos ouvidos.
Foi ento que, naquele silncio, outro som surgiu, mas este to completamente inesperado e surpreendente que eles nem queriam acreditar no que ouviam.
"C-c-c-c!"

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- Que  aquilo? - perguntou, por fim, Maria da Luz. - Parecia uma galinha.
- Deve ter sido a marota da Didi- pretendeu explicar Joo, procurando-a com a vista. Mas a catatua estava ali mesmo, empoleirada noutra arca, macambzia e acabrunhada.
Estava farta de grutas. Os pequenos olharam para ela. Teria sido a Didi?
Puseram-se  escuta para ver se ela repetia aquele som. Mas o animal nem se mexeu. E foi ento que o rudo voltou a fazer-se ouvir claramente, vindo duma direco
completamente diferente.
"C-c-c-c-c-c!"
-  uma galinha, no h dvida! - exclamou Joo, levantando-se de um salto. - At parece que ps ovo. Mas uma galinha nestas grutas! No pode ser!
Os pequenos estavam agora todos de p. Dina apontou para uns degraus ao fundo da grutazinha do ouro, dizendo:
-  dali que vem o som.
- Vou l ver se ser realmente uma galinha - disse Joo. - Nem quero acreditar.
Subiu cautelosamente os degraus e logo o cacarejar recomeou. A Didi acordou e ouviu-o admirada. Imediatamente se ps tambm a cacarejar, o que evidentemente surpreendeu
quem estava escondido e cacarejando, porque se excitou e se lanou em interminveis cacarejos.
Joo chegou ao cimo das escadas. Ali havia outra porta mas no muito forte. Estava s encostada. Abriu-a um bocadinho mais, muito devagar para poder espreitar para
dentro sem atrair a ateno de ningum, apesar de no esperar ver l mais do que uma galinha.
Porm, o que viu deixou-o espantado. Filipe espetou-lhe os dedos nas costas.
- Ento, Joo, que h?
Joo virou-se para os outros e respondeu em voz baixa:
-  muito estranho isto. Ali h um quartinho pequeno, uma espcie de cela, mobilado com uma mesa, cadeiras e um candeeiro aceso! A mesa est posta e h l coisas
de comer.

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- Ento, desce depressa - segredou Dina. - No queremos encontrar algum. Deve ser pessoa que est de guarda ao tesouro at que os outros o venham buscar. Desce!
Mas era tarde. Uma voz esquisita e trmula fez-se ouvir no quartinho para onde Joo estivera a espreitar.
At eles chegaram umas palavras estranhas, das quais eles no perceberam uma nica. Que iria acontecer?

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Captulo XXIII - OS GUARDIES DO TESOURO


Os pequenos ficaram mudos e quedos. Quem estaria ali, naquele quartinho, ao cimo das escadas? A voz fez-se ouvir novamente, repetindo as mesmas palavras que os pequenos
no percebiam.
Ento, no cimo da escadinha, surgiu uma galinha acastanhada. Ali ficou, de cabea ao lado, a olhar para os pequenos e a repetir numa voz amigvel:
"C! C-c-c!"
"C", fez logo a Didi.
Maria da Luz agarrou Dina e perguntou-lhe muito baixo, cheia de admirao:
- Ter sido a galinha que se manifestou h bocadinho?
Mas era claro que no tinha sido. A voz trmula fez-se ouvir outra vez e os pequenos ficaram admirados por repararem que parecia muito assustada.
Ningum veio at onde Joo estava, quase ao cimo da escada. Ento, o rapaz encheu-se de coragem e entrou no quartito.

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No outro extremo, sob um arco ou rocha, estava um homem muito velho. Por trs dele escondia-se uma mulher, to velha como ele, mas mais curvada. Olhavam Joo espantados,
mas, depois, virando-se um para o outro, desataram a falar, a falar sem que os pequenos percebessem nada do que diziam.
Maria da Luz no compreendia o que estaria Joo a fazer l em cima. E, pensando que algum devia estar com ele, subiu os degraus e juntou-se-lhes. Os dois velhotes
ficaram a olhar para aquela pequenita sardenta e de cabeleira vermelha, to parecida com o Joo.
Ento a velhinha emitiu uma exclamao de ternura, empurrou o marido para poder passar e foi ter com Maria da Luz. Depois abraou-a, beijou-a e acariciou-lhe os
cabelos. Maria da Luz estava admirada e no muito contente. Quem seria esta velhinha estranha que parecia gostar tanto dela?
E gritou para os outros:
- Dina! Filipe! Podem subir! So dois velhotes e a galinha. Em breve todos os pequenos estavam no quartinho do
subterrneo. Assim que o velhinho os ouviu falar, meteu-se na conversa, falando ingls com um sotaque estranho e sacudido.
- Ah! Os meninos so ingleses! Belo, belo! Uma vez, h muito tempo, estive na vossa terra. Muito bonito! Estive em Londres, num grande hotel.
- Felizmente fala ingls - comentou Filipe. - Mas que estaro eles aqui a fazer? Sero cmplices dos outros homens?
- Temos de descobrir - observou Joo. - L inofensivos parecem eles. Mas podem c estar outros.
A velhinha continuava a fazer uma grande festa a Maria da Luz. Era evidente que h muito tempo no via crianas. Ento, Joo virou-se para o velhote e perguntou:
- Quem est aqui alm dos senhores?
- Estou eu, a Elsa, que  a minha velhota, e a nossa galinha, a Marta - respondeu o velhinho. - Estamos de guarda a essas coisas todas que esto nas grutas at ao
dia em que voltem para onde pertencem. Oxal esse dia no tarde!

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- Parece-me que esta pobre gente no sabe que a guerra j acabou h muito - comentou Joo, em voz baixa, para os outros. - Sempre gostava de saber quem os deixou
aqui de guarda a isto.
Virou-se outra vez para o velhinho e perguntou:
- Quem lhes disse que guardassem estas coisas?
- Julius Muller - respondeu logo o velhinho. - Que grande homem! O que ele trabalhou contra o inimigo, at mesmo enquanto ele bombardeava e queimava este vale! Foi
ele quem descobriu que o inimigo estava a servir-se das grutas da montanha para esconder estes tesouros, roubados das nossas igrejas e de muitos outros lugares.
- Tal como ns pensmos - observou Filipe, muitssimo interessado. - Conte mais coisas!
- Foi ento que as pessoas fugiram deste vale - continuou o velhinho. - Muitas foram mortas. No vale no ficou ningum a no ser eu e a Elsa, a minha velhota. Escondemo-nos
com as nossas galinhas e o nosso porco e ningum nos encontrou. Mas um dia Julius Muller deu connosco e mandou-nos vir para aqui, por um caminho que ele conhecia,
para guardarmos o tesouro, no para o inimigo, nada disso! Para ele e para o nosso povo! Disse que um dia o inimigo seria derrotado e fugiria, e, ento, ele e os
outros voltariam para vir buscar o tesouro. Mas ainda no voltou.
- No voltou porque no pde - retorquiu logo Joo. - A passagem est obstruda. Agora ningum pode entrar ou sair deste vale, a no ser de avio. A guerra j acabou
h muito tempo. Mas h gente m que anda  procura deste tesouro, gente que ouviu dizer que ele est aqui escondido e que veio para o roubar.
O velhote pareceu ficar assustado e intrigado, como se no compreendesse muito bem o que Joo dissera. Os pequenos pensaram que o ter vivido tanto tempo naquele
subterrneo fizera com que a cabea dele no pudesse receber muitas notcias de fora. Para ele s interessavam a mulher, o tesouro e talvez, ainda, a galinha.

- 185 -

- Vivem aqui neste quarto? - perguntou Maria da Luz.
- Onde vo buscar de comer? A sua galinha gosta de viver aqui debaixo do cho?
- Temos uma grande reserva de alimentos - explicou o velhinho. - At h milho para a Marta, a nossa galinha. Quando viemos para c tnhamos seis galinhas e o nosso
porco. Mas o porco morreu, e, uma por uma, as galinhas morreram tambm. S ficou a Marta. Mas agora j no pe muitos ovos. A um de quinze em quinze dias.
"C--", fez a Marta num tom de orgulho. No havia dvida de que se orgulhava daquele ovo quinzenal.
A Didi imitou a galinha e depois ps-se a imitar os patos. A galinha pareceu ficar admirada e alarmada. Os velhotes tambm.
"Cala-te, Didi", ordenou Joo. "Deixa-te de exibies".
-Que pssaro  esse? - perguntou o velhinho. - Ser uma... como se chama, uma catatua?
- Pois  - respondeu Joo. -  minha. Vai sempre comigo para todo o lado. Mas no quer saber como viemos aqui parar?
- Ah, sim, claro, claro! --fez o velhinho. - Foi uma surpresa to grande, tudo isto, sabe? E depois a minha cabea j no est muito boa. No consigo perceber muita
coisa ao mesmo tempo. Ho-de contar-me o que lhes aconteceu. Mulher! E se arranjasses de comer para estes pequenos?
Elsa no percebeu e o velho repetiu o que tinha dito na lngua deles. Ela acenou com a cabea e sorriu com ar bondoso, mostrando uma boca sem dentes. Pegando na
mo de Maria da Luz foi at  prateleira de rocha onde estavam latas e boies.
- Parece que gosta muito de Maria da Luz - disse Filipe.
- Nem sabe que mais lhe h-de fazer.
O velhinho ouviu e explicou.
-  que ns tnhamos uma netinha, que era muito parecida com esta menina. Tinha os cabelos ruivos e uma carita assim simptica. Vivia connosco. Mas um dia o inimigo
veio e levou-a e ns nunca mais a vimos.

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Agora a minha mulher v na vossa irm a pequenina que perdeu. Tm de a desculpar, porque ela deve pensar que  realmente a Greta que voltou. - Coitados! - exclamou
Dina. - Que vida horrvel que eles tm tido aqui metidos no centro da montanha, guardando um tesouro para o Julius Muller,  espera dele h imenso tempo sem mais
saberem o que se passava l fora. Se ns no vissemos aqui eram capazes de nunca mais voltarem a sair.
Para grande alegria dos pequenos, Elsa preparou-lhes uma bela refeio. Apenas no deixava que a pobre Maria da Luz se afastasse dela. Por isso, a pequena era obrigada
a segui-la por todo o lado. Joo contou parte da histria deles ao velhote, embora fosse evidente que o pobre homem no conseguia compreender aquilo realmente. A
cabea j no lhe regulava muito bem, e ele sentia-se incapaz de compreender todas estas sbitas notcias de um mundo que quase esquecera.
A Didi divertia-se  grande. Marta, a galinha, via-se bem que estava habituada a fazer companhia ao casal, porque andava a depenicar debaixo da mesa, roando-se
pelas pernas de todos. A Didi juntou-se-lhe e manteve uma conversa interessante apesar de unilateral.
"Quantas vezes te tenho dito que limpes os ps?", perguntava ela  Marta. "Assoa-te. Vai  fonte".
"C--", respondia Marta delicadamente. "Trs pombinhas a voar", continuava a Didi, evidentemente ansiosa por ensinar umas cantigas  Marta. "Deus salve o rei!
Cu, cu, cu, cu!"
A galinha pareceu ficar admirada, sacudiu as penas e ps-se a olhar para a Didi. Depois apanhou umas migalhinhas e fez: "C--. C--. C--".
Maria da Luz e os outros no podiam deixar de rir com semelhante conversa. Foi ento que a Tixa, vendo que havia ali muito de comer, resolveu fazer a sua apario.
Desceu pela manga de Filipe e surgiu em cima da mesa, deixando a velhinha assaz assustada.
- Apresento-lhes a bicha Tixa - disse Filipe delicadamente.

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- Esta gente no pode deixar de pensar que somos uns estranhos visitantes! - observou Dina sem tirar os olhos da Tixa, no fosse ela aproximar-se. - Entramos assim
por aqui dentro, com uma catatua e uma lagartixa para lhes comermos o almoo.
- No me parece que se importem muito - observou Filipe. - Diverte-os a mudana. Deve saber bem ver gente depois de se estar s tanto tempo.
Quando acabaram a refeio, a velhinha disse qualquer coisa ao marido. Este, ento, traduziu para os pequenos:
- A minha mulher est a perguntar se no esto cansados. Talvez queiram descansar. Ns temos um belo lugar ao Sol para quando queremos descansar.
Os pequenos ficaram muito admirados. Ao Sol?! Como seria que estes velhotes conseguiam ver o Sol a no ser passando por todas as grutas e passagens at ao buraco
que ia dar  encosta da montanha?
- Onde fica esse lugar onde descansam? - perguntou Joo.
- Vem comigo - convidou o velhinho, levando-o para fora daquele quartito-cela. Elsa levou Maria da Luz pela mo. Todos seguiram o velhinho. Este meteu por um largo
corredor cavado na rocha.
- Estou convencido de que a maior parte destes tneis devem ter sido cavados por rios subterrneos aqui h muitos anos - assegurou Joo. - Esses rios seguiram depois
outro curso, os tneis secaram e tornaram-se corredores que vieram servir de comunicao de umas grutas para as outras.
O corredor fez uma curva e veio, de repente, dar  luz do dia. Os pequenos encontraram uma espcie de larga prateleira de rocha, cheia de fetos e outras plantas,
bem exposta ao Sol. Que beleza!
- Quer dizer que h outro caminho que vai dar s grutas do tesouro - admitiu Dina. Mas enganava-se. Por ali nunca algum poderia entrar nas grutas. A prateleira
de rocha estendia-se sobre um enorme precipcio, completamente a pique,

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de muitas centenas de metros de altura. Ningum, nem uma cabra, seria capaz de o subir ou descer. Era, como o velhinho dissera, um belo lugar ao Sol, bom para repousar
e nada mais.
Marta ia depenicando na rocha embora os pequenos no conseguissem descobrir o que ela encontrava l. A Didi ficava a observ-la de perto. J tinha estabelecido firmes
relaes de amizade com a galinha. Os pequenos tambm gostavam dela. Era uma criaturinha simptica, gordinha, amvel e natural, e os velhotes gostavam dela como
eles da Didi.
Deitaram-se todos ao Sol. Que bom era sentir aqueles raios quentes depois de estarem tanto tempo em subterrneos. Ali deitados, chegava-lhes aos ouvidos um murmrio
distante.
-  a queda de gua - disse Maria da Luz. - Quer dizer que devemos estar perto dela para a ouvirmos aqui.
Ali ficaram, meio ensonados. O velhote sentou-se numa rocha perto deles, a fumar o seu cachimbo. Parecia muito satisfeito. Elsa desaparecera.
- O estranho  pensar que encontrmos o tesouro mas nada podemos fazer-lhe!-exclamou Dina. - Estamos aqui encalhados. Nada podemos mandar dizer a algum. E, pelo
que vejo, nunca mais poderemos, a no ser que desobstruam o vale, coisa que pode levar ainda muitos anos a acontecer!
- No digas essas coisas - pediu Maria da Luz. - Seja como for, os homens j se foram embora. J  uma coisa boa. Andava sempre com tanto medo quando eles estavam
no vale. Ainda bem que se foram embora!
Mas Maria da Luz deitava foguetes antes do tempo. Um rudo de motores, j familiar, chegou at eles, e todos se levantaram de um salto.
- O avio voltou. Que maada! Aqueles homens vo tornar a andar por aqui agora e talvez at j tenham arrancado a verdade ao Otto sobre o lugar do tesouro!-lembrou
Joo. - Agora  que precisamos de ter muito cuidado.

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Captulo XXIV - JOS DESCOBRE AS GRUTAS


Os pequenos reuniram-se em conselho. Qual seria o melhor partido a tomar? E se os homens agora soubessem realmente o caminho at s grutas do tesouro e fossem at
l? Iam logo comear a tirar o tesouro, isso era mais do que certo.
- E ns nada podemos fazer - disse Filipe. - Aqueles so homens duros. No vo deixar que uns midos como ns e dois velhinhos os impeam de levar o que eles quiserem.
E eles, se voltaram, deve ser para tornarem a procurar o tesouro e para o encontrarem realmente desta vez.
Todos concordaram com Joo. Filipe suspirou:
- Se ao menos consegussemos escapar-nos e comunicar com o Jaime. Mas no h possibilidade.
O avio passara sem se ver dali. S ouviram o rudo dos motores. O velhinho parecia nada ter ouvido e os pequenos resolveram nada lhe contar, no fosse ele assustar-se.
- Que acham vocs que devamos fazer? - perguntou Filipe. - Ficar aqui com os velhinhos para vermos se os homens vm realmente e levam alguma coisa?  fcil escondermo-nos
em qualquer parte. Ou voltamos antes para a nossa gruta do feto, do outro lado da cascata? L sempre me senti seguro. E temos l muito que comer.
- Isso tambm aqui - respondeu Dina. - Acho melhor no sairmos de c. Se os homens vierem, podemos sempre esconder-nos naquela gruta de estalactites. H l muito
esconderijo, por trs daquelas colunas geladas. L ningum nos v. E podia ficar sempre um de ns ali de guarda, para ver quem entra ou sai.

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- Talvez tenhas razo - admitiu Joo. - Temos de esperar para ver o que acontece. Uma vez que eles descubram as grutas do tesouro vai haver muito movimento de gente
a entrar e a sair para levarem o tesouro para o avio. Levantam voo para o irem levar, voltam para vir buscar mais, etc.
- E nada me admirava se eles trouxessem mais avies assim que descobrirem onde est realmente o tesouro - observou Filipe. - Se se pem a levar um ou dois caixotes
de cada vez nunca mais acabam.
- A Maria da Luz j est a dormir - disse Dina. - Vou ver se passo tambm pelo sono. Est-se aqui to bem ao Sol! Os homens ainda no vm por a, por isso, no 
preciso estarmos de atalaia nas grutas.
- O melhor seria ficarmos de guarda  entrada - lembrou Filipe, depois de pensar um bocado. - Era a maneira de avistarmos com uma boa antecedncia quem quer que
viesse.
- Tambm me parece que  melhor - concordou Joo, instalando-se para ver se tambm dormia. - Mas hoje com certeza que os homens no vm c. O Sol j est a declinar.
Devem esperar por amanh.
Os pequenos passaram aquela noite no "quarto" do casal. Este era uma gruta de pequenas dimenses que dava para a "sala de estar" onde os pequenos tinham jantado.
No "quarto" havia um monte de mantas impecavelmente limpas e os velhotes insistiram muito em ceder este quarto aos pequenos.
- Ns dormimos em cadeiras - rematou o velhote. - Nada nos custa.
A velhinha cobriu Maria da Luz com todo o cuidado e at lhe deu um beijo de despedida.
- Est convencida de que eu sou mesmo a Greta, a neta que ela perdeu - disse Maria da Luz. - Tenho tanta pena dela que no posso impedir-me de corresponder a tanta
festa.
De manh, depois de outra boa refeio, Joo disse que ia ocupar o lugar de vigilante, num primeiro turno,  entrada da passagem que ia dar s grutas. Filipe entraria
no segundo turno, duas horas mais tarde.

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O pequeno sentou-se na entrada, debaixo da grande camada de rocha que se salientava na encosta do monte. Estava uma bela manh de Sol. Os outros decidiram ir examinar
umas figuras da gruta das imagens e o velhote disse que lhes contaria a histria delas e de onde tinham vindo.
Joo ficou a olhar para toda a encosta. Dali abrangia uma grande extenso. Via muitas montanhas em redor, umas por trs das outras. Os pinhais nas encostas at pareciam
simples arrelvados. Levou o binculo aos olhos para ver que pssaros havia por ali.
Mas a regio era pobre de aves selvagens. Eram raras. Joo foi examinando tudo bem com o binculo.
E foi ento que teve uma surpresa desagradvel. Dirigia o binculo para um arbusto atrs do qual lhe pareceu ter visto qualquer coisa movendo-se rapidamente. Quis
saber se se escondia ali algum pssaro ou outro animal.
Mas no. Em vez disso, o que ele viu foi a cabea e os ombros de Jos, o qual empunhava um binculo e estava precisamente a olhar para Joo, tal como este o olhava,
tambm atravs do binculo.
O pequeno ficou petrificado. Olhou bem para baixo, pelo binculo, e Jos olhou para cima, cada um deles vendo o outro perfeitamente. Com que ento Jos tinha voltado
em busca do tesouro! A sua permanncia ali devia-se ao acaso ou teria conseguido arrancar de Otto o mesmo mapa que este desenhara para Joo?
"Agora sou capaz de trair tudo num momento", pensou Joo aborrecido. "No tenho mais do que retirar-me para dentro e ele fica j a saber onde  a entrada. Se eu
for dar uma volta pela montanha, ele vem atrs de mim. Sempre estou envolvido num tal problema!
Jos no tirava os olhos de Joo. Ajoelhara-se ao p do arbusto, sempre binculo assestado para o rapaz, espiando-lhe os movimentos.
"Dali no v ele o buraco que fica atrs de mim", pensou Joo. "O melhor ser eu sair daqui e comear a subir a encosta.

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Se eu assim fizer e o Jos vier atrs de mim  capaz de passar ] sem dar com a entrada".
Ia precisamente pr em execuo este plano quando Filipe veio colocar-se ao seu lado dizendo:
- Agora  a minha vez, Pintinhas. Mas para onde ests tu a olhar?
- Foi pena teres vindo precisamente neste momento - respondeu Joo. - Ali em baixo est o Jos com o binculo virado para mim e agora para ti tambm. Eu ia agora
mesmo comear a subir a encosta para que ele se pusesse a perseguir-me e no desse com a entrada. Assim j ele ficou a saber que h aqui uma gruta e no tardar
a chegar c.
- Ora esta! - alarmou-se Filipe. - Temos de ir j prevenir os outros.
- Agora  a nica coisa a fazer - respondeu Joo, entrando de um salto. - Anda. O Jos no tarda c a chegar. Que tremenda maada! Mas porque no calculei eu logo
que ele j devia andar por a?
Seguiram rapidamente pela passagem e atravessaram todas as grutas at chegarem ao pequeno quarto onde estavam os outros.
Joo explicou apressadamente o que acontecera.
- Temos de esconder-nos - acrescentou. Mas os velhotes no aceitaram a ideia. No queriam esconder-se.
- Nada temos a recear - disse o velhinho cheio de dignidade. - No vm fazer-nos mal.
- Enganam-se, tm at muito que recear - disse Joo desesperado. - Venham esconder-se!
Mas eles no se convenciam e Joo no podia perder tempo a discutir porque queria pr as raparigas a salvo. Desistiu e f-las seguir  frente dele.
- Para a gruta das estalactites? - perguntou Dina. Joo fez que sim com a cabea. Mas quando chegaram  gruta das imagens, hesitou. No ficariam ali melhor? E se
se colocassem atrs, na sombra, imveis como esttuas? Com certeza que ningum daria por eles. Valia a pena tentar.

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- Tirem os mantos s imagens - disse ele. - Embrulhem-se bem neles, e deixem-se ficar muito quietas a atrs.
Pouco tempo levaram a embrulharem-se e a colocarem-se onde Joo dissera, Maria da Luz segredou-lhe ento:
- Lembram-se de quando brincvamos s esttuas? Tnhamos de ficar muito quietos para no perdermos. At me parece que estou a jogar a isso.
- Ento v se ficas realmente quieta, seno perdes mesmo, porque te apanham - respondeu Joo. - Oh! Vem a gente. "Chhhhhhh!", fez logo a Didi. Joo deu-lhe uma
tapa no bico.
"Cala-te! V l se queres trair-nos, palerma!" A Didi ainda abriu o bico para palrar mas arrependeu-se. Levantou voo e desapareceu. Joo ficou bem contente por v-la
ir porque no queria que ela se pusesse a palrar, acabando por chamar a ateno para eles.
Do tnel chegou um rudo. J l andava gente. Devia ser o Jos.
- Jos atravessou a gruta das estalactites e das estrelas - segredou Filipe. - J entrou no tnel que vem dar aqui. No tarda a aparecer ali  porta. Que pena no
a termos fechado. Podia no descobrir que  preciso rodar o prego para a abrir.
A porta ficara s encostada, e quando os pequenos olharam para l notaram, na semiobscuridade esverdeada da gruta, que algum a abria lentamente. Viram ento brilhar
o cano dum revlver. Era evidente que Jos no estava disposto a arriscar-se.
Maria da Luz engoliu em seco. Oxal aquela arma no se disparasse. Detestava armas de fogo.
A porta abriu-se de par em par e no limiar surgiu Jos de revlver em punho.
Ao ver aquelas imagens silenciosas, de olhos estranhamente brilhantes, ia ficando sem flego.
"Mos no ar"!, ordenou ele rispidamente s esttuas. Estas, claro, no obedeceram. A mo de Jos tremeu. Os pequenos perceberam que ele estava a deixar-se invadir
pelo pnico,

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tal como lhes acontecera a eles ao verem pela primeira vez aquele grupo estranhamente silencioso.
"Limpa os ps!", ordenou uma voz autoritria. Os pequenos ficaram estarrecidos. Era a Didi. Tinha-se empoleirado numa salincia de rocha mesmo por cima da cabea
de Jos.
"Quem est a?", perguntou Jos. "Se algum se mexe, disparo".
As esttuas no se mexeram, nem mesmo as quatro que eram de carne e osso.
"Quem est a?", voltou a perguntar Jos.
"Trs pombinhas", foi a resposta da Didi, seguida de uma enorme gargalhada. Isto era de mais para Jos.
O homem recuou um pouco, tentando descobrir qual das esttuas falara.
"L se vai tudo por gua abaixo!", exclamou a Didi, pondo-se depois a cacarejar como a Marta. A mo de Jos voltou a tremer mas avanou um pouco e desceu o degrau
para entrar na gruta. Foi nessa altura que viu, como acontecera aos pequenos, que tinha  sua frente imagens cobertas de jias.
Ento, ps-se a rir alto.
"Que doido!", disse.
"Que doido!" repetiu a Didi, fazendo Jos virar-se de um salto.
"Quem est a? Deve ser um dos midos. Deixem estar que no perdem pela demora!"
A Didi comeou a miar. O homem ps-se  procura do gato mas terminou por chegar  concluso de que um dos pequenos estava tentando pregar-lhe uma partida.
A Didi voou silenciosamente para a gruta seguinte, onde se ps a palrar sozinha.
"L vai uma, l vo duas, Margarida vai  fonte!"
O homem deitou um ltimo olhar ao grupo de imagens e dirigiu-se  gruta seguinte. Os pequenos soltaram um suspiro de alvio, mas ainda no se atreveram a mexer-se.
Parecia-lhes que o homem nunca mais voltava. Por fim, l o avistaram. Com ele vinham os dois velhotes, visivelmente assustados.

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Jos gritava-lhes na lngua deles, e, por isso, os pequenos no perceberam palavra.
Depois, sem voltar a olhar para as esttuas, Jos transps a pesada porta de carvalho e fechou-a, deixando os velhos.
O estrondo ecoou por toda a gruta e f-los dar um salto a todos.
Depois ouviram outro rudo que os deixou sem pinga de sangue. Era o barulho das trancas a serem colocadas na porta, do outro lado.
Tau! Tau! Tau! As trs trancas haviam sido atravessadas. Agora era impossvel abrir a porta do lado de dentro.
- Ouviram? - resmungou Joo. - Estamos presos. Se nos temos escondido na gruta de estalactites ou na gruta das estrelas nada disto nos aconteceria. Podamos sair
quando quisssemos. Assim no podemos. Temos de c ficar at que os homens nos soltem - se  que alguma vez o faam.

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Captulo XXV - O AUDACIOSO PLANO DE FILIPE


Os dois velhinhos pareciam pregados ao cho com o susto, ao verem quatro das esttuas falarem e andarem. Mas, quando os pequenos tiraram os mantos e voltaram a coloc-los
nas imagens de onde os haviam tirado, os velhinhos viram logo quem eles eram.
Elsa veio a correr para Maria da Luz e aconchegou-a. O velhote ficou onde estava, muito trmulo.
- Que lhes disse ele? - perguntou Joo.
- Disse que amos ficar aqui presos e que depois ele traria outros com ele para levarem o nosso tesouro todo - respondeu o velhote, e as lgrimas corriam-lhe pela
cara abaixo.
- Ele  mau.  possvel que eu estivesse a guardar todas estas coisas to lindas para as deixar nas mos de um homem to mau?
- O que revolta  a gente nada poder fazer - disse Joo.
- Temos de ficar aqui de braos cruzados a ver estes malandros levarem tudo, meterem o tesouro nos caixotes para o levarem com eles no avio.

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- Eu vou l para fora, para o Sol - disse Dina. - J no posso mais com este lusco-fusco. L sempre hei-de sentir-me melhor. V se o velhinho diz  mulher que nos
arranje qualquer coisa que possamos comer l, Joo. Tu e o Filipe ajudem-na. Aqui no escuro, com todas estas imagens de olhos postos em ns, nem consigo concentrar-me
para pensar.
- Est bem - concordou Joo ao ver que Dina estava quase a chorar. - Vai e leva a Luzinha e a Didi. Ns j l vamos ter. Quando estiveres ao Sol j te sentirs melhor.
- A Didi foi uma espertalhona em desviar o homem do nosso lado, no foi? - disse a Maria da Luz. - Que assustado que ele ficou quando comeou a ouvi-la falar. Eu
tambm ficava se me acontecesse o mesmo. Pensava logo que era uma das esttuas que estava a falar.
Ela e Dina foram andando at ao cantinho soalheiro dos velhinhos. Quando l chegaram, Dina atirou-se para o cho, aliviada.
- J no estou a gostar desta aventura. E tu, Dina?
- perguntou Maria da Luz. - Se pudssemos fazer alguma coisa, no custava tanto, mas parece-me que nada h que possamos fazer.
- Eu gosto de ver as aventuras a correr como eu quero
- disse Dina um tanto amuada. - Detesto que me obriguem a fazer coisas que no gosto. No me digas nada, Maria da Luz. Estou to zangada que com qualquer coisa rebento.
- Foi do esforo que fizemos para no nos mexermos enquanto fazamos de esttuas - disse Maria da Luz.
- Falas que nem uma pessoa crescida - ripostou Dina.
- No  nada disso. Estou de mau humor porque quero sair deste vale e no posso.
Maria da Luz calou-se e instalou-se ao Sol  espera da merenda que o Joo e o Filipe haviam de ajudar Elsa a trazer. A Didi ficou ali perto a palrar sozinha. Marta,
a galinha, veio ter com ela, esgaravatando amigavelmente. A Didi ps-se a falar com ela e ela respondia cacarejando.

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Dina esqueceu o mau humor quando os outros chegaram com o almoo. Banquetearam-se e voltaram a discutir todos os acontecimentos daquela manh. A meio da discusso
voltaram a ouvir o rudo do avio, e, desta vez, viram-no erguer-se no ar.
- Foram-se embora outra vez! - exclamou Joo, admirado.
- Porque ser?
- Possivelmente foram buscar mais homens para os ajudarem a levar tudo, uma vez que j sabem onde est o tesouro
- aventou Filipe. - E podem at trazer mais avies, como tu disseste, Joo.
Era revoltante sentirem-se irremediavelmente presos. Joo e Filipe ainda foram, desesperados, tentar arrombar a porta trancada, mas em vo.
As trancas estavam velhas mas eram ainda muito fortes.
Nada havia que pudessem fazer e sentaram-se, aborrecidssimos. Foram mais uma vez examinar de perto as imagens, os velhos quadros e os livros bafientos.
As esttuas estavam cobertas de jias magnficas. Algumas imagens eram realmente belas e estavam bem vestidas, mas outras eram toscas e berrantes. Contudo, todas
elas estavam adornadas de jias, embora os pequenos no soubessem se todas as pregadeiras brilhantes, brincos, colares e fosforescentes pulseiras, cintos e anis
seriam realmente de valor. Provavelmente uns eram e outros no teriam seno um valor muito relativo.
- Os homens devem tirar as jias e deixar c as imagens - lembrou Joo. - Os quadros e os livros metem eles em caixotes.
- E se tirssemos as jias e as escondssemos algures onde os homens no conseguissem descobri-las? - sugeriu Dina de repente. - No sei porque havemos de consentir
que homens maus como aqueles as levem.
- Boa ideia! - exclamou Joo. - Vamos! Toca a tirar as jias para as escondermos em qualquer parte!

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Mas, assim que comearam a tir-las, os velhotes horrorizados vieram sobre eles.
- No se faz! Menino mau! - exclamou o velhinho, tirando uma pregadeira das mos de Joo.
- Ns s queremos esconder isto daqueles homens - quis explicar Joo. - No tardaro a c voltar para roubarem estas coisas.
- Tudo isto pertence a estes - disse o velhinho apontando para as imagens. - Ningum deve tirar nada daqui.  contra as leis da Igreja.
Os pequenos no insistiram. Era evidente que Elsa e o velhote se enfureciam se eles fizessem nova tentativa. Parecia pensarem que era um acto mau e sacrlego tirar
qualquer adorno pertencente s imagens.
Chegou finalmente o fim daquele longo dia e naquela noite ningum dormiu muito bem. Estavam todos preocupados com o que iria acontecer. Era horrvel sentirem-se
 merc de patifes como Jos.
De manh, reuniram-se todos outra vez naquele cantinho soalheiro, para tomarem o pequeno almoo. Agora no comiam nas grutas sempre que era possvel faz-lo.
- Escutem - proferiu Dina de repente. - A vem outra vez o avio.
Puseram-se todos  escuta, incluindo o casal de velhotes. O rudo aumentou. Tornou-se mesmo muito intenso. Joo levantou-se dum salto e exclamou:
- No  s um! So muitos! Olhem, l vem um a descer, e outro alm! E aqui vem outro. No h dvida! O Jos trouxe uma esquadrilha de avies.
Eram quatro. Via-se bem que o Jos estava decidido a fazer as coisas em grande escala. Os pequenos imaginaram os avies aterrando um por um no grande relvado, no
fundo do vale.
- Agora aguardemos os acontecimentos - disse Joo. - O tesouro no tardar a desaparecer todo.

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- Que raiva! - exclamou Dina. - E ns sem podermos fazer nada para impedir isto!
- Se ao menos pudssemos comunicar com o Jaime!
- explodiu Joo desesperado. - Mas no h possibilidades de se sair do vale a no ser num avio daqueles.
Filipe ficou uns momentos a olhar para Joo, e, depois, teve uma ideia to ousada que os outros nem queriam acreditar no
que ouviam.
- No h dvida. E  esse caminho que vou tomar. Fez-se silncio. Por fim, Joo interveio admirado:
- Que queres dizer com isso? No sabes pilotar um
avio.
- Claro que no. Mas hei-de saber esconder-me num!
- respondeu Filipe. - Ns no viemos escondidos, todos os quatro, num avio que veio para aqui? Porque no hei-de eu esconder-me num que saia daqui? Aposto que era
capaz de me ocultar sem que dessem comigo, sair quando visse uma oportunidade e comunicar com o Jaime para lhe contar tudo!
- Filipe! Que magnfica ideia! - exclamou Joo. - Mas quem vai sou eu, e no tu.
- Ento no vais! - respondeu Filipe. - A ideia foi minha. No deixarei que se aproveitem duma ideia destas. Quem vai sou eu, ouviste?
- Eu no queria que qualquer de vocs fosse - refutou Maria da Luz, de lbios a tremer. - Podiam v-los e acontecer-lhes qualquer coisa muito m. No vo!
- Joo fica com vocs - disse Filipe. - Os velhinhos tambm. Nada vos acontecer. Esta  a nica maneira de se ir buscar socorros: seguir num daqueles avies quando
os homens fizerem nova viagem. Para levarem tudo, tero de c voltar mais duas ou trs vezes. E, se eu conseguir comunicar com o Jaime, apanhamo-los quando eles
estiverem ocupados com o roubo.
- Parece-me bom de mais para ser verdade - disse Dina. - No acredito que consigas. Seja como for, como queres tu ir para o avio?

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Esqueces-te de que estamos trancados. Ningum pode sair daqui.
- Espero uma oportunidade para me escapar por aquela porta quando os homens estiverem aqui ocupados - respondeu Filipe antegozando o plano. - Depois escondo-me na
gruta das estalactites e sigo pela passagem fora logo que possa. A seguir vou para o avio, escolho um e meto-me l dentro. Como pensam que ns estamos todos bem
guardados no creio que deixem l algum de guarda.
- Parece fcil, mas no vai ser - disse Joo. - Deixa-me tentar, Trunfa.
- No insistas! - respondeu Filipe. - Esta vai ser a minha melhor aventura.
- At talvez pudesses meter-te num dos caixotes - disse Dina pensativa. - Ningum se lembraria de ir ver dentro dum caixote pronto para ser levado.
- Boa ideia! - respondeu Filipe. - Belssima ideia!
- Bem podemos esperar ter hoje por c um bando de homens - disse Joo. - Vai fazer confuso aos pobres velhinhos. No sei como ficaro quando se virem sem o tesouro,
to bem guardado estava.

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- Filipe, hoje, quando os homens vierem, no vamos voltar a fazer de esttuas, no? - implorou Dina.- S tu. Se no nos encontram hoje  mais do que certo que vo
passar aqui uma busca, e, por isso,  melhor que nos encontrem todos, menos a ti. Tu voltas a fazer de esttua e esperas por uma oportunidade para fugires pela porta
fora.
- Vou fazer precisamente isso - respondeu Filipe. - Pode ser que no d resultado, mas no h outra soluo. Quando chegaro aqueles homens? Leva-lhes bem hora e
meia para chegar at aqui. Vimos os avies h meia hora. No posso esperar pelo ltimo minuto para me colocar no lugar.
-  melhor ires j - disse Maria da Luz que estava nervosssima com aquilo tudo.
- Ns vamos contigo para ver se ests em bom stio e pareces realmente uma esttua.
Atravessaram todos o corredor e as vrias grutas at chegarem  das esttuas. Marta, a galinha, foi com eles. Tinha-se afeioado a Joo e agora seguia-o para onde
quer que ele fosse. Naquela manh pusera um ovo e a velhinha obrigara Maria da Luz a com-lo ao pequeno almoo.
- Olha! Aqui perto da porta h uma salincia de rocha
- observou Dina ansiosamente. - Se te pusesses ali, estou convencida de que ningum te via. Est to escuro! Ficavas ao p da porta, o que te facilitaria a fuga,
quando tivesses oportunidade para tal.
- Realmente parece-me o melhor lugar - respondeu Filipe.
-  o melhor, no h dvida. O que tenho a fazer  cobrir-me com um manto, seno o meu cabelo curto trai-me logo.
Descobriram um manto muito grande e envolveram Filipe nele.
Este empoleirou-se na rocha e todos concordaram em que o lugar era esplndido.
- Ser difcil descobrirem-te - disse Joo. - Boa sorte, Trunfa. Agora vamos embora e no nos escondemos. Os homens ver-nos-o e esperemos que pensem que no h
mais algum nas grutas.

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Se no conseguires fugir, ns logo  noite j sabemos, porque havemos de encontrar-te c.
- Adeus - disse Filipe, que parecia mesmo uma esttua. - No se preocupem comigo. Daqui a pouco j eu vou a caminho e hei-de comunicar com Jaime e com a me. No
se aflijam que ns viremos c salv-los!

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Captulo XXVI - O FUGITIVO


Aproximadamente uma hora depois, Filipe ouviu o barulho de passos e das trancas a serem retiradas. O revlver de Jos voltou a aparecer. Mas, desta vez, no estava
l a Didi para lhe falar, ningum que ele ouvisse ou visse a no ser o grupo silencioso das esttuas.
Jos entrou na gruta. Seguiram-no outros homens. Filipe ficou a v-los por uma fresta do manto. S esperava que eles no comeassem logo a tirar as jias s imagens,
porque eram capazes de o descobrir.
Os homens soltaram exclamaes de admirao ao verem as esttuas. Vinham munidos de lanternas potentes que imediatamente acenderam. Por esta no esperava Filipe.

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Encolheu-se muito no seu cantinho, contente por o manto o encobrir to bem.
Os homens tinham todos um aspecto pouco agradvel e, surpreendidos com o fulgor das jias que adornavam os pescoos e braos das imagens, no paravam de clamar uns
pelos outros.
Houve quem deitasse logo a mo a alfinetes e colares, mas, a uma ordem spera de Jos, tudo voltou aos seus lugares, embora de m vontade.
Filipe contou os homens. Eram oito. Otto no se encontrava entre eles, o que tambm no era para admirar. Jos, Firmino e Lus estavam presentes. Pelo que parecia,
vinham dois homens em cada avio.
Jos foi  frente ensinar o caminho pelo tnel at  gruta seguinte, os passos ecoavam por ali fora. Filipe s queria saber se eles iriam depois  outra gruta e
 outra. Se assim fosse cedo poderia escapar-se pela porta aberta para seguir imediatamente pelo monte abaixo.
Ps-se  escuta. At ele chegava o som de vozes vindas da gruta seguinte, onde estavam os quadros. Depois mais passos, desta vez mais ao longe. Por fim, s o murmrio
de vozes distantes.
"Foram para a gruta dos livros e de l ho-de ir para a gruta onde est o ouro", pensou Filipe. "Tenho muito tempo para transpor a porta e sair daqui".
Deixou cair o manto no cho e dirigiu-se silenciosamente para a porta. Transp-la num abrir e fechar de olhos, subiu as escadas de caracol, atravessou a gruta das
estrelas e chegou  gruta das estalactites. Aqui comeou a sentir-se mais seguro. No lhe parecia que houvesse algum de guarda fora da entrada, todavia decidiu
acautelar-se.
Mas no havia ningum. A encosta estava deserta.
Filipe saiu e iniciou a descida. Pouco depois j ele ia longe, sempre de olho alerta, no fosse dar-se o caso de nem todos os homens terem ido para as grutas.

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Quando chegou ao p da cabana dos homens, estava cansado e cheio de fome. Felizmente, a porta estava aberta e ningum havia ali. Ento, entrou e banqueteou-se. Encontrou
uma caixa com barras de chocolate e meteu umas na algibeira para o caso de ter de ficar um tempo sem comer.
Depois foi at aos avies. L estavam eles, todos quatro, mostrando-se bem grandes ao p dele. Em qual haveria de entrar? Subiu  cabina de cada um deles e espreitou
l para dentro. No ltimo estava um grande monte de mantas e casacos. Parecia o indicado para ele. Podia cobrir-se com tudo aquilo e esconder-se assim. Por enquanto,
no via qualquer possibilidade de se meter num caixote como Dina sugerira, at porque os caixotes no se encontravam no avio, mas debaixo dos toldos onde sempre
haviam estado.
Uma vez decidido tudo o que havia de fazer, viu que tinha muito tempo  sua frente. Bem sabia que os homens no regressariam to cedo. Haviam de trazer cargas pesadas
e mal ajeitadas e, por isso, desceriam muito mais lentamente do que ele.
Ento, resolveu divertir-se, metendo o nariz em tudo. Foi  cabana e encontrou l pendurado um casaco. Revistou-lhe as algibeiras, pensando que todas e quaisquer
informaes que conseguisse poderiam ser teis a Jaime quando ele l chegasse.
Numa das algibeiras estava um livro de notas. Filipe folheou-o, mas no percebeu patavina. Continha frases numa espcie de cdigo, e muitos nmeros. Talvez Jaime
conseguisse decifrar aquilo. Ele  que no percebia nada.
Foi ao estbulo. Ali nada havia que ver, a no ser latas de fruta ainda abertas e cobertas de moscas. Filipe ficou um bocado a olhar para elas, mas depois pensou:
" verdade, foi o Joo que as deixou c ficar para o Otto. Que nojo, estas moscas!"
Pegou num pau, fez um buraco e enterrou aquelas latas de cheiro nauseabundo, com tudo o que tinham dentro. Depois foi dar novo passeio e chegou  rvore onde uma
vez se haviam escondido todos quatro. Olhou l para cima e viu qualquer coisa: "Que ser aquilo?", perguntou a si mesmo. Mas depois  que se lembrou.

- 209 -

"Pois claro! Fomos ns que deixmos ali as malas. J me tinha esquecido. Parece impossvel que ainda estejam l em cima".
Ficou um momento a pensar se devia traz-las para baixo e escond-las ou no. Optou pela negativa, pensando:
"Os homens podiam descobri-las e eram capazes de se porem  minha procura. Deix-las ficar".
Ao cair da tarde ps-se de atalaia, porque os homens deviam estar de regresso. Cerca das cinco horas comeu umas bolachas e uma lata de pssegos. Dos homens nem sombra.
Mas, uns dez minutos depois, viu-os l ao longe. Estava  espera, ao p dos avies, pronto a saltar para dentro do que escolhera mal vislumbrasse os homens.
Contou-os rapidamente. Oito! Haviam regressado todos. Subiu as escadas e entrou na cabina. Dirigiu-se  pilha de mantas e casacos e meteu-se por baixo delas, cobrindo-se
bem, de maneira a no ficar nem uma ponta do sapato de fora.
"Ainda bem que o dia est quente", pensou. " a maneira de eles no precisarem dos casacos e das gabardinas".
Ouviu as vozes dos homens. Era evidente que estavam contentes com o xito daquele dia. Depois fez-se silncio. Tinham passado pelos avies e continuado a caminho
da cabana.
"Devem ir comer para depois acondicionarem o que trouxeram das grutas do tesouro", pensou Filipe, bocejando. Assim deitado, ficara cheio de sono.
Depressa adormeceu, e to profundamente que nem se mexeu quando, horas mais tarde, os homens entraram no avio. Mas quando as hlices comearam a rodar e os motores
troaram, ento acordou, e por um triz que no se ps de p dum salto, com o susto.
Mas depressa se lembrou de onde estava e deixou-se ficar muito quieto, desejoso de saber se j seria noite, porque, debaixo de todos aqueles casacos, nada conseguia
ver. Pelo que sabia, tanto podia ser meia-noite como meio-dia.

- 210 -

Um por um, todos os avies levantaram voo. O de Filipe foi o ltimo. Sentiu-o descolar como um pssaro e l foram pelos ares.
"No deram comigo! Nem sonham que me levam a bordo!", pensou o rapaz radiante. "Afinal foi fcil. Viv--!"
Voltou a adormecer e os avies continuaram, de motores a troar, pela noite fora. Para onde iriam? Para um campo de aterragem secreto? Para um vulgar aeroporto?
Os outros pequenos tinham ficado a dormir c fora, sobre a rocha e ouviram o barulho dos avies. A noite estava to quente que parecia sufocarem l dentro, e, por
isso, pediram aos velhinhos que os deixassem trazer as mantas para fora.
- No so sonmbulos, pois no? - perguntou o velhote. -  que, se assim fosse, podiam cair da rocha abaixo.
- Nenhum de ns o  - respondeu Joo. - Esteja descansado que nada nos acontece.
Elsa, a velhinha, no queria que Maria da Luz dormisse na rocha e quase chorava quando a viu persistir na ideia. A Didi e a Marta tambm l ficaram. S faltava a
lagartixa. Mas essa estava com Filipe na mesma aventura.
O dia tinha sido horrvel para os pequenos. Os homens tinham-nos encontrado com os dois velhotes na "salinha", e haviam-lhes gritado e submetido a um interrogatrio,
assustando-os muito. O velhinho dissera-lhes que vivia nas grutas h muito, muito tempo, sempre de guarda ao tesouro, e os homens concluram que os pequenos tambm
l haviam estado sempre com eles.
- Ainda bem que no nos perguntaram como viemos ter a este vale - disse depois Joo. - Partiram do princpio de que viemos com os velhinhos h muito tempo.
O casal acorrera em socorro das suas queridas imagens quando os homens comearam a tirar-lhes as jias. Os homens bateram nos pobres e gritaram-lhes. O velho, ento,
retirara com a mulher, que tremia e chorava, e os pequenos envidaram todos os esforos por reconfort-los.

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No voltaram para o p dos homens. Foram sentar-se ao Sol, pensando em Filipe, se teria ou no conseguido fugir.
- Fugiu, com certeza - dizia Maria da Luz. - Os homens estiveram sempre todos juntos, e, por isso, foi fcil a Filipe escapar-se da gruta das imagens, quando eles
vieram interrogar-nos.
Os homens haviam retirado finalmente, levando com eles um monto de jias, uma imagem muito preciosa, uns quadros e alguns documentos antigos. Dois deles levaram
uma arca de ouro. Os pequenos puseram-se a imaginar as dificuldades por que iriam passar, subindo aqui, descendo ali, pela encosta da montanha abaixo.
Os homens voltaram a trancar a porta e o grupinho ficou novamente prisioneiro. No pararam de pensar no que teria acontecido a Filipe. Teria conseguido esconder-se
num dos avies? Iria meter-se num caixote? Quando partiriam os aparelhos?
Quando acordaram, de noite, com o rudo dos motores, ficaram a saber que os avies tinham partido naquele momento. Sentaram-se e ficaram  escuta. A Didi soltou
um grito e deu uma bicada a Marta para a acordar.
- L vo os avies - disse Joo. - Filipe deve ir num deles. Agora no tardaro a vir salvar-nos. Isso  que o Jaime vai ficar surpreendido quando ouvir contar tudo
o que nos aconteceu. Acham que vir c no avio dele?
- Oxal que sim - disse Maria da Luz veementemente.
- Estou desejosa de voltar a ver o Jaime. s vezes tenho a sensao de que vamos ter de ficar neste vale toda a vida.
- No sejas tola - respondeu Dina. " Didi, deixa a Marta em paz. Que ests tu a fazer para ela cacarejar assim?"
"Chhhhhhhhh!", fez a Didi, descarada.
"Nada de respostas!" disse Dina, voltando a deitar-se.
- Bem, estou contente por ter ouvido os avies. Boa sorte, Filipe, onde quer que estejas!

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- Boa sorte! - exclamaram os outros, e a Didi repetiu tambm:
"Boa sorte!"
"C-c-c-c!", fez a Marta como se quisesse fazer coro com eles.

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Captulo XXVII - UMA DESCOBERTA... E UMA BOA IDEIA


No dia seguinte todos os homens estavam de volta nos seus quatro avies. Depressa voltaram a entrar nas grutas do tesouro, examinando todos os livros e documentos
antigos, desenrolando dzias de telas e inspeccionando as pinturas. Foram novamente ter com o casal de velhos e com as crianas e voltaram a gritar com eles.
Tinham descoberto que algum estivera a comer na cabana deles e no percebiam como aquilo era possvel. No estavam todos os midos e os velhotes ali fechados nas
grutas?
Os pequenos, claro, perceberam logo que tinha sido obra do Filipe, mas nada disseram. Joo fez-se muito admirado e deu umas respostas tolas e Dina fez o mesmo. Maria
da Luz ps-se a soluar e os homens depressa desistiram de interrog-la.
Quanto aos velhinhos, ignoravam tudo. Nem pareciam terem dado pela falta de Filipe. Passado um tempo, os homens desistiram de os interrogar e voltaram ao trabalho.
Elsa ficou triste por ver Maria da Luz a soluar. Pegou-lhe na mo e levou-a para o "quarto". Uma vez l, tirou um quadro que estava colocado sobre uma salincia
da rocha e mostrou a Maria da Luz um espao que ficava por trs dele. Maria da Luz esbugalhou os olhos.
- Que  isto? - perguntou, e ps-se a chamar o irmo:
- Joo! Anda c e traz o velhinho contigo. Quero perguntar umas coisas, mas a senhora no percebe o que eu digo.
Vieram os dois e, quando Joo viu o buraco que ficava por trs do quadro, voltou-se para o velhinho e perguntou-lhe.
- Que  isto? Um esconderijo?

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-  um buraco na parede - respondeu o velhote. - A minha mulher no gostava dele e tapou-o com um quadro.
A velhinha ento largou a falar. Ele virou-se para Joo e explicou:
- A minha mulher est triste porque a sua irmzinha se assusta com aqueles homens. Por isso, diz que ela pode esconder-se neste buraco, que eles nunca mais a encontram.
- Deixe-me ver que tal  - respondeu Joo, entrando por ali dentro. Era mais do que um buraco. Era um tunelzinho redondo e escuro que fora outrora leito de curso
de gua. Onde iria ter? Se  que ele ia ter a alguma parte.
-  um tunelzinho! - gritou Joo de l de dentro. - Parece aquele que ia da nossa gruta para a gruta do eco. Vou ver se tem sada.
Rastejou durante certo tempo, mas, de repente, aquilo desceu tanto que, se no fosse to estreito, bem teria escorregado por ali abaixo. Terminava num buraco que
parecia ficar no tecto duma passagem muito maior. Joo acendeu a lanterna para ver melhor. Era verdade! L em baixo havia uma passagem. Voltou a rastejar at junto
das raparigas.
- Venham atrs de mim - disse ele. - Parece-me que encontrei maneira de escaparmos. Mas vamos precisar da minha corda.
Rastejaram em fila indiana at chegarem ao buraco que ia dar  passagem larga. Joo desatou a corda que trazia sempre  cintura, atou-a a uma rocha, deixou-a pender
para dentro da passagem, e l foi ele.
As pequenas seguiram-no. Joo acendeu a lanterna para iluminar tudo para um lado e para o outro. Depois perguntou:
- Por que lado havemos de ir?
- Ouo um barulho estranho - observou Maria da Luz. - Parece da queda de gua.
Desceram pela passagem fora guiados pelo rudo, e qual no foi a surpresa e o contentamento deles quando vieram dar  rocha que ficava por trs da queda de gua,

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aquela onde Maria da Luz e Dina haviam estado a saltar dias antes para prender a ateno de Firmino.
- Olhem! Esta  a rocha da queda de gua, e aquela  a passagem que vai dar outra vez  gruta do eco! - exclamou Joo. - At custa a crer! J podemos voltar para
a nossa querida gruta do feto sem termos de estar presos nas grutas do tesouro. Vamos buscar os velhotes para o p de ns.
Voltou por onde viera, trepou pela corda, rastejou pelo tunelzinho acima e veio sair ao quarto. Contou ao velhinho onde a passagem ia dar e disse-lhe:
- Venham comigo. Ns levamo-los para um stio seguro. O velhinho sorriu tristemente e respondeu:
- Ns no podemos fazer o que vocs fazem, como andar de gatas e trepar ou descer por cordas.  impossvel. Vo vocs, que ns ficamos aqui. Descansem que no dizemos
por onde foram. Voltamos a tapar o buraco com o quadro, e ningum descobrir coisa alguma.
Joo voltou para o p das raparigas, levando a Didi consigo.
-  pena no podermos trazer tambm a Marta - disse ele. - Afeioei-me  bichinha. Mas os velhinhos haviam de sentir a falta dela. Eles no se convencem a vir connosco.
E parece-me que tm razo, nunca seriam capazes de passar o tnel de rastos, deslizar pela corda e descer  gruta do feto. Vamos. Estou desejoso de voltar  nossa
gruta. Conseguimos escapar! Os homens vo ficar furiosos!
- Oxal no maltratem os dois velhinhos - disse Maria da Luz, em cuidado. - Ela era to simptica, to boazinha!
Desceram a passagem cheia de curvas e chegaram  gruta do eco onde a Didi os aborreceu gritando sempre e fazendo ouvir o eco de centenas de gritos muito aumentados,
que quase os ensurdeciam.
Passaram pelo tnel em forma de cano que ia dar ao fundo da gruta do feto e deixaram-se cair nas mantas que ainda l estavam estendidas.
-. O regresso ao lar - disse Joo, rindo. - Parece impossvel que algum sinta isto como regresso ao lar, mas eu sinto.

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Sentaram-se a descansar.
Por fim, Dina disse, pensativa:
- Ontem  noite aqueles homens devem ter levado os avies a qualquer parte, descarregado e voltado quase em seguida, para estarem de volta to depressa. Eu nem esperava
v-los hoje nas grutas. Tu ouviste os avies? Eu no.
- Nem eu. Mas o vento mudou, por isso talvez o som no viesse na nossa direco - admitiu Joo.
- At nem est tanto Sol.  capaz de vir chuva. E o vento est a soprar com fora.
- Temos de estar alerta para o caso de o Jaime e o Filipe c virem - recomendou Dina. - O Filipe no sabe que estamos aqui.
- Vocs duas importam-se que eu v esta tarde fazer uma inspeco  cabana dos homens? - perguntou Joo. - Pode, s vezes dar-se o caso de o nosso Trunfa no ter
conseguido escapar, ter sido apanhado e estar l preso.
- E eu que nem me lembrei disso! - exclamou Maria da Luz horrorizada. - Mas tu no ests convencido de que o apanharam, pois no, Joo?
- Nem por sombras - respondeu Joo, alegremente. - Mas sempre  bom certificarmo-nos. E o melhor ser eu ir agora, enquanto eles esto ocupados nas grutas.  verdade,
vocs repararam se l estavam os oito?
- Parece-me que sim - respondeu Dina, concentrando-se. - Mas no tenho a certeza. Tu lembras-te, Maria da Luz?
- No. Nem olhei para eles. Que gente antiptica!
- Deviam l estar todos - disse Joo. - Br-r-r-r-r! Isto  que o vento est hoje frio. Vou vestir mais uma camisola. At j, meninas, eu no me demoro!
E l foi pelo caminho, j seu velho conhecido, que ia dar  cabana dos homens. No supunha que Filipe tivesse sido apanhado, mas sempre era melhor certificar-se.
Inspeccionou tudo cautelosamente. A porta da cabana estava fechada. Joo foi at l e espreitou pela janela. Filipe no estava. Ainda bem!

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"O melhor ser dar uma espreitadela ao estbulo", pensou Joo. "Podem t-lo l amarrado".
E foi. Mas tambm ningum l estava. Que bom!
Veio uma rabanada de vento como as que tantas vezes fustigavam os vales montanhosos. Comeou a cair uma carga de gua e o pequeno correu para uma rvore. A rvore
era a mesma na qual se tinham escondido todos, uma grande rvore boa e espessa, que o abrigaria da chuva. Encolheu-se, muito encostado a ela, enquanto o vento assobiava
ali  volta.
E o assobio do vento era tal que o rapaz no ouviu passos que se dirigiam para l, mesmo por trs dele, nem viu a figura corpulenta de Firmino que ficara a olhar
admirado para o rapaz.
Num abrir e fechar de olhos Firmino contornou a rvore e deitou a mo aos ombros de Joo. O pequeno, com o susto, soltou um grito e Firmino segurou-o vigorosamente.
- Largue-me! - gritou Joo. - Selvagem, deixe-me! Est a dar-me cabo do ombro!
Firmino pegou num pau e, arreganhando os dentes disse:
- Vais ver como isto te faz bem. Vocs, midos, do-nos muito que fazer. Onde esto os outros? Ou me dizes j ou te ponho negro com pancada.
- Largue-me! - gritou Joo, dando um valente pontap no tornozelo de Firmino. O homem soltou um berro, com a dor, e assentou uma violenta paulada nas costas de Joo.
Este dirigiu-lhe um novo pontap.
 fcil adivinhar o que teria acontecido ao pequeno se no tivesse acontecido primeiro qualquer coisa a Firmino! O vento assobiava forte e abanou a rvore violentamente.
Ento qualquer coisa caiu de l de cima e veio acertar em cheio no ombro daquele homem furioso. Ele caiu logo, berrando e levando a mo ao ombro. Joo fugiu para
o vento. Depois virou-se para ver o que havia. Firmino tentava levantar-se, a gemer. O vento soprou outra vez mais forte e a enorme rvore voltou a cuspir outra
coisa que acertou na cabea de Firmino. Este caiu e no se mexeu mais.

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- "Olha!", exclamou Joo, pasmado. "Foram duas das malas que ns deixmos na rvore! Caram mesmo na hora H. Oxal no o tenham morto!"
Avanou cautelosamente at ao homem cado. No, morto no estava, encontrava-se apenas desmaiado. Imediatamente Joo viu uma oportunidade nica. Tirou a corda da
cintura, amarrou o homem de ps e mos e depois colocou-o junto da rvore.

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"Agora j no s capaz de vir atrs de mim, Firmino querido", comentou Joo, lanando um olhar para o cimo da rvore, no fossem as outras duas malas carem tambm.
"Os outros, pelos vistos, deixaram-te aqui hoje de guarda, uma vez que algum fora comer o que era deles. No vais hoje guardar grande coisa, no, mas tambm no
 preciso. A rvore abriga-te da
tempestade.
De repente teve uma ideia de tal maneira luminosa que at parou, de respirao suspensa. Depois bateu com a mo na testa
e gritou:
"Tenho de o fazer, tenho de o fazer! Resta saber se terei
tempo. Terei ou no?"
E ps-se a correr tanto quanto podia, ao vento e 
chuva.
"Mas, porque no me lembrei eu disto h mais tempo? Se eles estiverem nas grutas do tesouro posso trancar-lhes a porta, como eles nos fizeram a ns, e deix-los
l presos!
"Mas, porque no me teria lembrado disto h mais tempo? Agora  capaz de j ser tarde de mais".
Correu, correu, sem flego, estafado, quente como o fogo apesar do vento e da chuva.
"De nada serve. A estas horas j eles esto c fora", pensou. Estou aqui, estou a v-los. Mas, porque no havia eu de pensar nisto h mais tempo? Podia ter ido tranc-los
antes de deixar a Dina e a Maria da Luz.
A ideia era, sem dvida, esplndida. Os homens iam ficar ali presos. No sabiam que havia uma sada por trs do quadro e nunca se lembrariam de ir procur-la ali.
Os velhinhos no iriam dizer-lhes. Se, ao menos, eles ainda estivessem nas
grutas!
A chuva caa em torrentes e soprava um vento ciclnico. Felizmente estava agora nas costas de Joo, e ajudava-o. O rapaz estava molhado at aos ossos, mas no se
importava com isso.
No viu sinal dos homens. Ao chegar prximo da queda de gua abrandou a marcha. No lhe interessava correr at esbarrar neles. Ps-se a pensar com mais calma.

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"Talvez no saiam enquanto a chuva no parar e a tempestade no amainar. A chuva estragaria os livros antigos, os papis e os quadros. Esperam, com toda a certeza.
Pode ser que ainda chegue a tempo. Podem at ter decidido passar l a noite, se a tempestade no abrandar".
Joo acertou. Os homens, depois de terem espreitado  sada das grutas, tinham visto o vendaval, assolando a encosta, e decidiram no arriscar os tesouros que levavam.
Ficariam todos estragados.
- O melhor ser passarmos aqui a noite - alvitrou um deles. - Naquele quarto onde esto as mantas. Pomos os velhos e os midos c fora.
S l estavam os velhinhos, e quando os homens perguntaram pelos pequenos fizeram gestos vagos, apontando para a passagem que ia dar  rocha onde costumavam apanhar
o Sol.
Os homens instalaram-se em cima das mantas e um deles tirou um baralho de cartas da algibeira. Ps o candeeiro de maneira a que todos pudessem ver e comeou a baralhar.
Os velhinhos foram para a "salinha", tristes e assustados. S esperavam que os homens no espreitassem por trs do quadro.

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Quando Joo chegou s grutas do tesouro quase no tinha pernas para percorrer as vrias passagens. Atravessou cambaleante a gruta das estalactites e a das estrelas
e entrou na primeira gruta do tesouro, transpondo a porta que ficava ao fundo da escada em caracol. Nenhuns homens viu e comeou a desanimar. Ter-se-iam ido embora?
Ter-se-iam desencontrado?
Avanou cautelosamente. Quando chegou  salinha, espreitou e viu que o casal estava l com a Marta, a galinha.
Ento, ouviu o barulho dos homens no quarto ao lado. Fez sinal aos velhinhos. Estes levantaram-se silenciosamente e seguiram-no admirados. Joo no falou enquanto
no se convenceu de no ser ouvido pelos homens.
- Venham - disse ele, fazendo-os sair da gruta das imagens e transpor a porta macia. - Vou trancar aqui os homens, mas no quero deixar os senhores tambm c fechados.
E, triunfante, colocou as trs trancas. Conseguira! Conseguira!


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Captulo XXVIII - DEPOIS DA TEMPESTADE


Assim que acabou de colocar as trancas Joo caiu desmaiado. A luta com Firmino, a longa corrida ao vento e  chuva e a tremenda excitao de pensar que ia prender
os homens, tinham sido de mais para ele. Caiu nos degraus fora da porta trancada e ali ficou.
Estava escuro. Assustados, os velhinhos procuraram Joo s apalpadelas. Que teria acontecido ao pobre rapazito?
Encontraram-lhe a lanterna na algibeira e tiraram-na para fora. Acenderam-na e olharam aflitos o rosto plido de Joo e os seus olhos fechados. Tentaram arrast-lo
pelas escadas acima.
- Tem a roupa toda molhada - disse a velhinha, apalpando a camisa e os cales de Joo, que estavam todos encharcados. - Vai apanhar um resfriado e um resfriado
grande. At  capaz de morrer. Que havemos ns de fazer, homem?
O velhinho respondeu-lhe na lngua dela:
- Arrastamo-lo pelas escadas acima e instalamo-lo na gruta das estrelas. Tu embrulha-lo no teu xaile e eu ponho-lhe o meu casaco.
Reunindo todas as foras, os velhinhos conseguiram arrastar Joo pelas escadas acima, arquejando e gemendo. Mas no conseguiram ir alm dali. O velho, ento, tirou
as roupas molhadas a Joo e ps-lhe o casaco dele. A velhinha embrulhou-o no seu espesso xaile. Torceram-lhe as roupas molhadas e penduraram-nas na parede rochosa
para secar.
Estavam assustados. Que iriam fazer agora? Os homens estavam fechados nas grutas com o que ainda restava do seu precioso tesouro.

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Iam ficar furiosos quando descobrissem o que tinha acontecido.
Joo depressa voltou a si. Sentou-se sem saber onde estava. Estivera meio desmaiado, meio a dormir. Apalpou as roupas. Mas que trazia ele vestido? Um xaile? Dar-se-ia
o caso de estar ainda vestido de esttua?
Os velhinhos ouviram-no mexer-se e voltaram a acender a lanterna. Olharam-no cheios de ansiedade e ficaram aliviados por ver que j no estava to plido.
- Est melhor? - perguntou o velhinho com bondade.
- Obrigado, estou bem - respondeu Joo, puxando pelo xaile. - Mas que  isto?
- As suas roupas estavam muito molhadas - explicou o velhinho. - Tivemos de lhas tirar para secar, seno apanhava um resfriado perigoso. O que tem vestido so o
meu casaco e o xaile da minha mulher.
- Ah! Muito obrigado - disse Joo, sentindo-se um tanto ridculo com o casaco e o xaile. - Desculpem o susto que lhes preguei. Fui-me abaixo. Deve ter sido da corrida
pela montanha acima. E que tal a minha ideia de fechar ali os homens?
- So capazes de nos fazer mal quando derem por isso - disse o velhinho tristemente.
- Impossvel! - exclamou Joo. - No v que esto do lado de dentro duma porta trancada por fora? No se aflijam que nada nos acontece.
Levantou-se. No tinha as pernas muito firmes mas era capaz de andar. Disse ento aos velhinhos:
- Vou s at  entrada das grutas para ver se, por acaso, aquela horrvel tempestade e ventania j abrandaram. Se assim for j poderei ir at  gruta do feto, onde
esto as raparigas. Devem estar assustadssimas.
L foi, meio trpego, at  entrada. As nuvens eram to negras e estavam to baixas que parecia noite. A chuva continuava a fustigar a encosta em catadupas. Era
impossvel sair.
"Perder-me-ia logo", pensou Joo. "As raparigas vo ficar preocupadssimas comigo. Oxal no tenham medo de estar sozinhas.

- 225 -

Mas nem adianta pensar nisso. Tenho de passar aqui a noite com os velhinhos, embora no possamos ficar muito bem instalados.
No ficaram mesmo nada bem. Arranjaram um lugarzinho na gruta das estrelas, uma espcie de bacia cavada na rocha com muito poucas arestas. Para se conservarem quentes
aconchegaram-se uns aos outros. Joo tentou convencer os velhinhos a voltarem a receber o casaco e o xaile, dizendo que as roupas dele estavam quase secas, mas a
velhinha ficou muito zangada quando ele sugeriu semelhante coisa e ralhou muito ao marido com palavras que Joo no compreendeu, mas cujo significado adivinhou.
- A minha mulher diz que est a ser um menino muito mau. A falar em vestir roupas molhadas! - disse o velho. - Juntemo-nos bem uns aos outros. A gruta no  fria.
Realmente no estava frio ali. Joo ficou entre o velhinho e a mulher, de olhos fitos no tecto daquela estranha gruta. Deixou-se estar a ver aquelas curiosas estrelas
azuis-esverdeadas, que acendiam e apagavam, tremulavam e brilhavam. Eram s centenas e deslumbravam a vista. Joo ficou bastante tempo a pensar nelas e por fim adormeceu.
De manh, os velhinhos foram os primeiros a acordar. Sentiam o corpo dormente e pouco confortvel, mas nem se mexeram, com receio de incomodarem Joo. Este, por
fim, l acordou e levantou-se. Viu-se rodeado de estrelas brilhantes e lembrou-se logo onde estava.
- Que horas sero? - disse ele, olhando para o relgio. - J sete e meia! S gostava de saber o que estaro aqueles homens a fazer. As minhas roupas j tero secado?
Felizmente estavam secas. Joo vestiu-as rapidamente e restituiu o casaco e o xaile com calorosos agradecimentos.
- Agora fiquem aqui s um bocadinho, que eu vou at  porta trancada ver se ouo alguma coisa - disse ao casal velhinho.
L foi, sentindo-se j completamente seguro de si. Assim que chegou ao cimo das escadas de caracol que iam dar  porta de carvalho

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ouviu logo muitas pancadas. Pelos vistos os homens j haviam descoberto que estavam trancados.
Trs, trs, trs, trs!
Batiam na porta macia com quanta fora tinham. Isso  que eles gritavam, barafustavam, davam pontaps na porta e tentavam arromb-la!
Joo deixou-se ficar no alto das escadas com um sorriso de satisfao. Era bem feito! Voltava-se o feitio contra o feiticeiro. Tinham fechado os pequenos l dentro
e agora os presos
eram eles.
De repente, ouviu-se um estampido que fez Joo dar um salto para trs. Era um tiro de revlver. Os homens estavam a disparar para a porta na esperana de rebentarem
as trancas.
Pum! Pum! Pum!
Joo afastou-se um pouco, com receio de que uma bala conseguisse furar a madeira e viesse acertar-lhe. Mas era impossvel. Pum! Pum!
As trancas no rebentavam. Os homens deram mais umas pancadas na porta com qualquer coisa depois pararam. Joo foi a correr contar tudo ao casal dos velhos.
Mas eles ficaram assustados. Por isso, no se divertiu com o relato dos acontecimentos. Ento, disse o velhinho:
- Parece-me que o melhor ser lev-los para a gruta do feto, onde esto as raparigas. L teremos de comer e mantas.
Venham comigo.
Mas os velhinhos no arredaram p daquele lugar que conheciam to bem. O ar livre, a encosta, o mundo exterior atemorizavam-nos. Recusaram, e nada houve que Joo
dissesse que os conseguisse fazer mudar de ideias.
- Bem, eu tenho de ir ter com as raparigas - disse ele por fim. - Trago-as c com comida e mantas. Podemos continuar juntos. Os homens j no representam um perigo
para ns. No conseguem sair de onde esto. Mesmo que descubram o buraco que est por trs do quadro, no acredito que consigam ir alm da gruta do eco.
Despediu-se dos velhinhos assustados e saiu para o Sol.

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Que delcia, sentir aquele calorzinho na cabea e nas costas. O cu estava outra vez azul e o vento desaparecera.
Dirigiu-se para a queda de gua e chegou l sem se enganar, porque agora j sabia seguir os pontos de referncia com toda a facilidade. As raparigas saudaram-no
mal o viram. Estavam  espreita por entre o feto.
- Joo! No voltaste a noite passada!  Joo! No consegui dormir quase nada, sempre a pensar no que te teria acontecido - exclamou Maria da Luz.
- Que aconteceu? - perguntou Dina, que tambm estava bastante plida. Tambm ela estivera em cuidado, sobretudo quando estalara a tempestade.
- Muita coisa! - respondeu Joo. - Trago novidades estupendas! As melhores do mundo.
- Srio? Ento o Filipe voltou, foi? E o Jaime tambm veio? - exclamou logo Maria da Luz.
- Bem, no so essas as novidades que trago - respondeu Joo. - Sabem o que eu fiz? Tranquei os homens nas grutas. Que dizem a isto?
- Que ideia formidvel! - exclamaram as duas.
- E os velhinhos? - perguntou Dina.
- Trouxe-os c para fora primeiro - respondeu Joo.
- E encontrei o Firmino ao p do estbulo e amarrei-o de ps e mos. Ficou junto daquela rvore grande onde nos escondemos uma vez.
- Joo! s extraordinrio! - exclamou Maria da Luz.
- Lutaste com ele, foi?
- No foi bem isso - confessou Joo. - Ele apanhou-me, e eu dei-lhe uns pontaps valentes. Foi ento que o vento soprou com muita fora e duas malas das nossas caram
da rvore e deitaram-no por terra. Eu fiquei to surpreendido como ele.
-  verdade! Ns realmente deixmos l as malas! - disse Dina. - Oh, Joo! Que sorte terem l ficado!
- O Firmino no deve ter passado muito bem a noite. - prosseguiu Joo. - S teve o vento e a chuva a fazerem-lhe companhia.

- 229 -

Contou-lhes que deixara os velhos na gruta das estrelas e que os homens, furiosos, tinham querido arrombar a porta.
- No consigo convencer os velhinhos a sarem das grutas - disse ele. - Por isso, o melhor ser levarmos comida e as mantas para l, para lhes fazermos companhia.
Ontem  noite emprestaram-me o casaco e o xaile deles porque a minha roupa estava toda encharcada. No podemos deix-los l sozinhos, sem comida e sem terem onde
dormir.
- Que pena! Gosto desta gruta mais do que de qualquer outra parte - suspirou Maria da Luz. - Mas realmente os velhinhos foram to bons para ns! Tambm l est a
Marta, Joo?
- Ora esta! E eu que me esqueci dela por completo - respondeu Joo, lembrando-se nessa altura. - Oxal os homens no a matem para a comerem.
Este horrvel pensamento deixou a pobre Maria da Luz calada durante um ou dois minutos. Pobre Marta. Iriam os homens deix-la em paz?
A Didi ficara muito contente por ver Joo como as pequenas. Aninhou-se-lhe no ombro, emitindo murmrios ternos enquanto ele falava, dando-lhe bicadinhas na orelha
e levantando-lhe os cabelos. Joo coou a cabea  catatua, tambm contente por t-la consigo outra vez.
As raparigas juntaram umas latas e Joo ps as mantas ao ombro. Depois, com a Didi voando  frente, partiram para seguirem os j familiares pontos de referncia
at s grutas do tesouro. O Sol estava quente e o dia ficara realmente maravilhoso.
- Gostava imenso de desenhar um plano do caminho que vai desde o buraco, por trs do quarto, at  nossa gruta do feto - disse Dina. - Esta montanha est crivada
de buracos e grutas. Isto  que a queda de gua est hoje barulhenta! E parece maior do que nunca. Deve ter sido da chuvada desta noite.
Chegaram finalmente  entrada das grutas e entraram. Dirigiram-se para a gruta das estrelas e o velho casal saudou-os calorosa e alegremente. A velhinha ficou radiante
por voltar a ver Maria da Luz e encheu-a de carcias.

- 230 -

- Tenho fome - disse Maria da Luz, tentando libertar-se dos braos de Elsa. - Tenho muita fome.
Todos tinham. A gruta das estrelas era um lugar um tanto
estranho para se comer.
Os pequenos ficaram a ver aquelas luzinhas tremulantes a brilhar, encantados com elas. Se ao menos se pudesse levar umas para casa para pr no tecto do quarto!
Foi o que voltou a desejar a Maria da Luz ao ver aquelas
estrelas a brilhar.
- Bem, agora o que h a fazer  esperar - afirmou Joo, ajeitando as mantas de maneira a que todos se pudessem sentar to confortavelmente quanto possvel. - Agora
est tudo nas mos de Filipe.  evidente que aqueles homens no sabem que ele se escondeu num avio, seno tinham dito alguma coisa. Deve ter-se escapado sem novidade.
S gostava de saber o que estar ele a fazer.

- 231 -


Captulo XXIX - UMA ESTRANHA VIAGEM


Mas vejamos o que acontecera a Filipe. Estava realmente em plena aventura.
Dormiu no avio debaixo do monte de casacos e mantas at de madrugada. Ento, o avio aterrou, tocando no solo com as rodas enormes. Filipe acordou imediatamente.
Fez um buraquinho por entre as mantas, para espreitar, e ficou a ver o que faziam os dois homens do avio. Tratavam de sair. Que sorte nem sequer terem examinado
o aparelho ou tirado um casaco do monte!
L fora estavam mais homens, que saudaram os recm-chegados. Filipe levantou-se, tentando perceber o que diziam. Mas falavam em parte numa lngua estrangeira, e
havia tanta confuso que era impossvel perceber-se fosse o que fosse.
Olhou  sua volta, por todo o avio, e viu que estava agora l um caixote com um oleado mal amarrado. Filipe tentou ver o que havia l dentro. Toda metida em palha
estava uma das imagens, com certeza de muito valor.
Filipe espreitou cautelosamente pela janela do avio, uma vez que as vozes dos homens haviam cessado. Onde estariam eles? Poderia sair sem ser visto e fugir para
pedir socorro?
Mas ficou admirado com o que viu. Os avies, aqueles e mais outros, estavam numa plancie coberta de erva, e em frente e a toda a volta, havia mar. A toda a volta.
Quer dizer que estavam algures numa ilha.
Sentou-se e ficou um momento a pensar. Aqueles homens eram uns patifes. Deviam estar a negociar com tesouros escondidos e possivelmente esquecidos durante a ltima
guerra, tinham avies prprios e um campo de aterragem secreto.

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Nada seria melhor para isso do que uma ilha solitria, talvez nas costas da
Esccia.
"Ento, devem ter barcos a motor ou lanchas prprias para levar a mercadoria", pensou Filipe. " o que se chama uma quadrilha organizada. Nunca mais conseguirei
sair daqui sem que me vejam, nunca. Se  uma ilha, como realmente parece, estou to preso aqui como estava nas grutas do tesouro. Bolas!" Foi ento que lhe veio
 lembrana a ideia de Dina. E se se escondesse no caixote? Aquela imagem seria, com certeza, posta a bordo dum barco e mandada para qualquer parte para ser vendida.
Seria possvel seguir com ela?
Voltou a espreitar para ver onde estariam os homens. Estavam, com certeza, a comer e a beber numa barraca que ficava um pouco afastada dali. Filipe calculou que
devia ter pelo menos meia hora para agir.
Alargou ainda mais o oleado. Descobriu que o caixote estava fechado com um ferrolho. Puxou-o e todo um lado se abriu, como uma tampa lateral. Comeou a cair palha.
A imagem estava l dentro, com palha pouco apertada  volta. Filipe pensou que devia ser a esttua de qualquer santo antigo. Olhou bem para ela. Seria feita de ouro?
Parecia. Mas isso no importava. Ia ficar onde Filipe estivera, debaixo do monte de mantas e casacos, e Filipe ia ocupar o lugar dela.
No foi muito difcil tirar a imagem da palha, mas depois de c estar fora revelou ser bem pesada. Filipe quase ia caindo com o peso, apesar de no ser maior do
que ele.
Arrastou-a at ao monte de agasalhos. P-la por baixo de tudo e colocou-lhe as coisas em cima, de maneira a que nada ficasse de fora. Depois apanhou todos os bocadinhos
de palha e meteu-os, com todo o cuidado, outra vez no caixote.
Restava-lhe a tarefa de se encafuar na palha. A esttua deixara l um buraco e Filipe colocou-se no mesmo stio. Puxou a palha com todo o cuidado e fechou a tampa
lateral. S no conseguiu fechar o ferrolho e teve de o deixar assim esperando qUe, se os homens o vissem aberto, pensassem simplesmente que cara por acaso.

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Estava muito quente na palha e Filipe comeou a assustar-se com receio de, passado tempo, no ser capaz de respirar. Ento, fez um tunelzinho que ia da boca e do
nariz at fora da palha e sentiu-se melhor.
Estava no caixote h cerca de um quarto de hora quando chegaram dois homens numa carroa. Descarregaram todos os avies. Fizeram deslizar com todo o cuidado o caixote
onde estava Filipe para fora do avio, e, quando a tampa se abriu, puseram o ferrolho com todo o cuidado. Nem por momentos lhes passou pela cabea que l estivesse
um rapaz vivo em vez de uma imagem silenciosa.
O caixote de Filipe foi colocado na carroa com outras coisas. A carroa seguiu depois na direco do mar, saltando por sobre os sulcos do caminho. Filipe foi sacudidssimo.
A palha fazia-lhe ccegas e picava-o todo. Quase no conseguia respirar.

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Mas nem se importava. Em breve estaria a bordo dum barco e seria levado para algures no continente. Ento fugiria e iria  Polcia. Por isso, ali ficou, com toda
a pacincia, tentando esquivar-se s picadas agudas da palha, mexendo-se de vez em quando.
No caixote era impossvel ver-se fosse o que fosse. No pde seno calcular que a carroa chegava a um pequeno molhe, ao lado do qual estava amarrada uma lancha.
Depois foi levado para bordo e arrumado num convs baixo.
Pumba! Filipe susteve a respirao porque fora sacudidssimo. Ao lado dele arrumaram mais coisas. Depois veio o barulho de vozes e ordens. O motor da lancha comeou
a trabalhar e Filipe sentiu que a embarcao deslizava suavemente pela gua fora. L iam!
"Estes homens no perdem tempo", pensou Filipe. "No deixam que as coisas lhes fiquem nas mos por muito tempo. Quem comprar tudo isto?"
A viagem at ao continente, onde quer que ele fosse, foi longa. Filipe estava agora mais do que certo de que o campo de aterragem dos avies ficava em qualquer ilha
solitria. Por fim, a lancha abrandou a marcha numa espcie de porto e parou. Imediatamente vieram descarreg-la.
O caixote foi manuseado um tanto descuidadamente, e duma vez o pobre Filipe chegou a estar meio minuto de pernas para o ar. Isso foi o pior de tudo. Chegou a pensar
que ia ter de gritar por socorro. Mas, precisamente quando estava j certo de que no podia suportar mais aquilo, sentiu que o caixote fora novamente colocado num
carro ou camio que partiu quase imediatamente.
Passados momentos parou. Filipe ouviu uma mquina apitar e o corao saltou-lhe de alegria. Devia estar numa estao de caminho de ferro. Talvez o colocassem no
furgo ou num comboio de mercadorias. Ento seria fcil escapar-se. Anteriormente no havia ousado faz-lo porque estava convencido de que todos os homens que pegavam
no caixote eram cmplices dos outros.

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Mas no o puseram em nenhum comboio. Deixaram-no num ptio juntamente com outras mercadorias que deviam seguir num comboio mais tarde. Apurou o ouvido para ver se
dava conta da retirada do camio. Ento, pensou, poderia sair sem receio.
Esperou cerca de vinte minutos. Depois comeou a tentar sair dali. Mas no conseguia fazer saltar o ferrolho. Que maada!
Ento gritou:
"Eh! Eh! Socorro!"
Um carregador que estava ali perto assustou-se e ps-se a olhar para todos os lados. Ningum se via a no ser um passageiro solitrio que esperava pelo prximo comboio
e outro carregador no cais do lado de l.
Filipe voltou a gritar:
"Eh! Eh! Ajudem-me a sair!"
O carregador ficou assustadssimo. Olhou para o passageiro que estava ali  espera. Teria tambm ouvido os gritos ou no seriam mais do que imaginao sua?
O passageiro tambm ouvira e ficara da mesma maneira alarmado.
- Parece que est algum aflito no sei onde - disse o homem, caminhando na direco do carregador. - Parece que  ali naquele patiozinho.
- Mas ali no est ningum - disse o carregador, olhando para o ptio.
"Eh! Depressa, deixem-me sair!", voltou a gritar a voz de Filipe, com quanta fora tinha e, para cmulo do terror do passageiro e do carregador, o grande caixote
comeou a abanar violentamente.
- Est gente ali dentro! - exclamou o carregador, correndo para l. Com dedos trmulos, tirou o ferrolho e Filipe saiu, com palha na cabea, no pescoo, em todo
ele, e muitssimo excitado.
- Tenho de ir j a uma esquadra da Polcia - clamou Filipe. - Agora nada posso explicar. Onde fica a esquadra?

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- Ali - gaguejou o carregador, apontando para um pequeno edifcio quadrado que ficava a uns cem metros da estao. - Mas... mas... mas...
Filipe deixou-o, mais os seus "mas", e largou a correr para a esquadra da Polcia, radiante por ter conseguido escapar. "Tinha feito tudo muito habilmente", pensou.
Entrou pela esquadra dentro, pregando um grande susto ao polcia que l estava.
- Tenho uma coisa muito importante para relatar s autoridades - disse Filipe. - Quem  aqui o chefe?
- Eu sou o guarda daqui - respondeu o polcia. - Quem  o menino e que deseja? Pode relatar-me tudo.
- Precisava de telefonar - disse Filipe, pensando que seria bom pr-se imediatamente em comunicao com Jaime. -  capaz de me pedir uma chamada?

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- Espere, espere. No se pode servir dos telefones da Polcia sem uma boa razo - disse o polcia, comeando a pensar que este rapazinho coberto de palhas no estava
bom da cabea.
- Qual  o seu nome e morada?
- O meu nome  Filipe Mannering - respondeu Filipe impaciente. - Por favor no me prenda. Tenho coisas muito importantes a relatar.
O nome chamou logo a ateno do polcia.
- Filipe Mannering? Ora escute: o menino  uma das crianas desaparecidas? J h dias que desapareceram quatro. O menino  alguma delas?
Tirou uma folha da gaveta e consultou-a. Depois, estendeu-a a Filipe. O rapazinho ficou admirado ao ver uma fotografia dele, de Maria da Luz, de Joo e Dina, sem
esquecer a Didi, no cimo do jornal, e os nomes e descries por baixo.
- Olhe, sou este - disse ele, apontando para a fotografia-, Filipe Mannering. E quero comunicar imediatamente com o Jaime Smugs, quero dizer, Cunningham.  um assunto
muito importante.
O polcia, ento, agiu rapidamente. Pegou no auscultador do telefone e pediu muito alto um nmero. A ligao foi imediatamente feita e viu-se que ele comunicava
com algum de importncia.
- Veio aqui ter uma das crianas desaparecidas, Filipe Mannering. Diz que tem qualquer coisa a relatar ao inspector detective Cunningham. Sim, senhor. Com certeza.
Depois virou-se para Filipe.
- Os outros esto com o menino?
- No, mas esto bem. Deixei-os bem - respondeu Filipe.
- Eu fugi e preciso que me ajudem a libert-los. Posso falar com o Jaime Cunningham?
O polcia continuou a falar ao telefone.
- Os outros no esto com ele, mas esto bem. Mandem dizer isto mesmo  Sr.a Mannering. Ainda vai haver mais novidades. Quando chegar c o inspector?

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O polcia desligou e ficou a olhar para Filipe com ar satisfeito. Pensar que o empolgante caso das "Crianas desaparecidas" ia ser relatado na esquadrazinha dele!
- Onde estamos? - perguntou Filipe de repente. - Como
se chama esta terra?
- Ento no sabe? - perguntou o polcia, admirado. - E
Gairdon, na costa nordeste da Esccia.
- J calculava que devia ser por a -respondeu Filipe. - Lamento nada poder contar-lhe, Sr. Guarda, mas parece-me que o melhor ser esperar pelo Jaime.
Jaime veio... de avio! Aterrou no aerdromo mais prximo, meteu-se num carro da Polcia e chegou a Gairdon em duas horas. Estava tudo a correr bem. Filipe ouviu
o carro e correu ao encontro dele.
- Jaime! J sabia que havia de vir!  Jaime, tenho as novidades mais espantosas para contar. Nem sei por onde hei-de principiar.

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Captulo XXX - JAIME ENTRA EM ACO


Jaime saiu rapidamente do carro, agarrou Filipe pelo brao e examinou-o de perto, perguntando-lhe:
- Ests bem? Esto todos bem? A tua me tem andado de cabea perdida com a aflio.
- Estou ptimo, Jaime. E os outros tambm. Mas fomos cair na aventura mais extraordinria que possa imaginar-se - respondeu Filipe. - Tenho de contar tudo depressa,
porque  preciso agir imediatamente. Sabe...

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- Entra aqui para a esquadra - disse Jaime. Filipe seguiu aquele homem corpulento, satisfeito por lhe ouvir a voz decidida e lhe ver o rosto inteligente e forte.
Depressa contou toda a histria. Jaime ouviu tudo muito admirado, lanando de quando em quando uma pergunta rpida. Quando Filipe contou que tirara a esttua do
caixote, se colocara no lugar dela e fora levado para a estao, desatou a rir
 gargalhada.
- Vocs so uns garotos nunca vistos! No sei que mais lhes resta fazer. Batem-me aos pontos! Mas, agora, fora de brincadeiras, isto tudo, Filipe,  espantoso. Os
homens com quem vocs esto metidos so precisamente aqueles atrs de quem eu ando j h tempo. No conseguamos descobrir o que eles andavam a tramar, embora soubssemos
que no andavam a fazer coisa boa.
- Srio? - perguntou Filipe, admirado. - A propsito, Jaime, naquela noite em que era para irmos consigo e nos enganmos no avio, ouvimos tiros. Tinham alguma relao
com
isto?
- Pois tinham - respondeu Jaime, de sobrolho carregado.
- Acontece que se avistaram ali dois homens, que foram detidos. Mas conseguiram fugir, disparando uns tiros, foi isso que vocs ouviram. Um ia-me acertando numa
perna. Sempre te digo que ficamos bem contentes por lhes deitarmos a mo e termos elementos para os condenar. So uns patifes, muito espertos, sul-americanos relacionados
com antigos nazis que lhes revelaram o paradeiro de muitos dos tesouros perdidos ou escondidos na Europa. No sei se sabes que muitos deles nunca chegaram a ser
descobertos.
- Eu s queria que visse as nossas grutas do tesouro!
- disse Filipe. - A propsito, est aqui um livro de notas que surripiei do casaco de um dos homens.
Estendeu-o a Jaime. Este folheou-o e ficou boquiaberto
com o que viu.
-  espantoso! Formidvel! Um cdigo, o cdigo que aqueles patifes usam e uma lista de todas as pessoas metidas nesta tramia,

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com as moradas delas em cdigo.  Filipe, mereces uma condecorao! Isto foi uma descoberta sensacional. Vamos poder caar a quadrilha toda.
Filipe ficou muito contente por ver Jaime assim satisfeito. Jaime levantou-se e foi para o telefone. Fez algumas chamadas curtas e precisas. Filipe ouviu tudo mas
no percebeu grande coisa. S esperava que Jaime no tardasse muito a partir para salvar os outros. Com que ansiedade o deviam esperar.
Por fim Jaime pousou o auscultador.
- Vai o meu avio e mais outro, e vamos doze homens, contando comigo - anunciou ele. - Partimos daqui ao meio-dia.
- Eu tambm vou, no vou, Jaime? - perguntou Filipe ansiosamente.
- Parece-me que o melhor ser ficares para ires ver a tua me - respondeu Jaime. - Alm de que deve haver um bocado de barulho quando l chegarmos.
Filipe olhou-o cheio de indignao:
- Jaime! Eles vo l estar todos, o Joo e as raparigas, e a mim pe-me de parte? J no se lembra que fui eu quem veio at c...
- Pronto, pronto, pequeno - interrompeu Jaime. - Tambm vens. Sabe-se l em que aventura te meterias se eu te deixasse c ficar!
Filipe ficou logo mais animado. Tirou a Tixa da algibeira e apresentou-a a Jaime.
- D-me licena que lhe apresente a nossa bicha Tixa - disse ele, e a Tixa correu para um joelho de Jaime.
- Essa parece a didi - respondeu Jaime. - Bicha Tixa! Mas que nome para uma lagartixa.
- Aqui nada h que se coma, pois no? - perguntou Filipe, ansioso por saber se haveria alguma coisa que se pudesse comer numa esquadra da Polcia. - Tenho petiscado
uns bocados de chocolate, mas mais nada.

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- Eu estava agora mesmo a pensar que tinha de pedir ao nosso bom guarda daqui que nos arranjasse uma boa e rpida refeio - disse Jaime. - Podamos tambm ir ao
hotel, mas tu, de momento, no ests muito apresentvel. Parece que te semearam palha dos ps  cabea. Por isso comemos aqui um bom almoo e depois vamos ver se
conseguimos pr-te limpo e escovado.
Enquanto comiam, levantou-se vento. Jaime espreitou para fora da janela e disse:
- Oxal este vento abrande. Parece que vem a uma tempestade.
Jaime acertara. Pouco antes da hora marcada para sarem no carro na direco do aeroporto tocou o telefone. Jaime atendeu. Escutou gravemente a comunicao e depois
dirigiu-se a Filipe.
- Est previsto um vendaval. Receio que no possamos ainda partir, Filipe. O tempo est muito mau para onde queremos ir.
- Que aborrecimento! - exclamou Filipe, desolado e inquieto. - Os outros vo ficar muito preocupados por esperarem tanto tempo.
- Pois vo - respondeu Jaime. - Mas o aeroporto no manda avisos destes sem razo. Parece que esto  espera dum daqueles furaces sbitos que obrigam um avio a
voar completamente s cegas. No pode dizer-se que seja muito divertido. Vamos ter de esperar um bocado.
Filipe ficou preocupado. Era horrvel se aqueles homens voltassem ao vale primeiro do que ele e se apoderassem dos outros. E, por outro lado, gostava tanto que Jaime
os apanhasse em flagrante!... Que entrasse antes deles e esperasse que viessem buscar o resto do tesouro.
-  verdade, Jaime, como sabe para onde h-de ir? - perguntou ele de repente. - Eu no sei que vale era, nem onde ficava. S sei que  na ustria. Foi o que disseram
a Elsa e o velhinho.

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- Est tudo ali indicado naquele lindo livrinho que tu me deste - respondeu Jaime - juntamente com outros lugares onde tambm podero encontrar-se tesouros escondidos.
Aquele livrinho veio revelar-me muita coisa que eu ansiava por saber, Filipe.
Jaime sacou dum mapa e mostrou a Filipe onde ficava o vale.
- Passou um mau bocado durante a guerra - explicou
- e a nica passagem que lhe dava acesso foi bombardeada. Ainda no a desobstruram, que eu saiba. Havia uns planos para que a desobstruo se fizesse este ano.
Um homem chamado Julius Muller, aquele a quem te mandaram dirigir, tem estado a tentar obter licena necessria para isso, para depois l entrar.
- Gostava de saber o que aconteceu ao Otto - disse Filipe.
- O prisioneiro deles, lembra-se?
- A morada dele est tambm no livro - disse Jaime.
- J pedi que me dessem notcias. Estou convencido de que no devem tardar.
Acertou. Naquela tarde o telefone tocou e informaram Jaime de que Otto Engler havia sido encontrado inconsciente  entrada dum hospital. Quase morrera com um ataque
de corao mas agora estava melhorando lentamente, embora no pudesse ainda falar.
- Aqueles selvagens devem t-lo torturado e obrigado a contar-lhes onde ficavam exactamente as grutas do tesouro
- esclareceu Filipe. - Depois voltaram a traz-lo e abandonaram-no na rua, doente e atemorizado.
-  muito possvel que fosse assim - concordou Jaime.
- No iam estar com grandes escrpulos.
O telefone voltou a tocar e Jaime atendeu novamente.
- O vendaval est a aumentar - disse ele a Filipe. - Temos de adiar a nossa viagem para amanh. Pena  que a tua me esteja to longe seno podamos dar l uma saltada
para a ver. Tenho estado a tentar ligar para ela, mas ainda no consegui.

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Filipe falou realmente com a me naquela tarde, embora por uns escassos trs minutos. A Sr.a Mannering ficou to comovida por lhe ouvir a voz que quase no conseguiu
dizer palavra. Contudo Filipe tinha imenso que contar, mas teve de ficar a meio da narrativa porque cortaram a ligao.
O dia seguinte amanheceu belo e quente. O vento quase desaparecera. Parecia ter gasto a energia toda durante a noite que fora realmente tempestuosa e agitada. Filipe
acordara uma ou duas vezes e ficara contente por no terem ido de viagem, porque estava uma verdadeira tempestade.
Dormira numa cama confortvel, colocada numa cela da esquadra. Foi mais uma experincia nova.
- Foi a primeira vez que eu passei uma noite na priso - disse ele a Jaime.
- E espero que seja a ltima - respondeu Jaime. - A priso no  um lugar agradvel, meu filho.
Trouxeram o carro de Jaime at  porta. Era grande, vistoso e rpido. Ele e Filipe entraram. Jaime ps o motor a trabalhar e l foram. Vinte, trinta, quarenta, sessenta,
oitenta, cem e mais. Filipe estava encantado!
- Isto  que ele anda - comentou. -  engraado como um carro parece muito mais rpido do que um avio quando se est l dentro. Sente-se mais a velocidade.
Chegaram finalmente ao aeroporto. L estava o avio de Jaime com a hlice rodando rapidamente. Ao lado dele estava outro muito parecido. Onze homens, que esperavam
ao p deles, saudaram Jaime.     ..
- Entra para o meu avio - disse ele a Filipe. - Tenho de falar aqui com os meus homens.
Disse o que queria e depois entrou. Cinco dos homens entraram no avio de Smugs e seis no outro. Comearam a fazer muito barulho e o avio de Jaime levantou voo,
logo seguido do outro. Voaram para o vento, deram uma volta, subiram mais e tomaram o rumo de Leste.
Filipe soltou um suspiro de alvio. Estavam comeando a agir.

- 245 -

Em breve veria os companheiros. Que contentes eles iam ficar!
Passado algum tempo, disse Jaime a Filipe:
- Devemos estar a chegar ao vosso vale, Filipe. Espreita e v se reconheces.
Filipe olhou l para baixo e exclamou:
- Reconheo, pois. L est ele. E, olhe, esto l em baixo quatro avies!  ali que temos de aterrar! O melhor ser acautelarem-se porque os homens podem estar por
ali e disparar.
O avio de Jaime comeou a descer. Entrou no vento e aterrou sem novidade. O outro seguiu-o.
Os motores pararam. Silncio. Jaime esperou para ver se viria algum a correr. Ningum. Ento, ele e os outros comearam a sair. Filipe seguiu-os.
Parecia no haver algum por ali. Jaime ordenou aos seus homens que se espalhassem e passassem uma busca antes de irem mais alm. Em breve um deles soltou uma exclamao
:
- Olhem. Est aqui um, amarradinho, como um frango pronto a ser assado!
Era Firmino, meio morto de fome e de frio. Ficou to contente por o libertarem que nem se mostrou muito surpreendido ao ver tanta gente estranha. Ajudado por um
dos homens, foi cambaleando at Jaime.
- Pe-no na barraca e fecha-o l  chave - ordenou Jaime.
- Quem o teria amarrado assim, Filipe?
- No fao ideia - respondeu Filipe, intrigado. - Olhe, Jaime, esto aqui duas das nossas malas que caram da rvore.  curioso!
- Temos ainda de contar com sete homens - disse Jaime.
- Pois bem, o melhor  dirigirmo-nos s grutas do tesouro. Cuidado, rapazes, pode haver uma emboscada. No queremos que disparem contra ns sem estarmos prevenidos.
Partiram. Filipe foi indicando o caminho a Jaime. Este ficou muito admirado com o vale, as grandes montanhas, as runas queimadas.

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Parecia impossvel que os quatro pequenos tivessem vagueado por ali envolvidos em aventuras to emocionantes.
- Est a ouvir a queda de gua? - perguntou Filipe ansiosamente, passado um bocado. - Eu j a ouo. Estamos perto.
Os homens ficaram admirados com o barulho da queda de gua e boquiabertos ao v-la. No disseram grande coisa porque eram homens duros, dificilmente surpreendidos
com o que quer que fosse. Mas ficaram um bocado a olhar.
- Agora, cuidado. Estamos a aproximar-nos da entrada da gruta - disse Filipe por fim. - Acha que v eu  frente? Parece-me que ser melhor.

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Captulo XXXI - UM FINAL EMOCIONANTE


Joo, Dina, Maria da Luz, a Didi e o casal dos velhinhos estavam ainda na gruta das estrelas. Tinham precisamente acabado de almoar e estavam sem saber que fazer.
Que pena os velhinhos no quererem sair para a montanha! Estava um dia to lindo!
- Podamos bem ir apanhar um bocadinho de Sol - disse Maria da Luz, desejosa de o fazer. - Nada h a recear dos homens. No conseguem sair dali.
Mal disse isto Joo agarrou-a por um brao, fazendo-a dar um salto: - Caluda! Ouo vozes!
Puseram-se todos a escutar, cheios de medo. Era verdade. Ouviam-se vozes vindas do tnel que ia da gruta das estalactites at  gruta onde eles estavam.
- Mais homens! Depressa, escondamo-nos! - disse Dina, ardentemente. Tomados de pnico, os pequenos comearam a correr para o outro extremo da gruta, aos tropees,
fazendo ecoar os passos por todo o subterrneo.
- Alto! - ordenou uma voz firme, e um grande vulto entrou na gruta e parou.
- Quietos! Mos no ar!
Maria da Luz reconheceu a voz. Era-lhe familiar.
- Jaime! Jaime! - gritou. -  Jaime, j pensvamos que
nunca mais vinha!
Atravessou a gruta numa corrida e lanou-se nos braos de Jaime, que ficara muito admirado.
Joo e Dina seguiram-na, gritando de alegria. Maria da Luz avistou Filipe e lanou-se-lhe tambm nos braos.

- 249 -

-  Filipe! Filipe querido, que conseguiste escapar e ir buscar o Jaime!
Filipe ficou admirado por ver os pequenos e os velhotes ali. Deixara-os nas grutas do tesouro. Como teriam conseguido sair? E onde estariam os homens?
Os velhinhos foram-se aproximando devagar, meio assustados por verem tanta gente  luz de potentes lanternas.
Jaime foi amvel com eles.
- Pobres toupeirinhas assustadas - disse ele para Filipe.
- Ho-de ser bem tratados e recompensados. Mas onde esto esses homens?
- Tranquei-os l dentro - disse Joo muito orgulhoso.
- Esto presos nas grutas do tesouro.
Isto  que Filipe no sabia, nem to-pouco Jaime. Interrogaram Joo ansiosamente e ele contou-lhes como a velhinha lhes mostrara o buraco por trs do quadro e como
eles haviam conseguido fugir por ele at  gruta do eco e dali at  do feto. Como Joo fora depois  cabana dos homens e encontrara Firmino e o amarrara e, finalmente,
como tivera aquela ideia brilhante e viera a correr trancar a porta aos homens.
- Estou a ver que trabalhaste bem! - comentou Jaime.
- Mas no vai ser tarefa fcil tir-los das grutas. Estou a pensar se ser possvel apanh-los de surpresa pelas costas. Entrvamos pelo buraco por trs do quadro
e pregvamos-lhes um susto.
- Isso! - exclamou Joo. -  claro que  possvel. Deixava aqui um ou dois dos seus polcias ao p da porta trancada para atrair a ateno dos sete homens e, enquanto
eles gritam um para o outro, os restantes podem ir pelo outro lado e apanh-los de surpresa.
- Parece-me um bom plano - respondeu Jaime, dando logo umas ordens. Depois virou-se para Filipe e disse:
- Vou deixar aqui dois agentes. Daqui a meia hora leva-los at  porta para eles atrarem a ateno dos homens. Tu, Joo, vens comigo e com os outros mostrar o caminho
para a gruta do feto,

- 250 -

e depois pela gruta do eco at  passagem que vai dar ao buraco por trs do quadro.
O grupinho partiu. Os dois homens que ficaram esperaram meia hora e, depois, foram com Filipe at  porta trancada, ao fundo das escadas de caracol. Bateram  porta
e
gritaram.
De dentro respondeu-lhes uma gritaria:
Quem est a? Deixem-nos sair! Abram a porta!
Os homens do lado de dentro batiam  porta e os de fora faziam o mesmo. Era uma confuso de barulho. Estavam ali todos sete, discutindo, batendo na porta, gritando
que os libertassem e, de uma maneira geral, perdendo a cabea.
Entretanto, Jaime, Joo e os outros homens tinham ido para a gruta do feto, entrado e descoberto, desolados, que tinham de arrastar-se pelo buraco em forma de cano
que ficava l atrs. Um deles ia ficando encravado.
- Vocs, midos, sempre se metem em belos apertos - disse Jaime, vindo a sair na gruta do eco. - Estou cheio de calor!
"Calor, calor, calor, calor!", repetiu o eco imediatamente. Jaime deu um salto.
- Que  isto?
"Isto. Isto!", respondeu o eco, alarmante. Joo desatou
a rir e disse:
-  o eco.
A Didi ps-se a gritar e depois apitou como um comboio.
O barulho era ensurdecedor.
- A Didi faz sempre isto aqui - afirmou Joo, indo  frente para mostrar o caminho. "Cala-te, Didi. s m!"
Pouco depois j eles seguiam pela passagem que ia dar  queda de gua. Mas antes disso chegaram ao buraco no tecto.
- Traz alguma corda, Jaime? - perguntou Joo. - Temos de subir por aqui. A minha corda ficou a amarrar o Firmino. Se me puser aos ombros e me ajudar a subir, eu
entro pelo buraco, prendo a corda l em cima e fao-a descer.
Isto depressa se fez. Um aps outro, os homens entraram pelo buraco, pensando que nunca na vida tinham trepado e rastejado tanto.

- 251 -

Olharam para Joo com admirao. Isto  que era um rapaz!
Joo chegou ao buraco que ficava por trs do quadro e ps-se  escuta. Nada. Os homens estavam todos ao p da porta a gritar, a discutir e a dar pontaps.
Joo empurrou o quadro e este caiu. O quarto estava deserto. O pequeno saltou para dentro do quarto e os outros seguiram-no, um a um.
- - Espero que no haja mais disto - disse um dos homens a Jaime. - O senhor precisa de homens mais magros para tarefas destas.
- Agora era melhor avanarem com cuidado - disse Joo. - Estamos perto das grutas do tesouro. Atravessamos trs grutas e depois chegamos  das imagens, onde fica
a porta trancada.
- Caluda, agora - ordenou Jaime e, caminhando silenciosamente com sapatos de sola de borracha, os homens avanaram lentamente de revlveres em punho.
Atravessaram a gruta do ouro, a dos livros e a dos quadros. A certa altura, Joo pousou a mo no brao de Jaime porque ouvira qualquer coisa.
- So os homens - disse ele. - Escute, pegaram em rochas ou coisa parecida e esto a martelar na porta. Pelo barulho parece-me que vo conseguir arromb-la.
Jaime saiu do tnel e entrou na gruta das imagens. Apesar de j prevenido por Filipe, no pde deixar de recuar um pouco ao v-las quela tnue luz esverdeada. Os
polcias puseram-se atrs.
Ao fundo estavam os sete homens. Tinham encontrado uma grande rocha e estavam tentando deitar a porta abaixo, batendo nela com toda a fora.
-  esta a melhor altura - segredou Jaime. - Tm as mos ocupadas. No se v entre eles um nico revlver. Vamos!
Os homens avanaram rapidamente por trs de Jos e dos outros e uma voz spera e firme ordenou:
- Mos ao ar! Esto apanhados!

- 253 -

Todos os homens tinham as costas voltadas para Jaime. Ao ouvirem a voz dele deram um salto e puseram imediatamente as mos na cabea.
Ento, Jos voltou-se, sempre de mos na cabea. Mirou o grupo de homens sisudos que tinha  sua frente e perguntou por entre os dentes:
- Como chegaram vocs aqui? Que outra entrada h para c? Quem nos trancou?
- Agora nada se responde - ordenou Jaime bruscamente, e gritou para os dois homens que estavam l fora.
- Eh! Raul! Jorge! Destranquem a porta. J os apanhmos.
A porta foi destrancada. Abriu-se e apareceram Raul e Jorge muito risonhos.
- Representmos bem - disse Jorge. - Eu ainda me diverti. Joo tambm apareceu. As raparigas tinham recebido ordem
de se afastarem at os homens serem capturados. Por isso, estavam na gruta das estrelas com o casal de velhinhos, esperando impacientemente.
Jaime contou os homens.
- Esto aqui os sete. ptimo. E o oitavo tambm j ns apanhmos. Raul, leva estes indivduos para os avies. Dispara ao menor sinal de tumulto. Eu fico aqui para
ver isto. Parece-me muito interessante.
Os homens l foram, algemados, praguejando e tropeando pelo caminho. Joo ficou a v-los ir, radiante por pensar que fora ele quem tivera a ideia de os trancar.
Jaime dera-lhe uma palmada nas costas pelo que ele fizera.
Depois dos homens terem atravessado a gruta das estrelas, as raparigas vieram a correr juntar-se a Joo, Filipe e Jaime. Mostraram tudo a Jaime, que ficou muito
admirado e at soltou um assobio ao ver tantos tesouros.
- Esto aqui fortunas - disse ele. - No vai ser tarefa fcil descobrir de onde vieram todas estas coisas para as tornar a mandar para l. Talvez Julius Muller nos
ajude.

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- E os velhinhos - disse Maria da Luz muito excitada. - Pelo menos sabem a histria da maior parte das imagens.
Fizeram com que o velhinho e a mulher se juntassem a eles e fossem tambm levados para os avies. Agora j no faziam qualquer objeco para no sarem. Pelos vistos,
pensavam que Jaime era um Grande-Homem-a-Quem-se-Devia-Obedincia. Curvavam-se perante ele sempre que ele lhes falava.
- Temos de os levar connosco para os interrogarmos - observou Jaime. - Mas, logo que for possvel, mandamo-los outra vez para a aldeia onde vive esse bom homem,
o Julius Muller.  muito possvel que ele se prontifique a tratar deles.
Todos se acomodaram nos avies, que eram seis ao todo. Em trs deles seguiam os oito prisioneiros com os guardas. Em dois outros os pilotos e os velhinhos. No avio
de Jaime iam
os pequenos.
O avio levantou voo e os pequenos olharam l para baixo,
para aquele estranho vale, pela ltima vez.
- Olhem bem para ele, olhem - disse Jaime. - Vai aparecer em todos os jornais: o Vale do Tesouro.
- No, Jaime. A Aventura no Vale! - disse Joo.- assim que ns lhe havemos sempre de chamar.
- Ainda bem que nada aconteceu  Marta - disse de repente Maria da Luz. - Gostava tanto dela. Era mesmo simptica.
- Cus! Quem  a Marta! - perguntou Jaime assustado. - Pensei que a senhora se chamava Elsa. No me digam que a Marta  algum que ns deixmos l por esquecimento!
- No, Jaime. A Marta vai ao colo da Elsa num dos outros avies. At  capaz de l pr algum ovo - respondeu
Maria da Luz.
Jaime ficou ainda mais admirado, mas Maria da Luz
explicou:
-  uma galinha. Ficou nas grutas com os homens e ns estvamos com medo que eles a matassem. Mas no. Ela acocorou-se debaixo da mesa e saiu de l a cacarejar quando
ns a fomos buscar.

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Nessa altura devia o Jaime estar ocupado a ver o ouro.
- Deve ter-me passado despercebida, deve - respondeu Jaime. - E pensar que ainda no travei conhecimento com uma dama desta emocionante aventura. Que pena!
"Que pena, que pena, que pena!", fez logo a Didi. "C-c-c-c-c! L se vai a Marta por gua abaixo!"


Composto e impresso na Tipografia Guerra - Viseu
e concluiu-se em Setembro de 1976


Data da Digitalizao


Amadora, Agosto de 2005
